Sobre este e-book
Claire Lansbury não confia nos imortais. Atribui-lhes o desaparecimento do pai e acredita que a crueldade das criaturas de vida eterna não tem limites.
Miguel D`Aguilar tem de recuperar o Segundo Manuscrito. Desta vez, a origem da imortalidade está na posse da família Lansbury, cuja aversão pelos imortais se tornou uma ameaça latente.
Os caminhos de ambos cruzam-se e logo percebem que, para descobrir o pai de Claire e recuperar o manuscrito de Miguel, precisam um do outro. Mas, poderá ela confiar no imortal? Conseguirá ele seduzir um coração de gelo?
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Gelo & Fogo - Ali Águas
ALI ÁGUAS
GELO
&
FOGO
ÍNDICE
1 ENCONTRO SÚBITO 5
2 O IMORTAL 10
3 SECUNDO MANUSCRIPTUM 14
4 O OBJETO DO LADRÃO 18
5 AJUDA-ME 22
6 O VENENO DOS IMORTAIS 26
7 A DESPEDIDA 30
8 VISÃO FUGAZ 33
9 REGRESSO A WYCHWOOD 36
10 UBICUIDADE 41
11 OXFORD 46
12 FRENTE A FRENTE 50
13 O ACORDO 53
14 A ENTRADA NA MANSÃO 58
15 O IRMÃO DE CLAIRE 63
16 UM CONFRONTO INEVITÁVEL 67
17 ONDE O PASSADO ENCONTRA O PRESENTE 71
18 OS AMIGOS DE ROBERT 75
19 UM INTRUSO 79
20 O REGRESSO 84
21 O RETOMAR DA INVESTIGAÇÃO 88
22 TODOS GUARDAM SEGREDOS 92
23 O PRESSÁGIO 96
24 UMA ESTRANHA PRESENÇA 100
25 A MÉDIUM 104
26 CONFISSÕES 109
27 PASSAGEM SECRETA 114
28 O FANTASMA 118
29 A IRA DE GILL FALCON 122
30 MEDIDAS DESEPERADAS 126
31 UM NOVO APROXIMAR 130
32 CLAIRE E ALMA 134
33 UMA MENSAGEM ESPECIAL 138
34 A CAVE 142
35 ENTRE MUNDOS 147
36 DÚVIDAS E CONJETURAS 151
37 A REVIRAVOLTA 155
38 SANGUE NOVO 160
39 A DÚVIDA 165
40 ANTES DA TEMPESTADE 170
41 A ESTUFA 175
42 UMA MENSAGEM INESPERADA 179
43 A MISSIVA 183
44 DESPREVENIDOS 187
45 OBSTINAÇÃO INCONSEQUENTE 192
46 EM DESVANTAGEM 195
47 VALENTINA DRAGO 198
48 POR ONDE COMEÇAR? 202
49 A REVOLTA DE DIEGO 205
50 A TRÉGUA 210
51 PRELÚDIO DE MORTE 215
52 VIA MALA 218
53 AS TRÊS PORTAS 221
54 O LABIRINTO 225
55 O CORAÇÃO 230
56 CORAÇÃO FRIO 234
57 GELO E FOGO 239
58 DUELO INEVITÁVEL 243
59 O VOO DA FÉNIX 248
60 UM NOVO DIA 251
EPÍLOGO 257
2 DIAS DEPOIS… 259
Título Gelo & Fogo
Autora Ali Águas
Primeira edição 2022
© Ali Águas, 2022
© Direitos de edição reservados
Edição Ali Águas
Capa Raquel Ribeiro - Design Studio
https://linktr.ee/R.DesignStudio
Todos os direitos reservados. Este livro não pode ser reproduzido, no todo ou em parte, por qualquer processo mecânico, fotográfico, eletrónico, ou por meio de gravação, nem ser introduzido numa base de dados, difundido ou de qualquer forma copiado para uso público ou privado - além do uso legal como breve citação em artigos e críticas - sem prévia autorização dos titulares do copyright.
1
ENCONTRO SÚBITO
CLAIRE
Em Teruel, uma cidade encantadora localizada no sul de Aragão, respira-se romantismo em cada monumento, rua e recanto. Entre os seus muitos atrativos acumulados num vasto património multicultural, a cidade guarda ainda uma das maiores histórias de amor: Os Amantes de Teruel, Isabel de Segura e Juan Diego de Marcilla, cujo romance continua a alentar a união de tantos que visitam a cidade. Uma história de amor que fascinou Beth, minha irmã e companheira nesta viagem. Tanto assim, que decidira prolongar a nossa estada até ao fim de semana próximo ao dia de S. Valentim, data em que se celebram as Bodas de Isabel, em honra dos Amantes. Ainda que o propósito da viagem fosse outro bem distinto.
