Raízes e Resistência: a (re)construção da Identidade Quilombola em Horizonte, Ceará
()
Sobre este e-book
Relacionado a Raízes e Resistência
Ebooks relacionados
Comunidades Quilombolas: Outras Formas de (Re)Existências Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRetratos etnográficos da educação escolar quilombola do Estado de Mato Grosso: desafios políticos e pedagógicos Nota: 0 de 5 estrelas0 notasSaco Das Almas (brejo - Maranhão, Brasil) E A Construção Das Gestão Cultural Comunitária Nota: 0 de 5 estrelas0 notasDireitos Territoriais dos Remanescentes de Quilombos: interpretações em disputa nos Tribunais de Justiça Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRetalhos da Memória: os negros de Mangal/Barro Vermelho: Comunidades quilombolas do Médio São Francisco-Bahia Nota: 0 de 5 estrelas0 notasPovos Originários Do Rio Grande Do Sul Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAquilombar-se: Panorama Sobre o Movimento Quilombola Brasileiro Nota: 0 de 5 estrelas0 notasLoreto liberto Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO Brasil de Florestan Nota: 0 de 5 estrelas0 notasEnsino superior para os povos indígenas de Mato Grosso do Sul: desafios, superação e profissionalização Nota: 0 de 5 estrelas0 notasChegadas E Partidas Nota: 0 de 5 estrelas0 notasDo Quilombo que Eu Vim: Histórias de Vida e a Constituição da Identidade em Lagoa do Zeca Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA cor da cultura e a cultura da cor: reflexões sobre as relações étnico-raciais no cotidiano escolar Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA Formação Territorial dos Povos Indígenas no Brasil Império: uma discussão sobre ausência de direitos Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAdolescentes Quilombolas, Estudantes Urbanos de Ensino Médio: representações de identidade e diferença Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCultura e identidade quilombola: festas e saberes populares Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO retorno da terra: As retomadas na aldeia tupinambá da Serra do Padeiro, Sul da Bahia Nota: 0 de 5 estrelas0 notasPesquisa Histórica com a Imprensa em Mato Grosso: Fontes, Temas & Abordagens Nota: 0 de 5 estrelas0 notasComércio de almas e política externa: A diretriz atlântico-africana da diplomacia imperial brasileira, 1822-1856 Nota: 0 de 5 estrelas0 notas#Conversasliterárias: Notas de estudos literários e temas afins em tempos de pandemia Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO preço da liberdade: experiências de escravos e libertos na Vila de Inhambupe – Bahia (1870 – 1888) Nota: 0 de 5 estrelas0 notasOs Índios na História da Bahia Nota: 0 de 5 estrelas0 notasBrasil, 5 séculos de apagamento do povo Bantu: igualdade racial? Como? Quando??? Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMulheres Guarani e Kaiowá: Modos de Existir e Produzir Territórios Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMulheres negras no Brasil escravista e do pós-emancipação Nota: 5 de 5 estrelas5/5Os povos indígenas no Brasil Nota: 0 de 5 estrelas0 notasBabaçu, Terra e Memória de Comunidade: a história em três tempos de lutas Nota: 0 de 5 estrelas0 notas
Estudos Étnicos para você
A vontade de mudar: homens, masculinidades e amor Nota: 5 de 5 estrelas5/5Constituição da República Federativa do Brasil Nota: 5 de 5 estrelas5/5Olhares negros: Raça e representação Nota: 5 de 5 estrelas5/5Anseios: Raça, gênero e políticas culturais Nota: 4 de 5 estrelas4/5A gente é da hora: homens negros e masculinidade Nota: 0 de 5 estrelas0 notasInterseccionalidade Nota: 5 de 5 estrelas5/5África e Diásporas: Divergências, Diálogos e Convergências Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCrítica da colonialidade em oito ensaios: e uma antropologia por demanda Nota: 5 de 5 estrelas5/5O Exu Submerso uma Arqueologia da Religião e da Diáspora no Brasil Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAfrografias da Memória: O Reinado do Rosário no Jatobá Nota: 5 de 5 estrelas5/5A invenção das mulheres: Construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero Nota: 5 de 5 estrelas5/5Religiões negras no Brasil: Da escravidão à pós-emancipação Nota: 5 de 5 estrelas5/5Escrever além da raça: teoria e prática Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRomani Dromá Nota: 0 de 5 estrelas0 notasPensamento negro radical Nota: 0 de 5 estrelas0 notasSalvação: pessoas negras e o amor Nota: 0 de 5 estrelas0 notasErguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra Nota: 1 de 5 estrelas1/5Dinastia Dos Deuses ...e Uma Breve Crônica Da Raça Humana Nota: 5 de 5 estrelas5/5Batuque