Direito e religião
()
Sobre este e-book
Leia mais títulos de Régis Fernandes De Oliveira
As desigualdades sociais, a mulher e a liberdade no direito Nota: 0 de 5 estrelas0 notasInterpretações, paixões e Direito: O sentimento trágico do Direito e seu ignorado aspecto fenomenológico Nota: 0 de 5 estrelas0 notasDireito e arte Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO assassinato do presidente Nota: 0 de 5 estrelas0 notasDivagações sobre um mundo em crise: Betelgeuse – Covid-19 mudando pessoas Nota: 0 de 5 estrelas0 notas
Relacionado a Direito e religião
Ebooks relacionados
Teologia e direito: O mandamento do amor e a meta da justiça Nota: 0 de 5 estrelas0 notasReligião e Direito: a influência da religião nos rituais do judiciário contemporâneo Nota: 0 de 5 estrelas0 notasEstética da Estupidez: A arte da guerra contra o senso comum Nota: 0 de 5 estrelas0 notasTeologia e saúde: Compaixão e fé em meio à vulnerabilidade humana Nota: 0 de 5 estrelas0 notasTratado sobre a Tolerância Nota: 0 de 5 estrelas0 notasIntolerância Religiosa no Ambiente de Trabalho: um estudo sobre seus mecanismos, implicações e soluções Nota: 0 de 5 estrelas0 notasSobre a Legitimidade no Direito: Autoridade, Juízo e Reconhecimento em Hannah Arendt e Hans Kelsen Nota: 0 de 5 estrelas0 notasJudicialização da Política e Ativismo Judicial: contornos democráticos da atuação do Judiciário Nota: 0 de 5 estrelas0 notasSaber Direito - Volume 3: tratado de Filosofia Jurídica Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO Distinguishing na Concepção de Klaus Günther na Teoria da Adequabilidade Nota: 0 de 5 estrelas0 notasFundamentação substancial de decisões judiciais Nota: 0 de 5 estrelas0 notasLiberdade de expressão e discurso de ódio na Constituição de 1988 Nota: 0 de 5 estrelas0 notasTolerância, Liberdade de Expressão e Discurso de Ódio: a livre associação como possibilidade de cura Nota: 0 de 5 estrelas0 notasTratado Brasileiro sobre Direito Fundamental a Morte Digna Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA teologia das religiões em foco: Um guia para visionários Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAnálise econômica do Direito: os fatores de inflexão do Poder Judiciário Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRenúncia ao exercício de direitos da personalidade: ou como alguém se torna o que quiser Nota: 0 de 5 estrelas0 notasLiberdade Religiosa e a Imunidade Tributária Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA teoria compreensiva de Robert Alexy: a Proposta do Trialismo Nota: 0 de 5 estrelas0 notasDireito e democracia: a liberdade de expressão no ordenamento jurídico brasileiro Nota: 0 de 5 estrelas0 notasDecisão judicial: transcendência e democracia Nota: 0 de 5 estrelas0 notasTeoria da Mutação Constitucional e a Jurisprudência do Supremo Tribunal Federal Nota: 0 de 5 estrelas0 notasDireito, Religião, Liberdade Religiosa E Comportamento Parlamentar Nota: 0 de 5 estrelas0 notasTeoria e Filosofia do Direito: discutindo a obra de Ronald Dworkin Nota: 0 de 5 estrelas0 notas
Direito para você
Português Para Concurso Nota: 0 de 5 estrelas0 notasManual Completo de Direito Civil: Ideal para provas e concursos Nota: 0 de 5 estrelas0 notasBizu Do Direito Administrativo Nota: 0 de 5 estrelas0 notasGuia jurídico da harmonização facial Nota: 0 de 5 estrelas0 notasManual de direito administrativo: Concursos públicos e Exame da OAB Nota: 0 de 5 estrelas0 notasDireito constitucional Nota: 5 de 5 estrelas5/5Processo Civil Aplicado Nota: 5 de 5 estrelas5/5Direito Tributário Objetivo e Descomplicado Nota: 0 de 5 estrelas0 notasSimplifica Direito: O Direito sem as partes chatas Nota: 0 de 5 estrelas0 notasNegociação Rumo ao Sucesso: Estratégias e Habilidades