Até agora, a estadia lograra afastar-me da realidade e experimentar uma sensação de paz que há muito não sentia. Os problemas familiares gerados com o desaparecimento do meu pai tinham causado efeitos devastadores em mim e nos meus irmãos, o que restava dos Lansbury.
Como se não bastasse a angústia provocada por desconhecer o paradeiro do nosso pai, ainda suportávamos problemas acrescidos. Problemas económicos que nos obrigaram a dispensar os trabalhadores que acompanhavam a família há anos e que também nos levaram a abandonar os estudos universitários.
Não nos preocupava viver com menos do que até agora, preocupava-nos, sim, perder a casa que herdáramos dos nossos avós. A casa onde nascera o meu pai, onde todos crescêramos.
Viéramos a Teruel com a intenção de assistir à inauguração da exposição organizada por um afamado colecionador de manuscritos antigos, com o intuito de lhe oferecer alguns dos nossos. Uma parte significativa do espólio familiar, que entre todos acordáramos vender para arcar com as dívidas.
Beth, a mais velha e audaz dos irmãos, encarregar-se-ia de falar com o dito colecionador. Para o efeito, trouxera um elaborado catálogo de fotografias tiradas por si, para que o magnata percebesse que não tratava com charlatãs que pretendiam desfazer-se de qualquer coisa em troca de uma boa maquia.
Para a inauguração, vestíramos ambas vestidos de gala. Beth apanhara o cabelo num toucado irrepreensível e eu, sem muito jeito para penteados, deixara-o solto. A ocasião era distinta, tal como exigia o protocolo do convite, por isso, todos os convidados vestiriam a rigor, com a devida pompa e circunstância. O vestido de Beth era de seda vermelha para chamar a atenção do nosso anfitrião e outros possíveis colecionadores, mencionara soberbamente envolvida na flamejante indumentária. O meu, em tafetá azul-marinho, era menos cingido do que o da minha irmã, mas com um generoso decote. Eleito por Beth, com a mesma intenção de destacar.
- Claire, o vestido realça o tom da tua pele, o teu cabelo dourado, e a cor é o reflexo vivo dos teus olhos – enfatizou, perante o meu desagrado, pouco antes de abandonarmos o apartamento turístico onde nos alojávamos. Contudo, nada do que pudesse dizer serviria para me fazer sentir cómoda com um vestido.
Por fim, não sei o que me levou a ceder aos argumentos de Beth. Presumo que o facto de me fazer sentir mais feminina. Algo que, por norma, procurava dissimular com as minhas calças de ganga e camisolas largas.
Chegamos pontuais ao evento, com os devidos convites conseguidos através de um antigo colega do nosso pai, também convidado.
A exposição tinha lugar no Museo Provincial, um dos emblemáticos edifícios da cidade de estilo renascentista, com uma fachada que albergava quatro andares nos seus 15 metros de altura.
À medida que os convidados avançavam à nossa frente, pude apreciar a singularidade da construção. A porta principal estava ladeada por duas colunas coríntias com o que restava de um escudo no cimo da ombreira; três varandas de linhas retas ornavam o segundo andar, separadas por dois pináculos que coroavam as colunas da entrada; 15 arcos diminutos, típicos na arquitetura aragonesa, com uma cornija peculiar que enobrecia o penúltimo piso; e, a rematar a magnificência da construção, uma harmoniosa arcada de colunas dóricas.
Os convidados aglomeravam-se na receção onde todos queriam libertar-se dos seus abrigos. Algo renitente em desprender-me do meu, acabei por entregar o meu escudo contra os olhares furtivos. Beth meneou a cabeça, censurando tanto pudor. Encolhi os ombros e apertei-me ao braço da minha irmã, pelo menos até me sentir menos constrangida. Entregámos os convites e seguimos a corrente de convidados até à exposição.
O salão estava lotado, com curiosos e ilustres personalidades a passear pelas pequenas montras que exibiam as raridades com elegância.
Vi nos olhares dos presentes que os vestidos cumpriam o objetivo pretendido. Senti o rubor nas faces com os olhares dos mais indiscretos. Decididamente, o decote fora uma péssima ideia, pensei de mim para comigo.
