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Clarice Sob O Sol
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E-book110 páginas1 hora

Clarice Sob O Sol

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Sobre este e-book

Clarice Sob o Sol é uma coleção de contos que tem como cenário principal o sertão nordestino; assim como em Cartas Sertanejas e Coração do Sertão, a essência de cada história deste livro é o sertanejo. Os personagens, sejam eles protagonistas ou antagonistas, todos verossímeis, encantadores e icônicos. O livro é uma ótima oportunidade de revisitar o sertão através das histórias dramáticas — e às vezes regadas com humor e alegria.
IdiomaPortuguês
EditoraClube de Autores
Data de lançamento9 de dez. de 2025
Clarice Sob O Sol

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    Clarice Sob O Sol - Mailson Ramos

    — 1 —

    O Batismo do Jumento

    O coronel Josué Pires cuidava dos animais como se eles fossem pessoas. Nasceu e viveu a vida inteira naquela fazenda que pertenceu antes aos seus avós e, em seguida, aos seus pais. Antes que o sol nascesse, abria a janela para olhar o gado. Estava sempre entre as criações de cabras e ovelhas, cuidando dos rebanhos, dos pastos, dos cavalos e de toda forma de vida que surgisse em suas terras. Proibiu a caça e instituiu São Francisco de Assis o padroeiro da região. Para o santo amigo dos animais mandou erguer uma capelinha ao lado da casa grande. Numa daquelas madrugadas, acordou atordoado e partiu para o estábulo. Depois voltou bradando:

    — Zezin, vá chamá D. Maria Parteira!

    O grito do coronel Josué ecoou pelos corredores do estábulo e chegou ao quarto do seu fiel ajudante. Zezin apareceu na porta do curral, com os olhos ainda remelados e turvos. Sempre que o coronel lhe chamava aos gritos é porque havia alguma coisa errada. Uma madrugada fria, sair de cavalo até a Estância do Rio Largo para buscar D. Maria Parteira... Quanto desassossego! Voltou para o quarto, lavou o rosto, preparou a montaria e partiu em disparada ao encontro da velha parteira. D. Maria, ao que se sabia, tinha realizado mais de cem partos naquela região. As mulheres grávidas, ao sentirem as dores do parto, mandavam chamar a velhinha que demonstrava uma boa vontade ímpar e conhecimentos de ervas e beberagens que podiam, no momento certo, salvar vidas.

    Maria Parteira era sinal de bondade. Saía do seu casebre às madrugadas para realizar partos em mulheres que não tinham condições de parir em hospitais. Por isso, o coronel, que gostava muito da parteira, mandou Zezin buscá-la tão longe para socorrê-lo. Para socorrê-lo? Uma parteira? O rapaz cavalgava no silêncio da madrugada, arrepiando-se cada vez que uma coruja cortava os ares, soltando seu assombroso pio.

    Estava ainda mais frio. Zezin começava a tremer. O cavalo parecia muito cansado e no meio do caminho perdeu a velocidade. De tanto trotear pelas beiradas da cerca, o magricela manga-larga amuou; o sereno turvava a visão. Zezin andou para a frente, arrastando o cavalo. De repente, viu clarear aquele casebre velho, de janelas e portas escangalhadas. D. Maria morava sozinha, perdida no meio do nada, entre os barbudos mandacarus e os sombrosos juazeiros, que, naquela madrugada formavam imagens fantasmagóricas. Simples, como toda sertaneja, criava algumas galinhas, duas ou três cabras e um casal de gansos, barulhentos, mas muito bonitos. Foram eles que deram o primeiro grasnar, avisando que tinha gente estranha na frente da casa. Zezin apeou o cavalo e avançou pelo terreiro.

    — Dona Maria, valei-me pelo amor de Nossa Senhora!

    — Quem me chama?

    — É Zezin! O vosso compadre coronel Josué Pires carece de sua ajuda!

    — Valha-me Deus, Nosso Senhor!

    A velha abriu a porta, expondo uma taramela caindo aos pedaços e dois ferrolhos enferrujados. Parece que ela estava sempre pronta para sair. Usava um vestido branco de renda e um lenço branco na cabeça. Atrás da orelha carregava uma folha de arruda.

    — Sele o jumento! — disse sem mais delongas.

