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Cultura e Representação
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E-book316 páginas3 horas

Cultura e Representação

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Sobre este e-book

O livro pertence à linha de pesquisa cultura e representações do Programa de Pós-Graduação em História da PUC-SP. Os temas dos capítulos são os mais variados, mas todos estão relacionados, de um modo ou de outro, aos temas cultura e representações. São pesquisas acadêmicas, frutos de mestrados ou doutorados, em curso ou concluídas.
IdiomaPortuguês
EditoraEditora Appris
Data de lançamento12 de jan. de 2025
ISBN9786525068275
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    Cultura e Representação - Carla Cristina Garcia

    Capa de Cultura e representação de Carla Cristina Garcia e Ana Hutz (orgs.).

    Conteúdo

    INTRODUÇÃO

    HORIZONTES ROMÂNTICOS EM FRANÇOIS-AUGUSTE BIARD: REPRODUZINDO OLHARES NO NOVO MUNDO

    Gustavo Ferreira de Oliveira

    Amilcar Torrão Filho

    DIALÉTICA DO INFERNO: UM ENSAIO SOBRE ADRIAN LEVERKÜHN E O IDIOSSINCRÁTICO MITO FÁUSTICO DA INTERIORIDADE À SOMBRA DO PODER

    Claudinei Cássio de Rezende

    FLÂNEUR, FLÂNEUSE E A CIDADE EM MRS. DALLOWAY DE VIRGINIA WOOLF

    Carla Cristina Garcia

    AS MANDINGAS DE SÃO CIPRIANO: LEITURAS E LEITORES DE UM MANUAL DE MAGIA NO BRASIL DO SÉCULO XX

    Inês Teixeira Barreto

    Alberto Luiz Schneider

    DOUTRINANDO CORPOS E AFETOS: MANUAIS DE CIVILIDADE DA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX

    Iranilson Buriti de Oliveira

    Maria Izilda Santos de Matos

    MULHERES PELA VIDA: PORQUE DAMOS LA VIDA DEFENDEMOS LA VIDA

    Alessandra di Giorgi Chelest

    Vera Lucia Vieira

    UM PENSAMENTO NO EXTERIOR: RECEPÇÕES DE MICHEL FOUCAULT NAS ARTES EXPERIMENTAIS BRASILEIRAS NA DÉCADA DE 1970

    Yvone Dias Avelino

    Fábio Leonardo Castelo Branco Brito

    SOBRE OS AUTORES

    Pontos de referência

    Capa

    Sumário

    Cultura e representação

    Editora Appris Ltda.

    1.ª Edição - Copyright© 2024 dos autores

    Direitos de Edição Reservados à Editora Appris Ltda.

    Nenhuma parte desta obra poderá ser utilizada indevidamente, sem estar de acordo com a Lei nº 9.610/98. Se incorreções forem encontradas, serão de exclusiva responsabilidade de seus organizadores. Foi realizado o Depósito Legal na Fundação Biblioteca Nacional, de acordo com as Leis nos 10.994, de 14/12/2004, e 12.192, de 14/01/2010.Catalogação na Fonte

    Elaborado por: Dayanne Leal Souza

    Bibliotecária CRB 9/2162

    C968c - 2024

    Cultura e representação

    Carla Cristina Garcia e Ana Hutz (orgs.).

    1. ed. – Curitiba: Appris, 2024.

    [recurso eletrônico]

    Arquivo digital : EPUB. – (Geral).

    Vários autores.

    Inclui referências.

    ISBN 978-65-250-6827-5

    1. História. 2. Cultura. 3. Representações.

    I. Garcia, Carla Cristina. II. Hutz, Ana. III. Título. IV. Série.

    CDD – 907

    Livro de acordo com a normalização técnica da ABNT

    Editora e Livraria Appris Ltda.

    Av. Manoel Ribas, 2265 – Mercês

    Curitiba/PR – CEP: 80810-002

    Tel. (41) 3156 - 4731

    www.editoraappris.com.br

    Printed in Brazil

    Impresso no Brasil

    Carla Cristina Garcia

    Ana Hutz

    (org.)

    Cultura e representação

    Curitiba, PR

    2024

    INTRODUÇÃO

    A incorporação dos estudos sobre cultura e representação na pós-graduação em História é crucial para ampliar o escopo da disciplina, oferecendo uma abordagem interdisciplinar que transcende a visão tradicional centrada em eventos políticos e militares. Essa integração permite aos historiadores explorarem como sociedades do passado interpretavam suas realidades sociais, políticas e econômicas através de expressões culturais como arte, literatura e música, capturando nuances além dos aspectos convencionais da história. Autores como Stuart Hall (1997) enfatizam que a cultura é um espaço dinâmico de produção de significados e identidades, moldado pelas estruturas sociais e políticas.

