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Racconto - Sara Macêdo
Racconto
O caminho inverso
Giovanni Battista Marangoni – 30. Ângela Pallaro – 28. Caterina – 12. Pietro – 9. Carlo – 7. Giacomo – 3. Rosa – 0.
Um dia, uma das minhas preces foi ouvida e Deus enviou-me, por sonho, uma visão. Quem pode interpretar ou entender as mensagens de um sonho? Quanto tempo pode durar um sonho enquanto a história de uma vida toda pode ser passada por ele? Como aconteceu? Depois que a minha alma se encheu de sonhos e o meu coração de amor.
Um dia que mudou a minha vida para sempre, aquele ano em que parei de sonhar e quis realizar. Não tive medo de ousar, de subir sozinha num avião para uma terra desconhecida de língua indecifrável, mas de um som tão encantador que nunca mais saiu da minha mente.
Assim, me apaixonei pela Itália e comecei a história de busca incessante pelas minhas raízes. De repente, descobri que a minha família guardava um tesouro que ficava ali, disponível para qualquer um, mas, ao mesmo tempo, tão inatingível ou ignorável.
Comparei com uma criança que, apesar de amar os seus avôs, não sabe o valor que eles têm por serem tão temporários. Um dia eles irão partir, ficarão as lembranças e, com o passar dos anos, eles serão imagens preciosas dentro dos nossos corações; iremos nos perguntar, por que não os aproveitamos mais? As suas histórias, suas sabedorias? As suas simplicidades e o seu amor incondicional.
Passei anos da minha vida tendo o tesouro ao lado sem me dar conta e, quando os perdi, queria ter tido mais tempo, vasculhar a vida deles, as lembranças e fazer uma ponte até os meus antepassados. Queria ter aprendido a língua deles ou dos avós deles, ter visto o mundo com os olhos deles e das suas mãos calejadas transferindo, para dentro de mim, tanta vivência, tanta experiência e sabedoria.
Esse despertar mudou a minha vida.
Dali, comecei uma busca desesperada, primeiramente por documentos que me pudessem dar a cidadania italiana, mas depois, se tornou mais que isso… se tornou um pedido incessante de que a suas histórias fossem contadas e não mais esquecidas por meio de gerações.
Iniciei, então, uma busca por toda a Itália, por qualquer coisa, qualquer indício das suas vidas e só coletei fragmentos.
Os fragmentos inspiravam e davam-me sinais de quem tinham sido e por onde passaram, mas não sonhei os seus sonhos, não chorei a suas lágrimas, e isso era importante para mim. Orei, pedi a Deus que me pudesse conectar de alguma forma. E a minha Fé de que isso aconteceria era tão grande que aconteceu…
1888
Carlo Marangoni
Eu tinha uns treze anos quando resolvi escrever um diário com as lembranças mais nítidas que eu ainda tinha, e assim continuei por toda minha vida. Eu não queria que ninguém soubesse dele, do diário, portanto, escrevia sem ninguém saber e deixei ele guardado em um baú para ser entregue a qualquer descendente que despertasse interesse em mim.
Loreggia, 1888
Eram quase 12 horas, assim minha mãe tinha me ensinado, e eu pensava que estava certo porque o almoço era sempre ali por perto, quando o relógio tivesse suas pernas no mesmo ponto, bem lá em cima.
Como sempre, a fome me apertava o estômago, mas antes de comer, era minha tarefa chamar papai, que estava trabalhando, e meus irmãos mais velhos, Caterina e Pietro, que já o ajudavam. Mamãe dizia que no próximo ano seria eu, mas primeiro precisava aprender a escrever um pouco.
Mamãe era uma mulher forte que, enquanto segurava a pequena Rosa no colo, também fazia comida, limpava a casa e cuidava das roupas de todos nos. Eu era seu ajudante, mas gostava quando trocava de lugar com Caterina, então ela fazia as tarefas de mulheres junto com mamãe e eu podia ir à roça com papai.
Papai trabalhava com a terra, era assim que ele respondia quando qualquer um perguntava, mas para mim era com as plantas, as frutas, a natureza e os bichos. Meus irmãos maiores sempre iam com ele para ajudar, e também porque não gostavam de ficar em casa. O serviço de casa não era mesmo muito divertido. Queria aprender a ler logo, assim mamãe iria deixar eu ir com papai, e Giacomo poderia ficar em meu lugar como ajudante de mamãe e para tomar conta de Rosa.
Mas quando era sábado e domingo, todo mundo ficava junto; no sábado, às vezes, visitávamos vovó e vovô ou nossos tios. Às vezes também chegava visita e mamãe cozinhava para todos, nem sempre era bom porque tínhamos de ajudar a lavar a louça e deixar a casa limpa.
Os domingos eram mais tranquilos; papai cuidava da horta e dos bichos, eu e meus irmãos ajudávamos, e mamãe cozinhava uma macarronada de lamber os beiços. No fim da tarde, tomávamos um bom banho, colocávamos as melhores roupas, íamos à missa e olhar as pessoas na praça depois. Eu gostava de olhar a torre da igreja.
Nessa praça, havia um cheiro tão bom de comida, mamãe dizia que era pipoca e que, quando papai recebesse um aumento no emprego, compraria uma para nós. Eu já tinha experimentado uma vez, mas era como um tesouro poder ter um saquinho de pipocas.
