Tecendo redes antirracistas III: Entre resistências e emancipações
De Renísia Cristina Garcia Filice, Leandro Santos Bulhões de Jesus, Redy Wilson Lima e Miguel de Barros
()
Sobre este e-book
Fruto de uma colaboração transatlântica, organizada por pesquisadores do Brasil (Renísia Cristina Garcia Filice e Leandro Santos Bulhões de Jesus), de Cabo Verde (Redy Wilson Lima) e da Guiné-Bissau (Miguel de Barros), esta é uma obra pensada para a formação de professores/as e pesquisadores/as não só da área de Humanas. E extrapola a educação formal. Compromete-se a dialogar com a complexidade de seres viventes no Sul Global e se abre para ouvir indígenas, quilombolas, povos tradicionais com africanos/as, latino-americanos/as, europeus, norte-americanos/as, enfim, viventes que se comprometem com um outro mundo possível, mais múltiplo, diverso e respeitoso.
Relacionado a Tecendo redes antirracistas III
Ebooks relacionados
Pegadas no rio, sombras no tempo: Biografias, histórias de vida e trajetórias africanas Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAngola e o Atlântico: Colonialismo, colonialidade e epistemologia descolonial Nota: 0 de 5 estrelas0 notasOs Crioulos de Cabo Verde Nota: 5 de 5 estrelas5/5Cabo Verde Das Dez Ilhas Nota: 0 de 5 estrelas0 notasTradição e apropriação crítica: Metamorfoses de uma afroamericalatinidade Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCultura e identidade quilombola: festas e saberes populares Nota: 0 de 5 estrelas0 notasEntre risos e perigos: Artes da resistência e ecologia quilombola no Alto Sertão da Bahia Nota: 0 de 5 estrelas0 notasOs Índios na História da Bahia Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMulheres negras no Brasil escravista e do pós-emancipação Nota: 5 de 5 estrelas5/5Do colonialismo como nosso impensado Nota: 0 de 5 estrelas0 notasChegadas E Partidas Nota: 0 de 5 estrelas0 notasUm país chamado favela: A maior pesquisa já feita sobre a favela brasileira Nota: 0 de 5 estrelas0 notasComércio de almas e política externa: A diretriz atlântico-africana da diplomacia imperial brasileira, 1822-1856 Nota: 0 de 5 estrelas0 notasEntre Fronteiras Brasil-Bolívia: Relações Internacionais, Diplomacia e Política Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRelações luso-brasileiras: imagens e imaginários Nota: 0 de 5 estrelas0 notasNegras Travessias: Ativismos e Pan-Africanismos de Mulheres Negras Nota: 0 de 5 estrelas0 notasPós-colonialismo: uma breve introdução Nota: 0 de 5 estrelas0 notasHistória de Irecê para Jovens Nota: 0 de 5 estrelas0 notasINFÂNCIA MARCADOS PELO TEMPO: - Nota: 0 de 5 estrelas0 notasFesta e guerra: movimentos coletivos dos povos nativos da América Nota: 0 de 5 estrelas0 notasEntendendo os indígenas no Império do Brasil Nota: 4 de 5 estrelas4/5Museu Histórico Sorocabano Nota: 0 de 5 estrelas0 notasVidas impressas: Intelectuais negras e negros na escravidão e na liberdade Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMuseus e Lugares de Memória Nota: 0 de 5 estrelas0 notas"O CTG Tiarayu é a nossa casa": caminhos possíveis para práticas antirracistas, através do Saber Tradicionalista Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO mundo é uma escola: o que aprendi em viagens Nota: 0 de 5 estrelas0 notasUm homem, uma fazenda e uma escravaria: a invernada dos negros Nota: 0 de 5 estrelas0 notasSaco Das Almas (brejo - Maranhão, Brasil) E A Construção Das Gestão Cultural Comunitária Nota: 0 de 5 estrelas0 notas
Discriminação e Relações Raciais para você
Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil Nota: 3 de 5 estrelas3/5História Preta das Coisas: 50 Invenções Científico-Tecnológicas de Pessoas Negras Nota: 5 de 5 estrelas5/5Ensaios sobre racismos: pensamentos de fronteira Nota: 5 de 5 estrelas5/5A nova segregação Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRaízes Sincréticas Da Umbanda E Do Candomblé Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRacismo colonial: trabalho e formação profissional Nota: 5 de 5 estrelas5/5Racismos Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAlgoritmos da Opressão: Como os mecanismos de busca reforçam o racismo Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCastas: