Fundamentos e práticas transformativas em mediação de conflitos
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Fundamentos e práticas transformativas em mediação de conflitos - Joyce R. Markovitz
I. EPISTEMOLOGIA
LOURDES FARIAS ALVES
Podemos nos perguntar qual o sentido para iniciarmos nossas reflexões falando de Epistemologia? Entre outros, o argumento mais consistente para nós é justamente o de apresentar a Mediação de Conflitos sob o ponto de vista epistemológico, fundamentada em ciências que validem seu corpo conceitual e norteiem sua prática.
Quando falamos de Epistemologia nos referimos à Teoria ou Ciência da origem, natureza e limites do conhecimento. É o estudo crítico e reflexivo dos princípios, dos pressupostos e da estrutura das diversas ciências.
Os problemas centrais com os quais a epistemologia se preocupa são:
•Definição de Conhecimento;
•Fontes do Conhecimento;
•Limites do Conhecimento;
•Relação do Conhecimento com a Verdade;
•Relação entre o Conhecimento e quem o possui. (JAPIASSU, 1975; BOMBASSARO, 1993).
Da mesma forma, são esses norteadores que estruturam o estudo crítico e reflexivo dos princípios e pressupostos que conferem credibilidade à Mediação de Conflitos.
Epistemologia — Construção do Conhecimento e Verdade
A construção do conhecimento, segundo Putnam (1994) é marcada pela influência dos filósofos que, embora tenham divergido ao longo dos séculos sobre o que existe de fato no mundo que nos rodeia, concordaram em relação a uma questão central: O que é a verdade? Para eles o conceito de verdade estava ligado ao de realidade objetiva.
Para Glasersfeld (1994, p. 26), o problema epistemológico de como conhecemos a realidade e se esse conhecimento é também sólido e verdadeiro, ocupa a reflexão dos filósofos atuais, não menos do que ocupava a de Platão
. Ao contrário da realidade metafísica, continua Glasersfeld, só podemos aceitar como verdade aquilo que corresponder a uma realidade objetiva e independente.
Ao longo da história, a busca pela verdade está presente em todos os processos de construção do conhecimento, que em constante transformação alterna períodos de tranquilidade e de crises paradigmáticas. Esse processo de questionamento epistemológico é quase sempre desencadeado por novas propostas, novas teorias e conceitos antagônicos e/ou complementares aos princípios já professados pelas diferentes comunidades científicas, capazes, portanto, de gerar novas visões de mundo, novos paradigmas.
Na primeira metade do século XX, o Modernismo como tradição filosófica ocidental compreendeu o período histórico no qual eram validados os conceitos cartesianos que afirmavam a objetividade da ciência, a visão do conhecimento como um processo individual, a noção de Sujeito independente do objeto do seu conhecimento e a Linguagem como forma de transmitir o pensamento e representar o mundo real (GRANDESSO, 2000).
Em meados do século XX o Modernismo é profundamente questionado em seus pilares mais centrais com o advento do pensamento sistêmico e os avanços da física quântica. Um novo paradigma amplia as possibilidades à construção do conhecimento incorporando aos conceitos de verdade, de objetividade e de certeza, os conceitos de acaso, de imprevisibilidade, de incerteza e de complexidade.
Os chamados Novos Paradigmas (SCHNITMAN, 1999) referem-se então às mudanças, pelas quais passaram a teoria e a prática científicas nas últimas décadas. Essas mudanças contribuíram em grande parte para a Virada Pós-Moderna⁹, especialmente a partir de 1970.
As bases epistemológicas do pós-modernismo propiciaram o surgimento de escolas e movimentos como o Construtivismo e o Construcionismo Social que oferecem fundamentação conceitual para a Mediação e tiveram grande repercussão no campo das Terapias Pós-Modernas.
O Construtivismo apoiou seus pressupostos sobre os estudos da Cibernética da Biologia, da Física, da Psicologia, da Filosofia da Ciência¹⁰, contribuindo para esclarecer, entre outras, questões relacionadas à existência de um Sujeito independente do objeto observado e à separação entre um mundo real e o mundo da experiência.
O Construcionismo Social está fundamentado na Filosofia da Linguagem contemporânea, nas práticas discursivas e no papel da Linguagem (PAKMAN, 2003). Define a importância da Linguagem como forma de entendimento entre as pessoas, instituindo o que é a verdade
a partir da criação de sentido entre as Redes conceituais de indivíduos e grupos e suas formas de estar no mundo.
Numa concepção construcionista social nossas construções de mundo e de nós mesmos são constituídas e limitadas pela própria Linguagem que pode gerar transformações pessoais e sociais como resultados de convenções compartilhadas (GERGEN & KAYE, 1998).
Considerando o conhecimento como um processo ativo e construído socialmente, o pós-modernismo questiona verdades universais aplicadas de forma estática e uniforme. Desse ponto de vista, Narrativas como Justiça, Ética e Razão não são valores eternos, universais e inquestionáveis, mas sim valores localizados no tempo e na cultura que os pratica e os institui como resultado do intercâmbio social. (PAKMAN, 2003).
A partir dessas premissas nos permitimos pensar que o antagonismo trazido pelas partes na Mediação resulta das diferentes versões da realidade e das diferentes descrições sobre os fatos que geraram o conflito, a partir do que é a verdade ou do que é certo para cada um dos participantes desse conflito.
Na Mediação as questões são reavaliadas e as diferentes versões da realidade podem ser Redefinidas, ampliadas e, quem sabe, reformuladas.
Assim, epistemologia e verdade, direcionadas à prática da Mediação Transformativa de Conflitos, apontam para a importância da elaboração e ampliação da fundamentação teórica existente como fonte para novas percepções do mundo e de si mesmo, para a construção de Narrativas alternativas direcionadas à transformação das relações entre pessoas e grupos.
Epistemologia e Mediação de Conflitos
Podemos conceber a Mediação de Conflitos como um saber comprometido com a epistemologia contemporânea dos novos paradigmas do conhecimento. Fundamentada nas abordagens Construtivista (centrada nos processos construtivos) e Construcionista Social Sistêmica (centrada nos processos relacionais). A Mediação vem sendo aplicada aos diferentes campos da convivência entre pessoas, grupos, empresas, comunidades e nações.
Do ponto de vista epistemológico, não consideramos como tal, a Mediação baseada no senso comum, na observação ou outras formas populares de aconselhamento para resolver conflitos nas diferentes situações do dia a dia. Estamos, sim, nos referindo à Mediação de Conflitos como um saber, uma episteme resultante da transversalidade multidisciplinar que compõe sua base epistemológica. Sua metodologia permite uma prática que está fundamentada em procedimentos, técnicas e estratégias ordenadas por critérios e princípios coerentes com a perspectiva teórica adotada. (MUSKAT,