De Umbigada Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCapoeiras e Valentões na história de São Paulo (1830-1930) Nota: 0 de 5 estrelas0 notasIntrodução A Egiptologia Nota: 0 de 5 estrelas0 notasFamílias Endogâmicas Do Vale Do Acaraú Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO Pará Nota: 0 de 5 estrelas0 notasGaza no coração: textos de solidariedade à Palestina Nota: 4 de 5 estrelas4/5A revolta das elites Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAntissemitismo Na Alemanha Pré-nazista Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCaminhos da identidade - 2ª edição: Ensaios sobre etnicidade e multiculturalismo Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA propensão das coisas: por uma história da eficácia na China Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA consciência do impacto nas obras de Cruz e Sousa e de Lima Barreto Nota: 0 de 5 estrelas0 notasPáscoa Vieira diante da Inquisição: Uma escrava entre Angola, Brasil e Portugal no século XVII Nota: 0 de 5 estrelas0 notas
Avaliações de Raízes e Resistência
0 avaliação0 avaliação
Pré-visualização do livro
Raízes e Resistência - Marcus Antonio Cunha Bezerra
2
A ESCRAVIDÃO NO BRASIL
Oprocesso de escravidão no Brasil coincide com a própria transformação do território ocupado pelos povos originários em país moderno, em decorrência da exploração colonial. A escravidão foi implantada a partir de 1530, quando os portugueses iniciaram sistematicamente a tomada das terras da América, por meio da ocupação, organizada por meio das Capitanias Hereditárias. Nos primeiros momentos do Brasil Colônia, os portugueses praticavam o escambo como moeda de troca para os produtos trazidos da Europa. Posteriormente, relatos como o de Correa (2021) mencionam que os produtos foram levados através de uma expropriação violenta, à custa do massacre de milhões de indígenas nas Américas. Com isto, os indígenas eram obrigados a explorar os recursos naturais, como o pau-brasil, que eram levados pelos portugueses ao continente europeu (FREITAS et al., 2019).
A crescente ocupação da colônia e a instalação do sistema econômico colonial necessitavam de um elevado número de trabalhadores para atender à demanda das atividades de extrativismo e produção agrícola no sistema de monocultura extensiva, conhecido como plantations (BOTELHO, 2021). Os portugueses implantaram no Brasil o trabalho escravo que, por sua vez, já era praticado em outros tempos e diferentes localidades, como a Grécia e antiga Roma (COELHO, 2019). Desta forma, o primeiro grupo disponível para este tipo de trabalho foram os indígenas e esta forma de escravização foi utilizada em alta escala no Brasil e em outros países do continente americano, e não somente na América portuguesa (SCHWARTZ, 1988, p. 70).
2.1.1 A escravidão indígena no Brasil
Os indígenas foram os primeiros grupos a ser escravizado no Brasil Colonial português. Paulatinamente, e de maneira não uniforme, essa mão de obra passou a ser gradativamente substituída por homens e mulheres africanos escravizados. Entretanto, essa mudança foi lenta e essa transição não aconteceu de maneira uniforme (GONÇALVES, 2022).
Desta forma, estudos de Vieira (2021) e Dorigny (2019) apontam uma narrativa bastante utilizada no Brasil Colonial, a que os escravizados africanos eram indivíduos que resistiam mais ao processo de escravização em comparação aos crioulos, que eram negros nascidos no Brasil, e índios das Américas.
Os indígenas do Brasil Colonial foram primeiramente explorados por serem o grupo nativo no território expropriado. Ainda que o trabalho indígena fosse mais barato que o trabalho dos africanos, que precisavam ser capturados, adquiridos e trazidos de outro continente, uma série de fatores tornava a mão de obra escrava indígena mais complicada de se sustentar (GONÇALVES, 2022). Nos manuais de história do Brasil Colônia, é comum a menção a um suposto fator cultural, uma vez que os indígenas não estariam habituados a uma rotina de trabalho que visasse à produção de excedentes, já que sua cultura de trabalho era de subsistência. Além disso, havia o fato de que o trabalho na lavoura, na visão dos grupos indígenas, era um trabalho realizado somente pelas mulheres (STEDILE, 2005). Entretanto, não se pode excluir das considerações sobre o trabalho escravo indígena o fato de que o contato com os portugueses propagou doenças desconhecidas nas Américas que, juntamente com as lutas pela ocupação colonial do território do Brasil, contribuíram para o rápido declínio numérico das populações originárias e para a fuga para regiões de mais difícil acesso no interior (BANIWA et al., 2022).