    A análise das representações revela como certos grupos foram marginalizados ao longo da história, enquanto Paul Ricoeur (2007) discute a memória histórica como um processo interpretativo dinâmico. Metodologias inovadoras, como análise de discurso e história oral, são essenciais para desvendar significados e preservar perspectivas marginalizadas. Esses estudos não apenas enriquecem a compreensão do passado, mas também proporcionam insights cruciais para entender as sociedades contemporâneas e suas próprias representações culturais e históricas.

    A análise de fontes artísticas e literárias como documentos históricos é essencial nos estudos de cultura e representação. A interdisciplinaridade é crucial para essa abordagem, permitindo uma análise mais abrangente e profunda da história. Estudos de cultura e representação revelam como identidades são construídas, negociadas e transformadas, e como significados culturais são produzidos e contestados.

    Este livro busca contribuir para o entendimento desse campo de estudos, destacando sua importância para a historiografia contemporânea e incentivando investigações futuras que explorem as intersecções entre cultura, representação e história.

    No Capítulo I, Horizontes românticos em François-Auguste Biard: reproduzindo olhares no Novo Mundo, Gustavo Ferreira de Oliveira e Amilcar Torrão Filho exploram como a arte influencia a percepção das paisagens, focando as obras de François-Auguste Biard (1799–1882) durante sua estadia no Brasil (1858–1859). Biard, um pintor e oficial da Marinha Francesa, documentou suas experiências no livro Deux années au Brésil (1862), com gravuras de Édouard Riou. O texto destaca a visão eurocêntrica e sarcástica de Biard, mais interessada em aventuras pessoais do que em análises objetivas do Brasil. Comparado a Hans Staden por Ana Lucia Araujo, Biard diverge de outros viajantes como Debret e Rugendas, que focaram aspectos demográficos e históricos. As representações de Biard são influenciadas pelas convenções visuais europeias do século XIX, revelando expectativas culturais. O capítulo reflete sobre como essas convenções moldam a percepção e a representação da natureza, destacando a importância do contexto cultural e histórico na análise de paisagens e povos estrangeiros, e contribuindo para o entendimento da intersecção entre arte e percepção cultural.

    No Capítulo II, Dialética do Inferno: um ensaio sobre Adrian Leverkühn e o idiossincrático mito fáustico da interioridade à sombra do poder, Claudinei Cássio de Rezende analisa o romance Doutor Fausto de Thomas Mann, relacionando-o ao contexto histórico, social e filosófico. O texto aborda a inversão do mito fáustico, onde Adrian Leverkühn se volta para o interior em um mundo decadente, contrastando com o Fausto clássico que busca conhecimento através de um pacto com o diabo. A reclusão de Adrian reflete o individualismo exacerbado da era burguesa e critica a alienação social e política. A música de Adrian simboliza a decadência espiritual da época, representando a desintegração cultural e moral diante da guerra e opressão. Serenus Zeitblom, o narrador, representa o intelectual que busca entender a tragédia de Adrian e o caos histórico circundante. O pacto fáustico de Adrian é uma metáfora para sua entrega à arte em um mundo decadente, simbolizando a luta do artista em crise e a busca pela perfeição que leva à ruína pessoal. A comparação com o Fausto de Goethe destaca as diferenças nas motivações e destinos dos protagonistas, refletindo as preocupações de Mann com seu tempo. Considerada uma obra-prima, a obra aborda temas universais como arte, moral, decadência social e destino individual, permanecendo relevante para a compreensão do mundo contemporâneo.

    O Capítulo III, "Flâneur, Flâneuse e a Cidade em Mrs. Dalloway de Virginia Woolf", de autoria de Carla Cristina Garcia, oferece uma profunda análise da obra clássica da autora, tecendo uma rica discussão sobre as representações da cidade de Londres, a figura da flâneuse e a crítica à ordem social patriarcal. O estudo destaca a cidade de Londres como um personagem central no romance, não apenas como cenário, mas como um espaço vivo e pulsante que influencia e é influenciado pelas personagens. A autora utiliza a cidade como um microcosmo da sociedade, revelando suas contradições, belezas e tensões. A figura da flâneuse, tradicionalmente associada ao homem, é reinterpretada por Woolf através da personagem Clarissa Dalloway. Clarissa perambula pelas ruas de Londres, observando e absorvendo a vida urbana, desafiando as normas sociais que limitavam o espaço das mulheres. O texto tece uma crítica contundente à ordem social patriarcal, revelando como ela reprime a individualidade e limita as possibilidades de vida das mulheres. A autora explora as angústias e frustrações de Clarissa, aprisionada em um casamento sem amor e em uma sociedade que a sufoca. A autora também destaca a importância da temporalidade na obra, com a narrativa se desenrolando em um único dia, intensificando a sensação de fluxo e fragilidade da vida.