As origens do nosso descontentamento Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCANTOS A BEIRA-MAR Nota: 5 de 5 estrelas5/5De bala em prosa: Vozes da resistência ao genocídio negro Nota: 5 de 5 estrelas5/5Eu e a supremacia branca: Como reconhecer seu privilégio, combater o racismo e mudar o mundo Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAfrocentricidade: Uma abordagem epistemológica inovadora Nota: 0 de 5 estrelas0 notasNúmeros da discriminação racial: Desenvolvimento humano, equidade e políticas públicas Nota: 0 de 5 estrelas0 notasLugar de negro, lugar de branco?: Esboço para uma crítica à metafísica racial Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRefletindo valores em sociedades contemporâneas: Ensaios Nota: 5 de 5 estrelas5/5Memórias Póstumas De Um Sedutor Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRaça e gênero: Discriminações, interseccionalidades e resistências Nota: 0 de 5 estrelas0 notasPreconceito contra a origem geográfica e de lugar: as fronteiras da discórdia Nota: 0 de 5 estrelas0 notasVozes Amarelas Nota: 5 de 5 estrelas5/5Racismo estrutural e aquisição da propriedade Nota: 0 de 5 estrelas0 notasNas Ruas De Tranca-ruas Nota: 0 de 5 estrelas0 notas#VidasNegrasImportam e libertação negra Nota: 0 de 5 estrelas0 notasManual prático de educação antirracista Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRacismo Acadêmico No Brasil Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO estatuto da igualdade racial Nota: 5 de 5 estrelas5/5Olhos negros atravessaram o mar: O corpo negro em cena na análise corporal: Bioenergética e Biossíntese Nota: 0 de 5 estrelas0 notasNostalgia imperial: Escravidão e formação da identidade nacional no Brasil do Segundo Reinado Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRacismos, infâncias e juventudes: entre a (des)proteção, o extermínio e a educação Nota: 0 de 5 estrelas0 notasPardos: A Visão das Pessoas Pardas pelo Estado Brasileiro Nota: 0 de 5 estrelas0 notas
Avaliações de Tecendo redes antirracistas III
0 avaliação0 avaliação
Pré-visualização do livro
Tecendo redes antirracistas III - Renísia Cristina Garcia Filice
A reafricanização dos espíritos por meio da vivência de códigos culturais da resistência
¹
Kwame Gamal Mascarenhas
Descoberto
e ocupado, o espaço precisava ser organizado.
O sistema esclavagista se instalou e fez chegar às ilhas os obreiros desta nova terra – os escravizados africanos, os tais desprovidos de civilização e humanidade. Talvez por não estarem os imperiais tão convencidos dessa falta de civilização (e memória), instalaram logo um sistema de reprogramação cultural, com vista a criar um homem totalmente novo, mais civilizado (cristão submisso, etc.) e digno de conviver com os altos padrões civilizacionais dominantes. Havia que se trocar os nomes, converter e baptizar na fé verdadeira, retrajar, regestualizar, reagrupar até redefinir totalmente.
Era a tal ladinização
que polia
o escravizado, mediante sua desafricanização, tornando-o não totalmente humano, mas apenas menos inumano pois a manutenção do seu status de escravizado isso nos revela. Mesmo ladinizado, ele era inferior como ser. Aliás, na verdade, ele foi ladinizado para ser inferior.
Na sequência da ladinização, todo o sistema educativo engendrado ateve-se sempre ao desiderato de nos cortar, se não totalmente, o máximo possível, as ligações umbilicais com a matriz existencial e cultural africana.
Apesar do sucesso conceitual da ladinização permanente levada a cabo por centenas de anos, algo correu mal. Acreditamos que o elitismo que cerceou à população restante o acesso à educação acabou por permitir que traços identitários não ladinizantes prevalecessem, gerando uma identidade nacional própria, não identificada com a do colonialista, cujo descaso em relação às fragilidades materiais do nosso povo teve certamente efeito ampliador no crescimento de uma não colonialista, quanto a mim foi o primeiro passo para a identidade anticolonial. A nossa identidade nacional solidificou-se até permitir que a identidade nacional cultural autóctone desse origem a acções anticoloniais, que acabaram por conquistar a maioria do nosso povo.