Graças à ampla informação disponível na internet, Beth averiguara mais sobre o anfitrião. Sabia que era um empresário com várias propriedades vinícolas e outras empresas ligadas à exportação de produtos agrícolas. E que entre os seus principais hobbies constavam a descoberta e aquisição de primeiras edições de livros e manuscritos antigos. Estava na casa dos 50 e era de nacionalidade francesa, muito embora passasse mais tempo em Teruel, onde conhecera a mulher.
- Depressa, Claire! Encontrei Tellier – disse Beth, quando encontrou o nosso alvo no meio de uma nuvem de pessoas, ao fundo do salão.
Ao ver todas aquelas pessoas junto a Tellier, senti algum acanhamento ao aproximar-nos. Apresentarmo-nos a um desconhecido com o pretexto de lhe vender velharias não me parecia agora uma boa ideia. Beth, porém, não se mostrava nada coibida, prosseguindo com o seu plano, arrastando-me por entre a massa humana.
- Beth, não achas melhor ser o professor Shaw a apresentar-nos a Tellier? Ele deve estar por aqui – indaguei, desculpando-me aos visitantes com quem chocávamos.
- Não podemos perder tempo, Claire. Talvez só tenhamos esta oportunidade para falar com ele. Por isso, despacha-te! – refilou.
- Sr. Tellier, desculpe a intromissão. O meu nome é Elisabeth Lansbury – apresentou-se sem mais, estendendo a mão a Tellier. Este, surpreendido, estendeu-lhe também a mão. - E esta é a minha irmã, Claire. – De novo, o homem retribuiu o comprimento sem palavras. - Sei que esta é a noite da inauguração e talvez não seja o lugar nem o momento adequado para conversarmos, mas só estaremos uns dias em Teruel e queríamos aproveitar esta ocasião para lhe mostrar uma série única de manuscritos centenários. Pensamos que um colecionador exímio como o senhor não quererá perder a oportunidade de conhecer a coleção que temos para lhe oferecer. Posso mostrar-lhe agora o nosso catálogo? – vacilou no final, exibindo a relação de manuscritos mesmo sem uma resposta afirmativa por parte de Tellier. Muito sorridente, o colecionador pegou no rol e começou a folheá-lo.
Maravilhado com a singularidade dos livros que apreciava, começou a fazer perguntas a Beth. Sobretudo o valor e o estado de conservação em que se encontravam. Muito interessado na aquisição de alguns dos tomos, não tardou em reservar alguns para si e assentar detalhes para quando fosse a Oxford recolher as aquisições com a respetiva compensação.
Beth estava tão extasiada com o sucesso da nossa insólita intervenção que até se esqueceu de mim. Não admirava. Beth gozava de um certo poder de persuasão, algo que eu não possuía. Mantive-me, por isso, à margem das negociações, apenas como companhia. Qualquer informação que pudesse acrescentar seria irrelevante.
Por isso, deixei-me levar pela melancolia, observando tudo em redor, a sonhar com o meu pai a irromper no salão, sorridente, enlevado pelas preciosidades expostas. Ele também era um insigne colecionador. Herdara essa paixão dos pais, que por sua vez, a tinham herdado dos seus também.
E, de súbito, abandonei os devaneios e adotei uma postura vigilante.
Senti-me observada.
Percorri o salão com o olhar e detive-o noutro, mais cintilante e intenso que o meu. Mesmo à distância a que nos encontrávamos, conseguia perceber o seu fulgor.
Num instante, senti-me absorvida por esse olhar vivo. Magnético. O olhar de um imortal.
2
O IMORTAL
CLAIRE
Os demais presentes ignoravam a sua natureza, mas eu não. Convivera com imortais e reconheceria um em qualquer parte. As criaturas de vida eterna há muito faziam parte da história dos Lansbury, sobretudo da história do meu pai.
O imortal em causa trajava de forma informal, nada protocolar, apenas com uma jaqueta negra e calças de sarja da mesma cor. Tinha o cabelo revolto a cair-lhe pelos ombros, quase tão escuro como o seu abrigo. Mas o que mais se destacava nele era o seu atrativo. O cabelo desalinhado ornava um rosto de feições simétricas e olhar felino, de tez morena e um sorriso redundantemente sedutor. Não tenho dúvidas de que não passara despercebido às senhoras na sala.
Mas por que razão se fixara em mim? E porque sorria? Conheceria o meu pai?
