Terras Prometidas
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Terras Prometidas - Guilherme Aguiar Rodrigues
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Uma história repleta de
reviravoltas e fantasia.
Escrita e idealizada por :
GUILHERME AGUIAR RODRIGUES
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QUANDO O FOGO APRENDEU A CHORAR
Antes que o Reino dos Villar ruísse, houve um
instante de absoluto silêncio. Não era paz.
Era a respiração suspensa do mundo, como se os
céus, a terra e os dragões soubessem que algo
ancestral estava prestes a ser quebrado. O vento
cessou nos campos, as bandeiras penderam
imóveis, e até o fogo das tochas pareceu hesitar,
recusando-se a iluminar o que viria a seguir.
Clarice Villar lembraria daquele silêncio pelo resto
da vida.
Tinha doze anos e ainda acreditava que castelos
eram eternos, que reis morriam apenas nas canções
antigas e que dragões, por mais terríveis que fossem,
jamais permitiriam que sua própria casa fosse
tomada. Do alto das muralhas do castelo Villar, ela
observava o horizonte como quem encara um velho
amigo. Até que o amigo sangrou.
O primeiro sinal foi o vermelho.
Não o vermelho nobre dos estandartes Villar, nem o
carmesim cerimonial das salas do trono. Era um
vermelho impuro, agressivo, espalhando-se pelo
campo como uma doença. O exército dos Falluy
surgia sem anúncio, como um presságio que se
recusa a ser interpretado a tempo.
— Eles quebraram o pacto… —
murmurou alguém
atrás dela.
Clarice não se virou. Seus olhos estavam presos
àquela maré inimiga que avançava com disciplina
cruel. Homens, armas, estandartes negros e
dourados. O símbolo da família Falluy ondulava com
arrogância, como se já tivesse sido coroado sobre
cadáveres que ainda não existiam.
Foi então que Eysh Villar tomou-lhe o rosto entre as
mãos.
A rainha era feita de uma elegância severa, talhada
não apenas para governar, mas para resistir.
Contudo, naquele momento, havia nos olhos de Eysh
algo que Clarice jamais tinha visto: a consciência
exata do fim.
—
Escute-me como escutaria uma profecia
—
disse
ela, em tom baixo, urgente, definitivo.
—
O que cair
hoje não é apenas um reino. É uma história inteira. E
histórias só sobrevivem se alguém se lembrar delas.
Eysh ajoelhou-se, ignorando a poeira, o barulho
distante dos sinos de guerra, o estremecer das
muralhas. Dos braços da rainha surgiram três ovos,
grandes demais para pertencerem a qualquer
criatura comum. As cascas eram marcadas
por veios luminosos, quase como se veias de ouro e
esmeralda pulsassem sob a superfície.
—
Eles reconhecerão você
—
continuou Eysh.
—
Não
hoje. Talvez nem amanhã. Mas um dia, Clarice,
quando o mundo estiver pronto para pagar pelo que
fez conosco.
Os ovos estavam quentes. Vivos. Clarice sentiu
aquilo com uma clareza quase dolorosa, como se
tocasse futuros que ainda não haviam aprendido a
respirar.
O primeiro rugido ecoou pelo céu.
Nocruh desceu como uma catástrofe anunciada
desde a criação do mundo. O dragão ancestral dos
Villar rasgou as nuvens com asas que pareciam
feitas de noite sólida, seu corpo um monumento vivo
à aliança entre homens e fogo. Quando cuspiu
chamas, não foi apenas o campo que queimou, mas
a própria ideia de vitória inimiga.
Dellaya o seguiu, mais ágil, mais veloz, girando nos
céus como uma lâmina viva. Seus gritos não eram
apenas de fúria, mas de reconhecimento: ela sabia
que aquela batalha não era como as outras.
No campo, Donavann Villar comandava.
O rei não usava a coroa. Nunca usava em batalha.
Para ele, governar era um ato contínuo, não um
adorno. Sua espada descrevia arcos precisos, quase
rituais, e por onde passava, homens recuavam como
se enfrentassem algo mais antigo do que a guerra.
Harggon Falluy o encontrou no centro do caos.
O choque entre os dois reis não foi grandioso como
as lendas prometem. Foi brutal, íntimo, sujo. Ferro
contra ferro, ódio contra honra. Donavann cravou
sua lâmina no peito de Harggon com força suficiente
para atravessar ossos e ambição. Mas reis não caem
sozinhos.
O machado veio pelas costas.
Donovann Villar caiu de joelhos, não em rendição,
mas em cansaço. Quando tombou, o mundo
pareceu inclinar-se com ele.
O rugido de Nocruh partiu os céus em dois.
O fogo do dragão não distinguiu carne de coroa.
Harggon Falluy foi consumido em segundos,
reduzido a uma estátua disforme de ossos
incandescentes. O vento espalhou suas cinzas pelo
campo como um aviso tardio. Mas a morte de um rei
não encerra uma traição.
—
Agora
—
disse Eysh, já puxando Clarice pelos
corredores secretos do castelo.
—
Agora você corre.
Jordyn chorava, sua mão pequena presa à de Clarice,
os soluços misturados ao som distante de aço e
morte. Os corredores, outrora familiares, tornaram-
se túneis de despedida. Tapeçarias queimavam.
Estátuas ruíam. O castelo Khuoritt aprendia o gosto
da própria ruína.
A floresta estava próxima. Próxima demais para
prometer salvação.
A emboscada veio como vem toda desgraça
verdadeira: silenciosa.