Mas sempre faltava alguma coisa que impedia que essa força nacional fosse mais além da simples recusa ao colonialismo em si e não à recusa de todo o sistema de valores a ele associado, atingindo os mais recônditos sectores do inconsciente popular, fruto da atrás referida vitória conceitual da ladinização, que foi o corte como nosso pré-1460, com a autoestima própria, com o esplendor da história dos nossos ancestrais (declarada inexistente por séculos) e até com a nossa capacidade de acreditar que pudéssemos ter tido um passado digno de orgulho. Acredito que era essa a preocupação de Amílcar Cabral quando afirmou ser necessária a tal reafricanização dos espíritos
(Cabral, 1976, p. 226) para que a real reconstrução ocorresse, como garantia única e fundamental do progresso do nosso povo, baseado em paradigmas não impostos pela longa história colonial, paradigmas esses voltados para o bem-estar do povo dos colonialistas, para a docilização dos nossos espíritos e a apatização de nossas atitudes reactivas e para a desvalorização do nosso potencial. Só assim se conseguiria materializar cabalmente os desígnios revolucionários.
Essa foi a grande vitória dos colonialistas.
Conseguimos expulsá-los de nossas terras mas conseguiram manter-se connosco, pois não conseguimos ser revolucionários a ponto de sair das balizas dos seus paradigmas, que nos fazem ver a nós próprios com os olhares do outro, nos fazem organizar nossos sistemas de referências à luz da realidade deles e nos impedem de criar nossas próprias soluções e de nos concentrar nas nossas próprias prioridades.
Pois é, o que fazer para reafricanizar os espíritos?
A independência nacional de Cabo Verde foi em 1975 e hoje, em 2019, nossos manuais escolares de História ainda nos abordam (e abordam tudo) de forma eurocêntrica. A história da África é ainda ligada à acção europeia na África e seu volume relativo ao todo curricular tem minguado ano após ano. A escola, que devia ser o carro-chefe, falhou redondamente. Se for exagerado afirmar que continua a ladinizar, pelo menos podemos afirmar que não desladinizou nem está a desladinizar o suficiente.
A mídia nacional, salvo as conhecidas e raras excepções, parece não ter noção desse problema (nem a estatal nem a privada). Não conseguiu ser uma aliada e seu papel teria sido determinante. Poderá ser ainda…
Os movimentos civis pan-africanistas só agora começam a despontar com força e propriedade, gerando debates sobre os vários temas relativos à questão e é agora que surge um espaço que possa valorizar a experiência reafricanizante que temos para vos contar.
O meu primeiro contacto com pessoas racistas e atitudes racistas explícitas foi em Portugal, quando lá fui estudar Direito em Coimbra. Muito novo e imaturo, achei revoltante ser agredido verbalmente só por existir e ser diferente, ser discriminado sub-repticiamente em vários espaços sociais e condenado a ser considerado o pior só por ser negro.
Então, eu e meus colegas de imaturidade
começamos a brigar com racistas. Acto racista? Tapa nele! Sem sentido agora, mas fazendo todo o sentido na época.
Eis que um belo dia chegam duas brasileiras (baianas) que estudavam no Porto e eram amigas de um irmão de um amigo meu. Uma delas (a Flora), uma negra da UFBA, chega com um LP vinil que tinha escrito na capa Ilê Aiyê: Canto negro
. Sem ver o Ilê Aiyê
, eu senti, ao ouvir aquele disco, uma energia que nunca havia vivenciado antes, uma força, uma certeza, uma altivez negra que não tinha sentido nem nas canções revolucionárias mais emocionantes. Uma orquestra percussiva complexa e maravilhosa, com cânticos que evocavam a história de vários impérios africanos, a luta de resistência contra a escravidão, as religiões afro originais, os heróis da resistência negra (ancestrais e hodiernos), a beleza da mulher negra; numa expressão, cânticos que evocavam o esplendor civilizacional