Eu não o conhecia. Aliás, se o tivesse visto antes não me esqueceria de alguém como ele.
- Claire, podes traduzir o título deste livro? – solicitou Beth. Com certa relutância, desviei a vista do imortal e voltei-me para a minha irmã e o seu novo grupo de amigos. Beth queria que traduzisse o título de um livro.
Finalmente, tirava partido das aulas de latim.
Depois da tradução, voltaram a ignorar-me e Beth retomou a tagarelice. De novo, abandonei o grupo e dei comigo à procura do enigmático desconhecido. Mas não o encontrei.
Os rostos eram os mesmos nos mesmos lugares de antes, mas ele já lá não estava. Não disfarcei o desapontamento. Esperava conseguir descortinar a razão pela que se encontrava na exposição. E porque se fixara em mim.
Não me saía da cabeça a possibilidade de ele conhecer o meu pai, quem sabe o seu paradeiro.
- Estavas à minha procura? – sussurrou-me ao ouvido, como um sopro de vento cálido sobre a pele. Estremeci com a carícia, rodando sobre mim de encontro àquela voz.
- Eu… estava a ver se encontrava um manuscrito – tartamudeei, dissimulando.
- Nesse caso, talvez possa ajudar – disse ele, com os lábios a curvarem-lhe num sorriso travesso, irresistível. A sua voz era quase tão sedutora quanto a sua figura. Articulava devagar e tinha um leve sotaque, o que lhe conferia ainda mais charme.
Os olhos dele incidiram sobre os meus em profundidade e, de repente, estávamos sós. Em volta, tudo era mobília e o tempo dilatou-se. Só existiam o seu sorriso e o aroma embriagante que desprendia, um veneno para os sentidos. E os seus olhos? Reluzentes esmeraldas.
Os visitantes mais entusiastas e o serviço de catering, com bandejas repletas de canapés com o célebre jamón, continuavam a circular à nossa volta. A maioria ignorava a nossa presença, dedicando toda a atenção à valiosa coleção de livros antigos. Outros, porém, atendiam ao meu decote com leviandade. Cada vez que tal sucedia, o imortal impugnava este comportamento com um olhar intimidador aos indiscretos, fixando-se depois em mim. Então, dedicava-me uma expressão extremosa, com um sentido de proteção que me surpreendeu mais do que a sua indiferença ao meu vestido e o insinuante decote.
- Então, és o guia da exposição? – inquiri, abandonando os últimos pensamentos. Ele arqueou as sobrancelhas, surpreendido com a pergunta. Alguns dos imortais que conhecera liam os pensamentos alheios e este parecia gozar dessa mesma faculdade. Depreendi pela sua expressão de surpresa que esperava que manifestasse ter conhecimento da existência de seres da sua condição. Mas não tencionava fazê-lo. O instinto dizia-me que devia ser prudente com as palavras.
- Posso sê-lo. Julgo saber um pouco sobre manuscritos raros – respondeu com presunção, iludindo o facto de ambos ocultarmos a sua imortalidade. - O meu nome é Miguel – apresentou-se com uma vénia, tomando-me a mão de seguida. Completou a apresentação com o toque brando dos seus lábios nas costas da mão. O breve contacto desencadeou uma onda de calor que me percorreu o corpo. Miguel apercebeu-se. Os seus olhos demoraram-se no meus, mas de um modo que não me possibilitou evitá-lo por ter conseguido ruborizar-me. Acabei por falar quando me recompus.
- O meu nome é Claire – correspondi, reservando o meu apelido. Afinal, havia a possibilidade de conhecer o meu pai.
- É um prazer conhecer-te, Claire – disse o imortal. O meu nome com o seu encantador sotaque soou melodioso. - Queres dar uma volta pela sala para encontrarmos juntos o manuscrito que procuras?
- Porque não? – respondi. Era impossível recusar. Por diferentes motivos, o convite era por demais tentador. Por um lado, esta era uma oportunidade para indagar mais sobre o mundo dos imortais. Por outro lado, sentia-me estranhamente atraída por ele. - E posso saber o que te trouxe a esta inauguração? És colecionador? Restaurador? – Miguel delineou um sorriso na comissura dos lábios, não sei se pela abordagem direta ou pelo meu pouco à-vontade impresso em cada palavra.
- Julgo ter o mesmo interesse de todos os presentes, mas com uma diferença... Digamos que a minha entrada foi menos convencional. É que esqueceram-se de me enviar o convite – disse com o maior descaramento, brindando-me com o sorriso mais encantador.