Essenciais Nota: 5 de 5 estrelas5/5COMUNICAÇÃO JURÍDICA: Linguagem, Argumentação e Gênero Discursivo Nota: 5 de 5 estrelas5/5Como passar concursos CEBRASPE -Língua Portuguesa Nota: 0 de 5 estrelas0 notasManual dos contratos empresariais Nota: 5 de 5 estrelas5/5Manual de Prática Jurídica Civil: para graduação e exame da OAB Nota: 0 de 5 estrelas0 notasInvestigação Criminal: Ensaios sobre a arte de investigar crimes Nota: 5 de 5 estrelas5/5Introdução ao Estudo do Direito Nota: 4 de 5 estrelas4/5Registro de Imóveis: Conforme a Lei 14.382/22 Nota: 0 de 5 estrelas0 notasProcesso Civil Pragmático: procedimento comum, recursos, tutela provisória, procedimentos especiais – Vol. 2 Nota: 0 de 5 estrelas0 notasPlaneje E Passe - Aprove 3x Mais Rápido Em Concursos Públicos Nota: 5 de 5 estrelas5/5Hermenêutica jurídica: entre a interpretação de textos e a avaliação de práticas sociais Nota: 0 de 5 estrelas0 notasDireito Constitucional Nota: 1 de 5 estrelas1/5Todos Os Segredos Da Persuasão Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCurso de direito financeiro e orçamentário Nota: 0 de 5 estrelas0 notasGuia Prático para Defesa em Processo Disciplinar Nota: 0 de 5 estrelas0 notasConsolidação das leis do trabalho: CLT e normas correlatas Nota: 5 de 5 estrelas5/5Como passar em concursos CESPE: língua portuguesa: 300 questões comentadas de língua portuguesa Nota: 4 de 5 estrelas4/5
Avaliações de Direito e religião
0 avaliação0 avaliação
Pré-visualização do livro
Direito e religião - Régis Fernandes de Oliveira
1
O MITO
Omito não é uma mentira ou mera invenção dos seres humanos. Na inteligência primitiva servia para descrever fenômenos que eles não conseguiam entender ou buscavam explicações para o significado das coisas. Se chovia e viam nascer plantas, as pessoas encontravam conexão entre os fatos. Se uma tempestade sobrevinha a um nascimento, deduziam consequências dela. Se um raio atingia o campo, rompendo uma árvore, propunham uma manifestação de entidades superiores.
A melhor orientação é dada por Mircea Eliade ao dizer que o "mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que teve lugar no começo do Tempo, ab initio".² Define-o como "a história do que se passou in illo tempore, a narração daquilo que os deuses ou os seres divinos fizeram no começo do tempo".³
A sociedade era, como a atual, conflituosa, e as disputas pelo mando eram comuns, assim como a posse de mulheres, e o próprio sinal dos partos havidos ou perdidos era sinal dos deuses. Estes ainda não eram antropomórficos. Confundiam-se com a natureza. Esta é quem dava respostas às suas dúvidas e angústias.
A repetição de determinados fatores ou situações levava à conclusão da vontade da natureza. Se uma previsão desse certo, a pessoa tinha contato com os deuses. O conhecimento da evolução do tempo, da época das chuvas, levava a previsões aproximadas e credenciava o indivíduo a ter o respeito da coletividade.
O mito contém uma história verdadeira. O ser humano busca uma explicação para fenômenos que não conseguia explicar. Apela para a natureza e para o sobrenatural. É uma realidade cultural que justifica determinado acontecimento. Como explicar a existência do mundo? Era o caos e monstros poderosíssimos lutavam para dominá-lo. Alguém o criara e lutava para manter sua hegemonia.
Buscava-se explicar a origem do mundo, dos animais, das plantas e dos homens. A mitologia grega vale-se da história de Epimeteu, de Prometeu e de Pandora para a criação da raça humana. Em relação à origem do mundo, narra a luta dos titãs, do céu e da Terra, da separação dela e a criação dos deuses que, então, dirigiriam os destinos da humanidade. Os deuses queriam os humanos para que os adorassem. A cosmologia adquire fundamento de verdade.