Nossa cidade, Loreggia, era pequena, todo mundo era conhecido e frequentava a igreja aos domingos, como eu não tinha paciência para ficar ouvindo toda a missa, saía para brincar lá fora com outros meninos da minha idade.
Seu Giacomo era o dono da fazenda onde meu pai trabalhava, e os filhos dele, Giorgio e Giocondo, eram irritantes, eu não gostava quando eles estavam juntos em nossas brincadeiras. Meu pai dizia que o seu Giacomo era um bom patrão, e que se eu aprendesse a trabalhar bem, um dia seria meu patrão, assim como os filhos dele seriam chefes também. Embora parecesse algo tão bom aos olhos do meu pai, eu pensava em algo diferente para mim, não me via ali fazendo aquilo depois de adulto.
Rosinha era a filha da professora do colégio, era uma menina de sete anos assim como eu, e quando me encontrava na missa ela perguntava quando eu iria para a escola, assim seríamos colegas de classe e ela poderia me ajudar com as lições. Porém, papai precisava de ajuda no trabalho e eu deveria aprender a ler com mamãe, mas pensava muito que seria bom ir à escola.
Pietro foi à escola um tempo, mas não gostava, parou e preferiu ajudar papai; Caterina ia à aula sempre que podia e faltava quando o serviço de papai precisava de mais ajuda. Ela gostava da escola, mas dizia que as professoras sempre reclamavam que ela precisava se dedicar mais porque, com doze anos, já havia repetido dois anos e isso a fazia se sentir triste por achar que não era inteligente como as outras meninas da idade dela.
Mamãe não queria que acontecesse o mesmo comigo, então disse que me ensinaria a ler em casa; eu ajudaria papai por algum tempo e, quando as coisas melhorassem, iríamos todos à escola, até mesmo Pietro, e não pararíamos mais.
Na Páscoa daquele ano de 1887, papai estava mais feliz do que o normal. Disse que um grande amigo viria nos visitar com sua família e ter a Páscoa conosco. A semana toda mamãe estava arrumando nossas melhores roupas e pensando no que faria para nosso almoço quando a família de seu Bernardino chegasse.
Seu Bernardino era um homem magro, pequeno, mas que falava e gargalhava muito alto, parecia muito feliz. A mulher dele, não me lembro o nome, era quieta, mas logo arrumou o que fazer com mamãe na cozinha. Ele tinha quatro filhos, dois meninos e duas meninas. O mais legal era Mario, ele devia ter uns dez anos, mas era pequeno e parecia ter sete, como eu.
Mario me falava da escola, nossa, devia ser muito legal, ele tinha muitos amigos, jogava futebol com eles e o pai, que também trabalhava em uma fazenda, não queria que o filho deixasse de estudar.
Será que Bernardino tinha ficado rico trabalhando em fazenda? Porque, se ele tinha ficado rico, talvez papai também pudesse ficar, e assim eu poderia ir à escola e ter amigos da minha idade.
O almoço estava servido, a mamãe gritou lá da cozinha e eu realmente podia sentir o cheiro bom que vinha de lá. Caterina, que brincava com as duas filhas de Bernardino, mandou que fizéssemos fila para lavar as mãos e nós obedecemos, senão teríamos de dar contas à mamãe.
Nunca tinha visto a mesa tão grande, papai buscara uma mesa velha que tínhamos já esquecido fora de casa, mas coberta como estava nem dava para perceber, e além disso, o cheiro da comida misturado com a fome fazia com que a mesa parecesse a coisa mais bela que já tinha visto.
Havia uma bela macarronada e uns peixes assados que provavelmente haviam sido trazidos por Bernardino, porque papai não era um bom pescador. Salada farta retirada de nossa horta, assim como as batatas que faziam o contorno do peixe. Os pães haviam sido feitos naquela manhã pela mulher de Bernardino, como ela mesma disse.
Papai e Bernardino conversavam alegremente, na maioria das vezes falavam de trabalho. Bernardino se gabava por ter um bom trabalho, com um bom chefe, mas reclamava muito da Itália. Dizia que muita coisa havia mudado com a unificação, eu não sabia o que ele queria dizer, mas já havia ouvido isso outras vezes de outros amigos de papai. Que tudo estava mudando e que o nosso futuro estava ameaçado; que a miséria e o desemprego seguiam de mãos dadas.
Papai ficava sério com esse tipo de conversa, não sei por que, mas isso deixava-o pensativo. Ouvi Bernardino dizendo que se um dia as coisas piorassem, ele seria capaz de ir embora da Itália. Papai então perguntou:
— Embora? Mas para onde?
— América — ele disse. Eu nem sabia onde era América, mas fiquei com aquilo na cabeça.
Nossa Páscoa ficaria para sempre em minha recordação como lembrança da família unida, feliz, cheia de planos, em nossa pequena Loreggia, pois os dias depois daquele foram se tornando estranhos, apagados, como se uma nuvem de incerteza estivesse em cima de nós e aqueles fossem os últimos dias em que havíamos visto o sol. Parece que a tal miséria que andava de mãos dadas com o desemprego chegava em nossa região.
E tudo aconteceu tão rápido como se não tivesse o meio da história. Quando me lembro daquela visita na Páscoa, parece que o resto