Eysh morreu sem gritar. Seu corpo tornou-se
muralha, espada, promessa final. Jordyn caiu logo
depois, seu nome dissolvendo-se no ar antes de
encontrar resposta.
Clarice não lembraria exatamente como sobreviveu.
Apenas que correu. Que caiu. Que sangrou. Que
respirou quando tudo indicava que não deveria.
Quando o amanhecer chegou, encontrou-a
ajoelhada entre raízes e cadáveres, os ovos
apertados contra o peito como relíquias sagradas.
O céu estava vazio.
Nocruh e Dellaya haviam desaparecido. Arion
continuava preso nos porões que agora eram
túmulos. O fogo havia partido, como se até os
dragões soubessem quando é preciso se esconder
para não enlouquecer.
Clarice Villar chorou, enfim.
Mas não como uma criança.
Chorou como quem sela um juramento sem
palavras, um pacto silencioso com o futuro. O Reino
dos Villar estava em cinzas. Sua família, em morte.
Seu nome, em caça.
Ainda assim, o fogo dormia em seus braços. E o
mundo, cedo ou tarde, teria de acordá-lo.
A neve caía fina, tingindo de cinza o mundo que
Clarice conhecia como dourado. Seus pés,
protegidos por botas de couro fino que não foram
feitas para o barro, latejavam. Nas costas, o peso da
bolsa de palha parecia o de uma montanha; os três
ovos, frios como pedras de rio, eram tudo o que
restava de uma linhagem de reis.
Ao longe, uma fumaça tímida subia entre os
pinheiros. Uma cabana de troncos brutos, isolada do
mundo, oferecia a única promessa de calor em três
dias de fuga.
䒝
O Encontro de Lâmina e Medo
Clarice empurrou a porta com o ombro, a mão
pequena apertando o cabo de uma adaga de caça
que ela mal sabia empunhar. No canto da sala
escura, um vulto se mexeu.
—
Dê mais um passo e eu corto seus tendões
—
a
voz era aguda, mas carregada de uma agressividade
desesperada.
Um menino, não muito mais velho que ela, surgiu
das sombras. Ele segurava um machado de lenhador
que parecia pesado demais para seus braços
magros. Seus olhos eram como os de um lobo
acuado.
—
Eu não quero briga
—
Clarice disse, sua voz
falhando pela exaustão.
—
Só preciso de fogo. E de
um lugar para sentar.
—
Não tem comida aqui
—
o menino rosnou, sem
abaixar o machado.
—
Os soldados levaram tudo. Vá
embora.
—
Eu não vou a lugar nenhum. Meus pés estão
sangrando e eu tenho algo que não pode esfriar.
Eles se encararam por longos minutos, dois órfãos
testando a vontade um do outro. Por fim, o menino
abaixou a arma, embora o olhar permanecesse
desconfiado.
—
O nome é Arnold
—
disse ele, voltando a atiçar as
brasas de uma lareira moribunda.
—
E se você tentar
me roubar enquanto eu durmo, eu jogo você no
poço.
Eles se sentaram em lados opostos do fogo. Clarice
abraçava a bolsa de palha com um zelo que não
passou despercebido por Arnold. Para quebrar o
silêncio que cheirava a morte, ele começou a falar, a
voz monótona como se estivesse contando a história
de outra pessoa.
—
Eles vieram ao amanhecer
—
Arnold disse,
olhando fixamente para as chamas.
—
Não eram
soldados de verdade. Eram mercenários,
aproveitando que os exércitos do sul estavam em
movimento. Meu pai disse para eu me esconder no
silo de grãos. Eu vi pelos vãos das madeiras.
Ele apertou as mãos em punho.
—
Minha mãe tentou oferecer o ouro que tínhamos.
Eles riram. Meu pai pegou o machado
—
o mesmo
que estou segurando agora
—
mas eram cinco
contra um. Eles não apenas os mataram, Clarice.
Eles fizeram questão de queimar o celeiro com eles
dentro. Eu fiquei lá, cheirando a fumaça da minha
própria vida, até que o último deles partisse. Agora
só sobrou esta cabana e o frio.
䒝
A Queda dos Villar
Clarice sentiu uma pontada de reconhecimento. A
dor dele era crua, física. A dela, porém, tinha o peso
de um império desmoronando.
—
Você perdeu uma casa, Arnold. Eu perdi um
mundo
—
ela sussurrou.
Ele a olhou com desdém.
—
E quem é você para falar
de mundos?
—
Há três dias, eu acordei com o som de trombetas
que não eram as nossas. Os Falluy... eles não vieram
para saquear. Vieram para erradicar. Eles subiram as
muralhas de Villar como se as pedras estivessem
cansadas de nos proteger.
Arnold paralisou. A queda de Villar era um boato que
corria os bosques, mas ter a prova diante de si era
diferente.
—
Meu pai, o Rei, me entregou esta bolsa. Ele disse
que o futuro não estava nas coroas, mas no que
estava aqui dentro. Eu vi o salão principal ser tomado
por chamas verdes. Minha mãe... ela ficou para trás
para garantir que eu alcançasse as passagens
secretas. O último que vi de Villar foi a bandeira do
Dragão sendo rasgada e substituída pelo estandarte
negro dos usurpadores.
Ela abriu um pouco a bolsa, revelando a textura
escamosa e magnífica de um dos ovos.
—
Os Falluy acreditam que mataram a linhagem.
Eles acreditam que o fogo morreu com meus pais.
Mas enquanto eu respirar, e enquanto