O mito tem a função de resolver, num plano imaginativo, tensões, conflitos e antagonismos sociais que não têm como ser resolvidos no plano da realidade
.⁴
Sendo assim, para cada dificuldade de compreensão de um problema de um fenômeno, de um acontecimento, os primitivos imaginavam uma solução factível. Aquela ideia era repetida de geração em geração e todos nela acreditavam como fato real.
Surgia, então, o mito como explicação originária de algum fato. Não encontra justificação humana. É afastado do meio humano. Entra no sagrado. Este se destina a ser acreditado fora da ação dos homens. O sagrado não se pode confundir com o profano. Este é o mundo dos homens; aquele, dos deuses. São mundos que convivem, mas não se misturam.
Os deuses vivem em mundo apartado e não são alcançados pelos seres humanos. Estes adoram aqueles. Os deuses brincam com os humanos. Quando são antropomórficos podem se transformar e aparecer sob diversas formas. Zeus, em seus inúmeros romances e adultérios, metamorfoseava-se em chuva de ouro, em touro, em cisne.
Descartes cogitou um Deus maligno que pode enganá-lo.⁵ Esse Deus ou os deuses vivem, portanto, em um mundo distante e afastado (na Grécia era no Olimpo, no cristianismo, no céu). Não podemos tocá-los nem conviver com eles. São sagrados, isto é, estão fora do alcance da ação humana.
Na mitologia grega, que se confunde com sua religião, os deuses eram antropomórficos e, pois, conviviam com os humanos, podiam manter relações sexuais com eles e interferiam em fatos corriqueiros da vida. Maior exemplo nos dá Homero em seus cantos monumentais da Ilíada
e da Odisseia
. Na primeira, os deuses liberaram os ventos para a armada grega partir, sob o sacrifício de Ifigênia, filha de Agamêmnon; depois, deuses e deusas interferiram na própria luta. Aquiles era protegido de Atena. Até armas ela mandou Hefestos produzir.
Não obstante, o sagrado não se confunde com o profano. Nas modernas religiões, os deuses não são antropomórficos e se mantêm alheios às disputas humanas. São invocados a toda hora, mas não intervêm.
No direito é muito comum a profanação do sagrado para trazer para o mundo dos humanos aquilo que é deles retirado. Examinaremos isso mais adiante.
O que vale é que o mito contém uma explicação para o mundo e seus acontecimentos. Constitui uma narrativa sobre um fato cósmico.
1.1. MAGIA. O RITO
O rito é a forma da magia. Pode ser a reminiscência de uma ideia originária e, pois, retratar um mito (explicação primordial: consagração da lua, do sol, da fertilidade) ou refletir uma crença. O deus, para se manifestar, deve ser invocado. Os homens aprendem a respeitar ou a amar os deuses. Para tanto, necessita contatá-los. A magia é o instrumento de que se vale o humano para trazer o deus até ele.
A magia se externa em ritos que refletem a tradição. Os seres humanos adquirem formas de se conectar com os deuses, de invocá-los para algum evento ou buscar a intervenção do divino num problema por eles.
O rito é uma apresentação mágica que reflete a reverência aos deuses. Ele tanto opera nos mitos como na religião. A forma ritual é um segredo do feiticeiro ou do mágico. Ele, e só ele, detém a fórmula para invocar os deuses. Marcel Mauss acolhe, em princípio, a definição de Grimm, que considerava a magia como uma espécie de religião feita para as necessidades inferiores da vida doméstica
.⁶
O rito necessita de um feiticeiro, que é o agente dos ritos mágicos
.⁷ Vemos, muito claramente, os ritos mágicos em uma reunião de candomblé ou de umbanda. O pai ou a mãe de santo se veste com trajes brancos, com adornos coloridos; os atabaques desatam seu ritmo maravilhoso, as baianas
começam a bailar, há a invocação dos deuses africanos, a bebida, a fumaça dos charutos, tudo cria um clima fantástico de invocação dos orixás.