Neste período, as fugas dos indígenas ocorriam com frequência, o que se tornou um problema para os portugueses. Uma vez que os índios possuíam amplo domínio e conhecimento do território, conseguiam se evadir e raramente eram recapturados. Havia ainda a oposição dos padres jesuítas, que se encontravam no Brasil para catequizar os indígenas, e que geravam impasses para a escravização dos indígenas pelos colonizadores. Estes padres criaram missões de evangelização no interior da América portuguesa, iniciando assim um processo de catequização dos indígenas, que também exploravam a sua mão de obra na produção de itens agrícolas e construção de seminários e igrejas. Outro fator a ser considerado foi a concentração de indígenas nas missões jesuíticas, que se mostraram uma prática nefasta devido ao favorecimento da proliferação de epidemias, geradoras de muitas mortes (SCHWARCZ; STARLING, 2015).
Desta forma, a atuação dos jesuítas contra a escravização dos indígenas criou diversos conflitos com os colonizadores interessados nessa atividade. Assim, a pressão exercida pelos religiosos para que a coroa portuguesa proibisse a escravização indígena resultou em leis que determinaram a proibição da escravização indígena em 1570, 1587, 1595 e 1609. Essas leis defendiam que somente em caso de guerra justa
é que os indígenas poderiam ser escravizados (CAMPOS, 1981).
Por outro lado, os bandeirantes paulistas que lideravam expedições em direção ao interior do Brasil Colonial foram outros beneficiados pela escravidão indígena. Este grupo abastecia parte do país com mão de obra dos nativos escravizados. Assim, mesmo com as reiteradas proibições, os indígenas escravizados trabalhavam na lavoura e em atividades relacionadas à produção do açúcar. Existem evidências que até a década de 1710 havia índios trabalhando em zonas de mineração no estado de Minas Gerais. Entretanto, no ano de 1757, durante o período do então secretário de Estado do Reino de Portugal, Marquês de Pombal, ficou proibida, de forma definitiva, a escravização de indígenas no território brasileiro (SANTOS, 2016).
Com a proibição da escravização dos indígenas, este modelo escravocrata passou a ser totalmente substituído pela inserção de africanos no século XVIII. Este modelo de escravização seguiu no Brasil mesmo depois de conquistada a independência e só teve fim em 1888, quando foi aprovada a Lei Áurea. A abolição da escravidão foi resultado do engajamento popular, que pressionou e forçou o Império a extinguir a atividade (NARLOCH, 2017). Convém mencionar que o Brasil se utilizou do trabalho escravo desde o início da sua colonização e foi o último país a abolir o regime escravocrata. Isso só aconteceu no século XIX, após o imperador D. Pedro II não resistir mais à pressão da Inglaterra, de outros países europeus e da sociedade brasileira da época para libertar os negros (PICCOLI, 2022). Desta forma, Mello (2005) afirma que:
A escravidão contemporânea […] inviabiliza o exercício da liberdade sob todas as formas. Inexiste direito de ir e vir, na medida em que os trabalhadores são constantemente vigiados por homens armados, que os obrigam a produzir, não obstante as péssimas condições, até que o serviço seja cumprido ou até que as infindáveis dívidas sejam quitadas. Já as demais formas de liberdade – pensamento, expressão coletiva e ação profissional – são cerceadas pela própria essência do trabalhador nessa situação. O analfabetismo, a ignorância da titularidade dos direitos e a falta de perspectiva de vida e de oportunidades de trabalho os alienam nesse mundo de escravidão, para onde frequentemente retornam, mesmo após a conquista da tão desejada liberdade física (MELLO, 2005, p. 66).
Outros fatores contribuíram para que essa força de trabalho escravo do indígena fosse paulatinamente substituída. Dentre eles, a intensa mortalidade em decorrência de epidemias adquiridas dos povos brancos, bem como a malária. Além disso, o fato de essas populações serem difíceis de dominar, por conhecerem bem o território e as florestas, foi outro fator preponderante para o insucesso de sua escravização (SALLES, 1971).
A historiografia oficial brasileira refere-se, frequentemente, à disseminação de doenças entre os indígenas como uma das justificativas para a interrupção da escravização desses povos, mas não se refere da mesma forma ao genocídio dos africanos escravizados, também expostos a doenças, às quais eram vulneráveis, e as condições de vida que propiciavam sua disseminação. Os navios negreiros eram os principais ambientes de contágio e as doenças disseminavam-se com facilidade entre as pessoas que tinham sua
