Fé, bem-estar: um olhar introspectivo
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Fé, bem-estar - Elias Bernardo Silva
Apresentação
O pano de fundo desta história é a vivência, ou a sobrevivência, em instituições onde o sistema educacional era controlador, disciplinador e muitas vezes agressor, e ao mesmo tempo acolhedor e promissor.
A história real da minha vida, que contarei nestas páginas, foi vivida em três instituições diferentes, divididas por faixas etárias devido às idades propostas a cada instituição. O sistema ao qual me refiro acima nada mais é do que o controlador, o tutor, o administrador de nossas vidas.
O órgão federal responsável por transformar pequenos órfãos ou crianças carentes em homens formados para serem inseridos na sociedade com mais chances de se destacarem na vida.
Esta história começa no ano de 1966 e se estende até 1987.
O sistema ditatorial comandado a mãos de ferro pelos governos foi o que moldou esta história nos anos de Jumbo, como era denominado esse período vivido pelo povo brasileiro. É um olhar visto de dentro dessas instituições, onde os desafios e a sobrevivência eram a principal pauta do dia.
Viver nessas instituições naqueles anos de repressão e domínio do sistema era também fazer parte da história de nosso país daquela época.
Viver em um colégio interno nos anos 70 e 80 com codinome de FEBEM
colocava medo em qualquer habitante em todas as cidades brasileiras.
Ter esse olhar de dentro dos muros dos orfanatos, mostrar como era a metodologia de ensino e também de controle, que às vezes era cruel e desumana, mas com pinceladas de generosidade, carinho e proteção. Desde o meu nascimento, me tornei protagonista desta história surpreendente, cheia de tramas, aventuras e superação.
O comando da nação era ditatorial, mas a metodologia de ensino e educação era rígida, repassada por homens e mulheres que eram responsáveis pela nossa guarda, em uma regra simples de controle e domínio; bater para poder controlar. Repreender para poder silenciar os gritos que não podiam ecoar além dos muros.
Hoje o país vive em um regime democrático de direito e livre. Por isso, sinto a vontade, após 50 anos, de soltar esse grito que ficou por décadas preso em minha garganta, em minha memória, e agora fico feliz em ter a experiência maravilhosa de poder transmitir toda esta vivência.
Permaneça com os olhos e mente abertos para poder enxergar de dentro e entender o que foi ficar sob a tutela desse sistema por anos.
Nestas páginas, você sentirá na narrativa um pouco do que vivemos, sofremos e sentimos dentro dos muros de alguns internatos do nosso país.
A história é forte, emocionante, impactante, mas é uma bela história de superação. Espero que goste e se delicie com ela. Porque o que é bom deve ser compartilhado.
Capítulo 1
Vida, luz e esperança
Hoje é um daqueles dias maravilhosos em que escreverei uma parte crucial de minha história, às vésperas de completar meus 50 anos.
Fixo meus olhos nas lâmpadas fluorescentes do teto do meu local de trabalho. Meio que perdido em meus pensamentos, voltados para minha primeira infância, não percebo minha colega de serviço me chamar por mais de uma vez. Logo peço desculpa pela minha distração. Realmente, ela estava coberta de razão.
A princípio, meu pensamento estava voltado para o corredor de um hospital. Ouço vozes gritando:
— Doutor, esta mãe está passando muito mal, o estado dela é muito sério, ela está grávida de gêmeos, e o parto será de risco.
— Ela está muito fraca e desfalecendo!
— Leve-a imediatamente para a sala de cirurgia. Vamos, rápido com isto, pessoal! — gritava o doutor, já demonstrando um ar de preocupação com a situação da paciente.
Pouco tempo depois, apareceram outros médicos informando que se tratava de uma cirurgia de risco, pois a paciente estava muito debilitada e estava gestando duas crianças.
— Vamos, pessoal, temos que salvar estas crianças — sussurrava a enfermeira, um tanto aflita. Mais alguns minutos de tensão, ouviu-se novamente a voz angustiada da enfermeira: — Oh, meu Deus, doutor, ela está indo embora!
O médico respondeu a ela:
— Ela vai resistir, vamos salvar os bebês.
Mais alguns minutos, o médico informou que a primeira criança estava chegando.
— Doutor, a menina não está respondendo aos estímulos — dizia o médico assistente.
— Leve-a imediatamente para a sala do neonatal — retrucou o médico titular, concentrado na cirurgia para resgatar as outras vidas que estavam aos seus cuidados. Alguns instantes depois, o ambiente foi tomado pelo choro estridente de um bebê, trazendo alívio e uma sensação de vitória naquele recinto que estava carregado de muita tensão.
— Bom trabalho, doutor — falava toda emocionada a enfermeira que acompanhava desde o começo aquele procedimento.
— Infelizmente perdemos a mãe. Como estão os outros bebês? — perguntou o médico com certa preocupação.
— O estado de saúde da primeira criança requer muitos cuidados, doutor — retrucou a enfermeira.
Foi nesse ambiente de pura complexidade e propósitos divinos que superei e venci minha primeira batalha para sobreviver neste novo mundo.