Não retribuí. Acabara de confessar a sua intrusão. Ficara claro que a visita do imortal tinha uma intenção subjacente, bem diferente à dos convidados.
Um pensamento despontou: talvez o imortal estivesse na exposição para abordar as filhas de Robert Lansbury, com a intenção de exigir um resgate. A transcrição da fórmula da imortalidade em troca da libertação do meu pai.
3
SECUNDO MANUSCRIPTUM
CLAIRE
Fiz um sinal a Beth antes de me afastar. Ela assentiu e fez um esgar de preocupação. Sorri para a tranquilizar.
De seguida, Miguel cedeu-me passagem como um cavalheiro.
Dada a concentração de pessoas em volta dos escaparates junto às paredes do salão, começámos por um manuscrito fechado que se encontrava no centro da sala. Um casal que se dirigia para a mesma montra afastou-se quando nos aproximamos. Como se tivessem recebido uma ordem escutada somente por eles. Talvez o meu falso guia fosse o responsável pela ordem, mas preferi não dar-lhe importância, optando por concentrar-me na informação que me pudesse facilitar. Ou que tencionava transmitir-me em troca de algo.
- Acho que o encontrei. Conheces este manuscrito? – interpelei. Tratava- se de uma raridade do século XVI, ostentosamente restaurada com uma capa distinta da que terá tido na época. Na atualidade, apresentava uma encadernação num tom avermelhado, com aplicações num dourado carcomido a ornamentar os cantos do tomo. Não tinha qualquer título ou nome, destacando-se apenas uma ilustração alegórica, característica dos alquimistas. Neste caso, uma Fénix delineada a ouro e com tons laranja, amarelo e azul na cauda da ave, criando línguas de fogo ilusórias.
Ao contemplar o quão distinto era o manuscrito tive a sensação de já o ter visto antes. Todavia, não saberia precisar onde ou quando.
- Na verdade, este é talvez o manuscrito que conheço melhor – atestou Miguel. - Tem cerca de 500 anos, é-lhe atribuído o título de Secundo Manuscriptum e, de todos os que aqui estão, é o único cujo conteúdo é indecifrável. Um verdadeiro enigma até hoje. Talvez por esse motivo Tellier tivesse preferido mantê-lo fechado. De outra forma, iria prender a atenção dos visitantes apenas neste livro, tentando adivinhar o que dizem os rabiscos, deixando os outros de parte. Além disso, não iriam poder apreciar a ilustração da capa que é, por si só, uma pequena obra de arte. Apesar de não se tratar da encadernação original. Essa estava tão deteriorada que um dos proprietários que o manuscrito teve ao longo dos séculos acabou por substituí-la. Mas garanto-te que a ilustração é uma cópia fiel da original – explicou, contemplando a capa do livro com adoração.
- A ilustração parece uma ilusão impossível. Pergunto-me que ligação terá a capa com o conteúdo do texto – indaguei e pensei no meu pai. Ele venerava os enigmas do hermetismo e dedicara a sua vida a decifrar os textos codificados de antanho. Sobretudo tratados e outros manuscritos alquímicos.
De súbito, a tristeza apossou-se de mim com essa recordação. Creio que não fui capaz de dissimulá-la e dei com Miguel a examinar-me. Desviei o olhar do evidente escrutínio dos meus pensamentos.
- Dizem que a Fénix renasce das próprias cinzas e talvez, com esta ilustração, pretendessem criar uma alegoria à imortalidade – observou, permitindo-me disfarçar a nostalgia. - Talvez o autor do livro quisesse esconder o segredo dos imortais – concluiu, direto ao tema que concernia a ambos, mas num tom divertido. Forjei um sorriso.
- De qualquer forma, não importa. Nunca iremos saber, não é verdade? – redargui, procurando tirar proveito do seu comentário. Miguel orientou a sua atenção para o manuscrito e não respondeu. Concluí que o imortal não tinha a menor intenção de dizer fosse o que fosse sobre o seu mundo ou sobre o meu pai. Por isso, decidi tomar medidas drásticas, sem me importar com o que pudesse ver na minha mente.
- A minha irmã está à minha espera. Foi um prazer conhecer-te, Miguel. Boa noite – disse-lhe, voltando-me para o grupo de Beth e Tellier. A indiferença repentina talvez fosse o meu último recurso para tentear
