Histórias e vidas: Além do olhar
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Sobre este e-book
Como parte da Mostra de Literatura, um projeto que já atingiu mais de trinta mil pessoas, este livro é um marco e um incentivo para aqueles que desejam trilhar no árduo caminho literário. Mas quem disse que a vida da pessoa com deficiência visual (aliás, qualquer deficiência) é fácil?
Mesmo com tantos atropelos e falta de acessibilidade e de políticas públicas eficazes, em muitas linhas escritas aqui, as lágrimas correm por nossa pele. Histórias de superação, histórias de emoção e histórias de ensinamento. Tolo é aquele que pensa que sabe mais. Ser uma pessoa com deficiência não desmerece qualquer talento. Temos aqui narrativas que nos ensinam o que é viver e enxergar além do nosso olhar limitado.
Que cada página deste livro combata o preconceito, promova a inclusão e traga mais visibilidade para um propósito de vida, promovendo o respeito e a dignidade da pessoa humana.
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Histórias e vidas - Andrey do Amaral
Contos e
Crônicas
O PIANISTA
SUZY H. HEKAMIAH
DURANTE TODOS OS DIAS EU PODIA OUVIR SUA MELODIA. A melodia do pianista no final da rua. Poucos tinham conhecimento de sua aparência. Aqueles que o viram diziam que era alto, um tanto corcunda e vestido de preto dos pés à cabeça com uma capa. Porém, esses poucos eram mistérios à parte. Eu não sabia dizer quem o viu, de onde surgiu essa descrição e isso desafiava minha curiosidade.
O misterioso pianista exibia sua melodia suavemente no crepúsculo dos dias. Talvez fosse a hora em que acordasse, talvez fosse sua conexão com o mundo. Seu casarão parecia abandonado há séculos. Em frente, árvores velhas com seus rostos velhos estampados no tronco enfeitavam o terreno.
O som do piano era sereno, como se celebrasse e chorasse algo. O lugar era um enigma. Meu enigma preferido. O ambiente exibia um ritual calmo e nostálgico, eu queria ir mais além e ver quem se escondia atrás daquela cerca. Aquele som entrava em minha mente e, mesmo distante, ainda podia ouvi-lo.
Na Vila Rose a maioria das pessoas eram reservadas e a casa do pianista era apenas uma lenda viva. Para as crianças, era dito que, se alguma desobedecesse, a pianista as devoraria vivas, assim como Saturno devorou seus filhos. As mais crescidas jogavam pedras nas janelas – Crass!Crass!. Frequentemente era possível ver mais um vidro quebrado, mas o dono ignorava. Quem acreditaria que ali morava alguém, se não fossem as notas ao entardecer?
Na caixa de correio estava o nome: Sr. Manson. Nunca havia cartas, então alguém sempre as recolhia. Naquele dia, quando o carteiro passou, eu discretamente observei. Passaram-se as horas até o anoitecer. Quem sabe o Sr. Manson aparecesse? Mas ele não apareceu, e ali a carta ficou no sereno, esperando a chuva que se aproximava.
Eu, um jovem de vinte e poucos anos, vigilante em frente a uma casa misteriosa na noite serena, apenas para registrar a face do pianista. Atrás dos muros poderia haver apenas um velho reservado de sua vida social. Ignorando a vizinhança, vendedores de seguro, e conectando-se com o lado de fora apenas pela música.
Entretanto, em algum lugar da minha intuição eu sabia que não podia deixar a história apenas em lenda. Queria ter uma chance de desvendar aquele lugar e descobrir seu morador, na estranha Canela.
Passou-se um curto espaço de dias. Resolvi, novamente, olhar aquela casa fantástica! Sim, fantástica, pois era de pura fantasia. Parecia uma arquitetura em névoa vinda dos sonhos, aquele tom esverdeado escuro que a rodeava a noite. E todo o clima envolvendo um lugar ainda desconhecido por tantos. Sabe aquelas imagens de sonhos que você quer encontrar na realidade? Alguma noite onde a lua está aparecendo e você sente que está vivendo em algum lugar surreal?
Foi então que, naquele entardecer, o pianista parou de tocar. Fiquei à espera, encostado ao muro, com os olhos fixos em cada canto da casa. Fiquei ali a noite toda, não era necessário contar as horas. Apenas fiquei lá, pronto para presenciar a melodia dramática até o final. E lá, na discreta janela, no canto esquerdo da casa, pela primeira vez eu notei algum movimento. O formato de um rosto se fez em sombra, mexendo a cortina, parecia que sabia que estava sendo vigiado, embora a fama de fantasma fosse sua.
Eu tinha uma ilha em meus pensamentos e só queria uma foto, nada mais. Conversar com ele? Talvez, mas não um objetivo.
A luz do cômodo em que ele estava apagou-se e a do cômodo superior se acendeu. Logo após, tudo voltou a ficar escuro. A porta da casa abriu-se, arranhando os ouvidos pelo som da madeira velha. Os sinos pendurados em frente à entrada deram sinal de que alguém saíra. Passos curtos, preparei minha máquina. Observei um velho homem que, lentamente, dirigia-se ao jardim. Não pude ver sua face, até que levantou o rosto olhando para o nada. Ele ia em direção a algo. Mais um giro em direção a mim e eu teria minha foto. Poderia, enfim, mostrar aos vizinhos e provar que ele era uma pessoa real, um artista desconhecido, uma fortaleza em pessoa, eu poderia...