O xamã (nome genérico para todo aquele que invoca os deuses) tem que ter algum preparo no conhecimento não apenas do rito, mas também dos deuses. Tem que ser alguém com mana (magia), ou seja, com poder espiritual. Um vidente, uma pessoa com qualidades positivas. Os ritos se desenvolvem até chegar num ápice, em que há o êxtase. O feiticeiro, dotado de qualidades sagradas
, invoca o espírito, eventualmente o incorpora e transmite a todos mensagens recebidas do além. Claro que ninguém nasce com certos poderes
. Passa o feiticeiro por uma iniciação e torna-se único entre seus pares.
O ritual assemelha-se ao da religião e ao do direito. No mito há a invocação de forças superiores para ajudar pessoas que procuram os feiticeiros porque necessitam de alguma coisa. Na religião, os deuses ou o Deus é invocado para trazer benefícios, ajudas, bem-estar, tranquilidade para as pessoas. No direito, o ritual se desenvolve para trazer a solução dos conflitos. O feiticeiro (juiz) se investe de caráter místico e invoca as leis (poder do além) para dar a justa solução ao conflito trazido para deliberação.
O ritual destina-se à invocação do sagrado. Revela-se por inúmeros meios, danças, preces, sacrifícios, invocações, cânticos, tudo levando ao êxtase. Os gestos igualmente se revelam eficientes. Erguer as mãos, cruzá-las, abrir os braços, todos são sinais que invocam a divindade. No mito, o rito retorna ao que se passou na fase originária. Na primeira vez, no ato criador. Na religião, é a reiteração da subordinação ao deus, como a confissão e a comunhão no catolicismo e a genuflexão no islamismo. O quipá judeu e o balançar do corpo são rituais de aproximação com o sagrado e com as tradições.
As vestes da Igreja Católica impõem distância entre o sacerdote e o fiel. Diga-se o mesmo das vestes talares do magistrado.
1.2. O SIMBÓLICO. OS SIGNOS
Em todos os setores de nossa vida há um ritual. É que isso dá certa importância ao que se faz. Valoriza-se a forma. Na história dos tempos, o comum é desprezado. Só tem valor aquele que age com certo mistério. O místico é sempre mais valorizado por sentimentos de medo.
O xamã detém a arma do conhecimento transcendente. O pajé tem conhecimento superior. O sacerdote de todos os tempos sempre esteve ao lado dos governantes, quando não era ele próprio o governante. Seu conselho era importante, porque era o único que tinha acesso ao mistério.
Quando as pessoas explicitam o que sabem, já não valem mais. Se o que elas sabem é apenas aquilo e já disseram o que sabem, não mais merecem consideração. O critério de valorização é dado pelo que não se diz. Quando as pessoas falam muito, já não merecem ser ouvidas; falando pouco, valorizam-se.
O sábio, para a sociedade, nem sempre é o que diz coisas consistentes, mas o que não diz o que sabe.
Quando se invoca o divino, então, o respeito cresce. Ao se falar com um padre de batina, o respeito é maior. O pastor só vale quando no púlpito; na rua, é igual a todos. O rabino tem o respeito da comunidade porque conhece a Torá; o mulá conhece o Livro. Todos são intermediários entre a divindade e a sociedade. Podemos enfrentar de igual para igual qualquer pessoa e de nosso convívio, mas não podemos com as forças do além. Estas, não as conhecemos. Como agir perante algo que não conhecemos?
É o medo de enfrentar o diferente. O transcendente transmite os fundamentos da realidade. Fala diretamente para nos dar caminhos. É nossa bússola.
Tudo, em verdade, não passa de mero jogo simbólico. Ninguém tem contato estreito com o transcendente. Pode ter conhecimentos maiores sobre o desconhecido, sobre o místico, sobre o incognoscível, sobre o além. Mas apenas pensa saber mais. Lê textos que supõe ditados pelo divino (Bíblia, Alcorão etc.). Interpreta-os da maneira que melhor lhe possibilite transmitir inverdades, desde que úteis.
O segredo de
