Sobre este e-book
Os romances nem sempre terminam com um final feliz. Talvez estas histórias inconclusas ou com um desfecho inesperado pelo público sejam mais marcantes. A sensação de que o amor poderia ter triunfado — e não triunfou — abre espaço para a existência de possibilidades, de pontos de continuação, de outros pontos, muito além do ponto final.
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Ponto Final - Mailson Ramos
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Ponto final
HELENA fugiu de casa com a roupa do corpo e dois calhamaços de dinheiro em papel que levava escondidos numa pequena bolsa de camurça. Com os cabelos soltos ao vento e o vestido de chita a rasgar-se nas costuras, ela incitava o cavalo a correr mais forte para desaparecer nas ribanceiras e ficar longe do alcance do intendente Aroeira, o seu pai. Os vaqueiros sairiam em seu encalço no primeiro momento. Bastaria apenas um grito do velho fazendeiro e os encouraçados fustigariam a caatinga em busca da jovem desaparecida.
Sendo o intendente um homem poderoso e capaz de infligir à filha qualquer castigo, ela sabia que deveria chefão seu destino antes do anoitecer. Somente então estaria livre de todos os castigos — e nos braços de Pedro, o homem por ela amado. Ao proibir a filha de ver o rapaz, o fazendeiro acabou suscitando nela o desejo de se tornar independente a qualquer custo. Ela deixou a casa grande onde sempre viveu para se encontrar com o amor.
O caminho até a estação de trem onde Pedro a esperava parecia tão silencioso que era possível ouvir as pessoas cochichando. Muita gente a reconhecia, mas ninguém podia imaginar que estivesse fugindo. Por muito tempo planejou as ações para a fuga e como seria aquele dia. O dia em que abandonaria a vida na fazenda, se livraria dos desmandos do pai, começaria uma nova vida com aquele que a amava verdadeiramente.
O cavalo cansou quando atingiu o penúltimo quilômetro, antes da estação de trem. Havia ali um pequeno lago de água esverdeada. O animal não se importou com isso. Bebeu com sofreguidão. Comeu algumas folhas de capim, e se mostrou disposto a retomar a viagem. Helena, que não podia mais esperar, montou no alazão e ganhou a estrada. Tinha algumas horas de vantagem. Quando avistou a estação, os seus olhos cansados a enganaram. Acreditou ter visto um homem alto, de pele negra, vestindo um paletó branco. Mas não havia ninguém ali, além de duas senhoras com as suas malas de couro, aguardando o trem para Aurora.
Helena pulou do cavalo. Estava disposta a fugir sozinha se fosse preciso. Perguntou ao bilheteiro se um homem não havia aparecido na estação naquela última hora. Ouvindo a negativa, a moça se descontrolou. Logo os vaqueiros chegariam e todos os planos traçados seriam meticulosamente desperdiçados. O trem apontou no longínquo horizonte fazendo girar mais rapidamente os ponteiros do tempo. A contagem era regressiva. Não queria acreditar que Pedro a havia abandonado. Não. Esse era um pensamento que não podia estar presente em sua mente. Ele podia estar atrasado, foi impedido por algum acontecimento, mas não a abandonaria.
Helena assistiu à passagem do trem. Esperou por alguns minutos e, vendo que Pedro não apareceria, ganhou a estrada a pé. Andou por muitas horas até ser encontrada por um dos vaqueiros do intendente Aroeira. As suas pernas estavam cortadas por espinhos, as solas dos pés marcadas em carne viva por calos, o corpo entregue e a alma em silêncio. Os olhos não tinham vida e a pele, tão vivida e jovial, suava frio. O homem a levou de volta para casa. Ela não disse uma só palavra.
Aroeira olhou-a com desprezo.
— Se sua mãe fosse viva teria morrido de desgosto. Esse homem não presta! Já disse que ele não vale um vintém furado. Viu o que fez?