Capítulo 2
Primeira infância
Era um final de tarde, início da década dos anos 70. Estava brincando junto com outras crianças em uma área de lazer acompanhado de perto pelos monitores da creche, quando fui atraído por uma imagem que me chamou muito a atenção. Avistei um grande urso de pelúcia com enormes olhos, e parecia que estava sorrindo para mim. Percebi um homem que segurava aquele urso com certa aflição. Ele agarrava forte o alambrado de arame que dividia a área do orfanato com a rua. Com os olhos cheios de lágrimas, percebi que ele gritava por meu nome insistentemente.
— Olha ele ali, é ele, sim — dizia o homem para uma senhora que estava em sua companhia. — Elias, vim te buscar. Venha cá, meu filho, olha só o presente que papai trouxe para você.
Sem entender nada do que aquele homem falava, mas atraído por aqueles enormes olhos do urso de pelúcia, fui me aproximando lentamente para perto do alambrado. Meus olhos estavam repletos de alegria, sintonizados e hipnotizados com aquele brinquedo. Já com um sorriso estampado no rosto e com os braços estendidos em direção daquele homem, senti repentinamente um solavanco no meu braço e ouvi uma voz estridente gritando bem perto de meus ouvidos.
— Venha aqui, garotinho, já não te falei que não pode conversar com estranhos?
Fui puxado com tanta força pelos braços pela monitora, que só deu para ouvir os gritos desesperados daquele homem que carregava um enorme bicho de pelúcia. — Volte aqui com meu filho, vim buscá-lo para levá-lo para casa. Não leve meu filho, senhora! — gritava o homem, desesperado.
Continuei sem entender nada do que aquele homem falava. Muitos anos depois, vim a saber que aquelas eram as últimas lembranças que tive do meu velho pai.
Nesse período, já contabilizava meus quatro primeiros anos de vida, vividos na FEBEM
do Barreiro, na cidade de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Certa manhã, fui acordado aos berros pela monitora.
— Vamos acordar, seus pestinhas, temos uma longa viagem pela frente. Acordem e vão aos banheiros. Um, dois, três… onze, doze, estão todos aí — gritava nervosamente aquela mulher. — Muito cuidado — dizia ela ao motorista —, temos bastante chão para rodar. A transferência destes garotos para outro orfanato está programada para seis ou sete horas de viagem, se tudo ocorrer dentro da normalidade. Vamos depressa, que não quero me atrasar. Cubram-se e fiquem quietos, garotos — dizia ela, com voz de poucos amigos.
Partimos de madrugada, o vento e o frio eram desconcertantes.
— Acordem, acordem, vamos fazer uma parada para vocês irem ao banheiro. Acordem, meninos — insistia ela, dando solavancos para que obedecêssemos às suas ordens. Fingi que nem eram comigo aquelas ordens e continuei dormindo o sono dos anjos.
Na metade da parte da manhã, a Kombi fez uma parada à beira da estrada para tomarmos um café. Alguns quilômetros depois, fez uma nova parada. Com uma expressão de preocupado, o motorista tinha avisado a mulher que o carro havia apresentado algum estrago devido a um barulho que havia saído do motor do veículo. A monitora saiu nervosa do carro gritando para o motorista que estávamos atrasados. Desembarcamos do veículo e ficamos todos sentados à beira da estrada. Quanto mais o tempo passava, mais a monitora ficava irritada. Ficávamos ali brincando de adivinhar as cores dos carros que passavam na estrada. Para as crianças, era uma festa só. Gargalhadas se espalhavam de tanta alegria que estávamos sentindo naquele momento de liberdade.
— Fiquem quietos, fiquem quietos, seus pestinhas — esbravejava aquela mulher, muito nervosa.
Desesperada, ela perguntava insistentemente ao motorista:
— Será que o outro carro ainda vai demorar?
Algumas horas depois, eis que chega outra Kombi. Para nossa sorte, ela trazia alguns lanches para matar nossa fome. A viagem prosseguiu com a garotada fazendo a festa dentro do carro.
— Olha lá que caminhão bonitão — gritava um dos garotos. O outro emendava aos berros:
— Aquele é meu — apontava para um ônibus que passava ao lado.
— Não estou aguentando mais este barulho que estes pestinhas estão fazendo — resmungava a mulher ao motorista, que só permanecia rindo dela.
A Kombi saiu da rodovia e pegou uma estrada de terra à margem à direita. Em alguns minutos, nos deparamos em frente a um grande portão em forma de arco com os dizeres: Bem-vindos à Cidade dos Meninos
. Ficamos deslumbrados com o lugar, todo cheio de árvores e com algumas construções ao redor. Várias crianças estavam vestidas com shorts azuis e sem camisas. Com os olhos arregalados, rodeavam a Kombi para ver os meninos que chegavam. A mulher desceu com as papeladas dos garotos na mão e passou para uma outra senhora, que perguntou:
— Como foi a viagem? Tenho a informação de que estão atrasados em pelo menos duas horas.
A mulher informou sobre a viagem para a outra vestida de branco e com véu na cabeça. O local era muito bonito, tinha do lado direito um parquinho com escorregador, balanços, trapézio e outros brinquedos fixos. A monitora se despediu de nós e entrou na Kombi. Aborrecida, gritou em voz alta:
— Tchau, seus pestinhas. Espero nunca mais vê-los novamente — esbravejava aquela senhora rabugenta que mais parecia uma bruxa. A Kombi deu a volta no pátio e bateu em retirada, seguindo o seu caminho de volta à capital.
Capítulo 3
Um recanto cinzento
Adultos conversavam com algumas crianças em um grande pátio, alguns meninos brincavam de