    O Capítulo IV, As Mandingas de São Cipriano: leituras e leitores de um manual de magia no Brasil do século XX, é o resultado da pesquisa de mestrado de Inês Teixeira Barreto sob a orientação de Alberto Luiz Schneider. Nesse capítulo, os autores se dedicam a pesquisar um dos maiores sucessos editoriais do Brasil e alguns de seus leitores. Barreto e Schneider iniciam a explanação mostrando como o livro pôde ser um sucesso de vendas durante cem anos, para então se dedicar ao objetivo central do texto: a análise do perfil de leitores do Livro de São Cipriano e a repressão sofrida por eles, através de três estudos de caso. O texto de Barreto e Schneider é um importante veículo para todos aqueles interessados em relacionar o mundo editorial e as representações negativas das práticas de feitiçaria, em particular no Brasil Republicano.

    O Capítulo V, Doutrinando corpos e afetos: manuais de civilidade da segunda metade do século XIX, de autoria de Iranilson Buriti de Oliveira e Maria Izilda Santos de Matos, discorre sobre dois manuais de civilidade da segunda metade do século XIX: A alegria da casa, de Sarah Pouthon Kalley (1866, publicado no Rio de Janeiro), e Livro das noivas, de Julia Lopes de Almeida (1896, publicado inicialmente em Lisboa e, no mesmo ano, no Rio de Janeiro). Esses manuais versavam sobre o âmbito do feminino, tal como era entendido em sua época, englobando temáticas como o casamento e os afazeres domésticos, a maternidade, os cuidados e a higiene de si e dos outros, e os princípios e preceitos morais. Os autores relacionam a temática e abordagem dos manuais com as mudanças na sociedade brasileira da segunda metade do século XIX, sobretudo no que diz respeito às questões sanitaristas e higienistas. No percurso do capítulo, os autores demonstram como as narrativas dos manuais funcionavam para os leitores como ferramentas pedagógicas que permitiam novas compreensões sobre si mesmos, incentivando os membros das famílias a desenvolverem uma interpretação de si próprios.

    O Capítulo VI, intitulado Mulheres Pela Vida: porque damos la vida defendemos la vida, de autoria de Alessandra di Giorgi Chelest e Vera Lucia Vieira, trata do movimento Mujeres Pela Vida, retratado no documentário de Pablo Salas e formado em 1983, durante a ditadura chilena. As autoras mostram que esse, como outros movimentos femininos, era o grande responsável por denunciar publicamente as atrocidades cometidas pela ditadura. Ao longo do artigo, vemos a história da formação desse grupo composto por mulheres de diversos grupos sociais, sua atuação na resistência à ditadura e a repressão violenta do Estado. O trabalho do cinegrafista Pablo Salas, que documentou protestos e preservou as memórias de resistência, é central na análise das autoras. Observamos ainda como, a despeito de toda essa repressão, o movimento não desistiu de lutar pela liberdade e por suas convicções políticas.

    O Capítulo VII, e último capítulo, de autoria de Fábio Leonardo Castelo Branco Brito e Yvone Dias Avelino, intitulado Um pensamento no exterior: recepções de Michel Foucault nas artes experimentais brasileiras na década de 1970, parte do contexto fervilhante do final da década de 1960 para analisar a repercussão da obra de Michel Foucault no Brasil. Ao longo do artigo, os autores discorrem sobre a apropriação estética e a ressignificação do pensamento de Foucault no Brasil, sob a forma de diversas manifestações artísticas. Isso se torna ainda mais relevante quando tomamos o contexto de chegada dessas ideias: o período repressivo da ditadura militar. Os autores demonstram a relação entre o pensamento de Foucault e as experiências artísticas de importantes nomes, notadamente o poeta Torquato Neto e Waly Salomão.

    Finalmente, gostaríamos de agradecer à Capes, que, pela Portaria n.º 155, de 10 de agosto de 2022, Programa de Desenvolvimento da Pós-Graduação (PDPG) Emergencial de Consolidação Estratégica dos Programas de Pós-Graduação stricto sensu acadêmicos, contribuiu de forma decisiva para a publicação deste livro.

    Referências

    HALL, Stuart. Representation: cultural representations and signifying practices. Londres: Sage Publications, 1997.

    RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas, SP: Editora Unicamp, 2007. 536 p.

    Horizontes românticos em François-Auguste Biard: reproduzindo olhares no Novo Mundo

    Gustavo Ferreira de Oliveira

    Amilcar Torrão Filho

    O presente capítulo lança mão da premissa sobre a discussão da questão de que a arte constrói uma ideia de paisagem, e, respectivamente, que a paisagem está atrelada àquilo que elegemos como natureza; logo, podemos compreender como o olhar do viajante está saturado e entrelaçado por referências da esfera artística, em que este se encontra, e também por obras de artistas e viajantes precursores. Do mesmo modo, não só a paisagem é uma construção cultural, como também a produção artística que culmina naquilo que hoje chamamos de iconografias de viagem possui uma herança predecessora.