A luz da tímida Lua, atrás das nuvens, deu graça ao momento e ajudou a revelar, junto com o flash da câmera, uma máscara não moldada, no exato instante em que o clarão chegou ao seu rosto. Eu não esperava ver aquilo: uma face desconfigurada, como se estivesse queimada. Era possível sentir, mesmo de longe, o relevo das marcas e um olhar estranho. Estranho, mas à espera de algo. Minha câmera caiu no chão úmido entre as folhas do outro lado do muro. Eu me escondi e tive sorte que ele não percebeu minha presença. Levantei o olhar acima do concreto e não o vi. O homem não estava mais lá. Com cuidado, pulei o muro para recuperar meu equipamento.
Do outro lado, em linhas inimigas, minha câmera estava suja, esperei que não tivesse estragado. Chequei as fotos e me deparei com as imagens embaçadas, em nenhuma delas o homem aparecia. Uma a uma fui passando, mas não havia nenhum registro. Malditas câmeras baratas!
Olhei de volta para o muro, parecia mais alto do que o normal. Um pé depois do outro, e o limo entre os tijolos deixava a textura escorregadia. Meus pés não encontravam segurança, meus dedos perdiam-se na parede de concreto. Como foi mais fácil pular (cair) do que subir! As grades enormes no portão não eram nenhuma escada, mas com sorte deveriam estar abertas. Alguns instantes pensando no que fazer e pude ouvir sussurros. A garota na quinta avenida aguardava o ônibus. Entre as grades, meu olhar torto seguia o Sr. Manson, que voltava de um rumo desconhecido. Ele se aproximou com gestos seguros. Era realmente alto e lembrava um vulto perdido. Então, o homem segurou o braço dela, de forma que as veias do pescoço feminino saltaram por causa do susto contra o ato. O rosto sob a capa deu graças e ela tentou gritar. Antes que sua voz alcançasse qualquer som, ele a dominou. Ela caiu sobre seus braços – hipnotizada. Envolveu-a com a capa e levou-a para a casa.
Os portões abriram-se assim que ele deu as caras para a entrada. Era uma chance para sair, mas eu queria ver até onde iria.
Com ela, ele entrou. Com ela, seguiu até uma sala nos fundos da casa. Com ela, estava prestes a saudar a noite. Com meus passos leves e ansiosos, eu o segui até a varanda, garantindo-me de que ele não percebesse minha presença. Olhei, pelas frestas da janela fechada, para a cena lá dentro: a capa do homem desceu e, com um gesto rápido, colocou-a sobre o piano. A sala era maior do que aparentava. Deitou a garota sobre o piano, um braço apontava para o chão e o outro repousava sobre o coração. O olhar dela estava parado, focado para o nada, como se estivesse em transe. Ficou sem se mover. Veias salientes moldavam a nuca careca dele. Sem pronunciar uma palavra, aproximou a face dela, percorrendo o cheiro do corpo alheio. Passou a mão esquelética por baixo de seu pescoço, levantando-a parcialmente, e sua boca abriu caminho sob os cabelos castanhos do sacrifício. O velho ergueu o maxilar forçando os músculos, suas veias enrijeceram-se dos ombros à testa, a pele ficou turva, acinzentada por causa das cicatrizes. Então, caninos mostraram-se poderosos indo em direção ao pescoço da vítima. Eu estava diante de um noturno, de um vampiro! Livros de ficção? Não, era real! Evitei as fotos e filmei tudo. Era um bom arquivo.
O sangue dela escorreu até as teclas do piano. Fraca demais para reagir, parecia dominada por um espírito estranho. As mãos trêmulas do vampiro afastaram-se e ele se debruçou sobre as chaves do piano, o sangue escorria de seus lábios. Era surreal.
As primeiras notas começaram a quebrar o silêncio, a melodia percorria o ambiente. Era a música vinda da alma do solitário pianista, apreciando seu próprio momento. Saí incrédulo, sem deixar pistas. Não reagi. Não senti ódio ao ver aquela cena. Apenas pena de alguém abandonado, guardando seu segredo. Não era para ser mal, era natural.
Dias depois, quando as manchetes denunciavam desaparecimentos de garotas, eu finalmente compreendi. Ele escolhia garotas jovens... E eu tinha uma prova. Poderia entregar, mas àquela altura, eu não conseguia parar de escrever certo conto...
A INVASÃO DO SENSÍVEL
MICHELLE BELATTO
O ENCOBRIMENTO DA VISTA FOI RETIRADO. A PAISAGEM PRECISOU suspender-se para se revelar no dia seguinte. Na hora marcada, a clareira que se abriu preencheu-me por inteira, como o sol tomaria um confinado após deixar a caverna onde permaneceu por muito tempo. Assustei-me com o grito das cores, antes desbotadas pela película nebulosa. As figuras borradas, misturadas, duplas, então, definiram-se por seu contorno, evidenciando os espaços, as profundidades. A névoa que me assombrava, aos poucos, burlou-me a noção do apreensível pelo olhar. Sorrateira, a camada nevoenta chegou em silêncio, induzindo-me a pensar que era parte do meu todo. Só dei por sua existência quando seu grau de maturação me paralisou: achei que fosse um imenso cansaço, mas era