Helena observava o pai sem dizer uma palavra. As lágrimas despencavam dos seus olhos grandes como cascatas que se espedaçam nas pedras, mas em ribanceira de pele, numa queda livre. Era no elevado daquele rosto bem feito que o orvalho salobro da desilusão escorria desenfreado. O dissabor simbólico parecia ter adquirido concretude e jazia travado no peito, doloroso feito ferro quente na carne, a amarrar as palavras ao inexplicável e a preservar o silêncio sufocado na boca. Ela não podia falar mais nada. A derrota era apenas sua. E o intendente continuava a esfregar no rosto lacrimejante as consequências da fuga malfadada.
— Nenhum homem haverá de se casar com uma jovem destemperada que abandonou a sua casa para fugir com um pilantra.
— O que o senhor fez com ele? — indagou Helena, tomando coragem aos poucos para enfrentar o pai.
— Você sabe que ele não vale uma moeda furada. Recebeu o dinheiro que eu prometi, caso ele a abandonasse.
— Mentira! Pedro jamais aceitaria dinheiro. O que o senhor fez com ele?
— Você não foi feita para se casar com um sujeitinho sem prestígio como aquele rapaz. Acabaram-se as regalias. Você vai passar alguns meses na capital.
— Eu prefiro morrer!
— Sim. Se tivesse direito de escolha. Você vai para a capital e não se fala mais nisso! Passará alguns meses na casa de Marieta, minha irmã. E voltará para se casar!
— Eu prefiro a morte! — retrucou a moça.
— Já disse que você não tem preferência! Eu já decidi sobre o seu destino.
E decidiu mesmo. Helena deixou a fazenda no carro velho do pai. Antes de ganhar a estrada, o intendente Aroeira passou pela prefeitura e deu algumas ordens, sempre com o tom firme e autoritário. Perto daquela rua ficava a casa dos pais de Pedro. A porta da frente estava aberta. Por um segundo de descuido do velho, ela correu e entrou gritando o nome do homem que amava.
Buscou-o desesperadamente na pequena sala. E, adentrando de supetão em um dos quartos, encontrou o homem deitado. Os pais estavam em volta dele. O seu rosto estava esfacelado. Os braços amarrados em ataduras, as pernas com escoriações e imensos hematomas. Helena soltou um grito de horror. Aquilo era obra do intendente Aroeira. Os pais de Pedro olharam para a moça com piedade, mas não disseram uma só palavra. Apenas choraram.
Ela se aproximou lentamente e, deitou a palma da mão sobre o rosto do rapaz. Era como se sentisse a sua dor. Pedro abriu lentamente os olhos e uma lágrima escorreu sobre o rosto maltratado. Helena deu um beijo em sua testa, quando sentiu no braço a mão fria de um dos capangas do seu do pai. Foi retirada dali a força, arrastada pela rua até o carro. Enquanto os pneus velhos engoliam os quilômetros, ela chorava. A cada metro de distância restava apenas a dor e a solidão.
O intendente Aroeira dirigia com os olhos vidrados na estrada, ignorando os soluços da filha. Não havia justificativa para aquela relação, segundo a sua visão reacionária do mundo. No meio do caminho, quando o silêncio se aplacou sobre todos, naquele carro que sacolejava sobre as lombadas da estrada, o velho resmungou:
— Todo pai vai me entender. Fiz isso tudo para salvar a sua vida e não deixar que você mesma a estragasse. Menina sem juízo!
Helena permaneceu em silêncio até a entrada na capital, quando desceu do carro para se sentar no acostamento, e uma senhora que vendia frutas numa barraquinha perguntou qual o motivo da tristeza. A moça olhou para o pai que estava distante. Baixou a cabeça e murmurou:
— Tiraram a minha vontade de viver.
Como se soubesse que se tratava, a mulher da barraca balançou a cabeça negativamente, repreendendo a indiferença do pai