    O rapaz procurou a sela que estava pendurada no tronco da amendoeira. O jumento pastava mansamente na roça ao lado da casa. Enquanto Zezin selava o animal, D. Maria preparava suas ervas e as colocava no alforje. Em pouco tempo estavam no meio da estrada. A luz do sol começava a aparecer na barra do horizonte, dissipando aos poucos a neblina. A velha rezava o tempo todo. Ela acreditava muito na ação das orações, nas coisas espirituais e, portanto, não temia nada. Antes da quinta hora do novo dia, Zezin e D. Maria chegaram à casa grande. Foi somente aí que a parteira parou para pensar. Enquanto apeava o jumento, perguntou a si mesma se o coronel tinha alguma mulher grávida, morando na fazenda, porque sua esposa, D. Leopoldina, era já senhora de idade. Quem seria esta mulher grávida, que necessitava dos seus serviços?

    — Comadre Maria! É bom ver a senhora aqui!

    — Sim! Sempre bom estar aqui. O que houve, compadre Josué?

    — Venha! Vou levar a senhora ao curral!

    A parteira começou a estranhar. O coronel conduziu a mulher até o curral, onde uma jumenta estava prestes a parir. A cria estava atravessada nas entranhas da mãe e sem a ajuda de alguém que entendesse do assunto, muito provavelmente os dois morreriam. A velha olhou de um lado. Rodou e olhou pelo outro lado. Pareceu procurar alguma coisa dentro do alforje. Depois consertou o lenço na cabeça e fitou o coronel. Ele jogou fora o cigarro de palha que fumava e, passando a mão na barba espessa, indagou:

    — É uma mãe, não é mesmo?

    D. Leopoldina apareceu com uma bandeja de café, cumprimentou a comadre e parou distante, observando a situação. A parteira jogou uma xícara para dentro sem pestanejar e depois arrastou uma erva seca do alforje.

    — Era isso, compadre? Mas aí não tem trabalho! O senhor mesmo podia chamar esse menino aqui e apertar o vente da mãe até que ela colocasse o filho para fora.

    — A comadre tem mais experiência!

    — Sim. Tenho. Mas não posso ajudar. Chame os vaqueiros. Eu sinto muito, mas não posso ajudar.

    A velha colocou mais uma xícara de café e ficou observando a frustração do coronel. Ele estava certo de que se deixasse a parteira voltar, perderia dois animais de uma vez só.

    — A comadre deixaria morrer o filhote desse seu jumento?

    — Como é compadre?

    — Sim comadre! Esse jumento aí escapou do vosso pasto e veio para o nosso curral cobrir a minha jumenta. E olha só agora o sofrimento da bichinha parir! Ajude, comadre Maria, eu lhe peço.

    A velha estava irredutível. D. Leopoldina e Zezin observavam a cena. D. Maria não costumava negar ajuda ou favor para ninguém, muito menos para o compadre que a considerava uma irmã, mas naquela madrugada, alguma chave lhe havia trancado o coração. Quando a velha se preparou para sair, numa última tentativa de resgatar o seu espírito bondoso, o coronel gritou:

    — Sabe, comadre, esse jumentinho eu prometi ao Padre Lauro! Sim. Ele anda para cima e para baixo com o burro Astrogildo, que é mais velho do que as pedras do lajedo. Então, prometi dar este burrico ao santo homem.

    — Prometeu foi? E por que não disse logo, homem?

    — A senhora sabe! Promessa é dívida.

    D. Maria Parteira era fiel admiradora do Padre Lauro. Era Deus no céu e o sacerdote na Terra. Em defesa do padre, ela comprava qualquer briga. E a admiração era recíproca. Antes da missa, passavam alguns minutos na sacristia, dialogando sobre as coisas do mundo. Ao saber da notícia, parteira não esperou mais. Entrou de volta no estábulo, pediu para que amarrassem uma corda nos pés do jumentinho e puxassem de uma só vez. Foi tudo muito rápido e certeiro. O filhote caiu no chão e pouco tempo já estava de pé, mamando. Nada como a experiência. O coronel Josué, que se viu obrigado a meter o padre na história para que a mulher ajudasse a jumenta a parir, comemorava aos pulos. Mas não contava ele que o pároco descobrisse a mentira e viajasse até

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