    Para empreender tal exercício, nestes escritos, são analisadas algumas obras produzidas pelo artista-viajante François-Auguste Biard (1799–1882). O pintor francês conheceu o Brasil entre os anos de 1858 e 1859. Após seu retorno à Europa, como resultado do périplo, o viajante publicou na França seu diário de viagem intitulado Deux années au Brésil (1862). O livro em questão é ilustrado com 180 gravuras, sendo que, em sua grande maioria, elas foram assinadas por Édouard Riou.¹

    Durante o período em que aqui esteve, Biard passou grande tempo na sede do Império Brasileiro, a cidade do Rio de Janeiro, na qual teve a oportunidade de pintar retratos do imperador Dom Pedro II e sua imperatriz. A aproximação com o monarca logrou ao pintor cartas de recomendação e uma indicação para ingressar na Academia Imperial de Belas Artes, como professor honorário, cargo que ele dispensou. Biard conheceu a província do Espírito Santo e suas florestas, para em seguida rumar para o Norte, a fim de conhecer a Floresta Amazônica, e navegar pelos rios Madeira e Negro.

    Em seu livro, o pintor francês deixa entrever mais sobre sua personalidade e visão de mundo do que um relato franco de suas vivências experimentadas durante a viagem, construindo assim uma narrativa imbuída de sarcasmo e cenas cômicas. Além do fato de que suas páginas estão repletas de uma concepção eurocêntrica, o que afeta de forma direta suas representações de si e do Outro.

    Ao analisar Dois anos no Brasil, Ana Lucia Araujo (2017, p. 99) compara o livro de Biard com os escritos produzidos por Hans Staden. A autora apresenta a semelhança entre os dois, pois ambos são, em suas obras, espectadores/narradores e ao mesmo tempo protagonistas em seus relatos. Araujo nos diz que a construção da narrativa em Biard difere de outros relatos de viagem de maneira geral; e que a característica cômica e aventureira perpassa toda sua obra, imprimindo-lhe traços de uma literatura burlesca, oriunda de romances produzidos ao longo do século XIX.

    Outros viajantes, como, por exemplo, Debret, Rugendas, Spix e Martius, guardadas suas especificidades, preocuparam-se, de maneira geral, em levantar dados sobre: a população local, a história do Brasil, condições climáticas, condições econômicas etc. Já Biard pouco se preocupou em transmitir a seu leitor essas informações. O pintor preocupou-se muito mais em narrar suas aventuras e desventuras no Império Brasileiro, à procura de seus modelos indígenas ideais e em sua busca utópica em seu encontro com a natureza.

    De produção eclética, François-Auguste Biard alcançou notoriedade na França a partir do ano de 1827, quando foi contratado como pintor oficial da Marinha Francesa. Tal cargo possibilitou ao artista conhecer a ilha de Chipre, no Mediterrâneo, e também Malta, a Turquia e o Egito. O artista ainda expôs seu trabalho nos Salons de Paris em 1827, 1833, 1838, 1843 e 1846. É condecorado em 1839 com o título de cavaleiro da Legião de Honra.

    Quando nos debruçamos sobre as representações do Brasil produzidas por Biard, constatamos que as referências culturais do viajante condicionam seu olhar em relação aos trópicos, tanto nas formulações de juízos de valor quanto nas figurações pictóricas das terras brasileiras.

    Assim, colocamos em evidência as obras de Biard que representam os trópicos à luz da produção artística europeia, mostrando como elas se aproximam de imagens produzidas por artistas consagrados no eixo euro-estadunidense, denotando as convenções visuais em voga na segunda metade do século XIX e como estas se refletem nas produções estrangeiras que figuraram o Brasil.

    Então, para esse exercício, buscamos compreender como as convenções visuais se instituem na esfera artística, inicialmente a partir da pintura de paisagem. Com isso, pretendemos demonstrar como o olhar é condicionado pelo tempo e como esse olhar influencia a percepção dos viajantes estrangeiros na produção iconográfica.

    Na obra Paisagem na arte (1949), do historiador Kenneth Clark, vemos logo no início do livro apontamentos do autor em relação à questão da paisagem como construção cultural, permeada por símbolos que dizem respeito àquilo que não foi feito pelo homem, pois:

    Estamos rodeados por coisas que não foram feitas por nós e que têm uma vida e estrutura diferente da nossa: árvores, flores, relva, rios, colinas e nuvens. Desde há séculos que nos inspiram curiosidade e respeito, e têm sido objectos do nosso prazer. Temo-las recriado na nossa imaginação reflectindo assim nossos estados de espírito. E temos pensado nelas como elementos de uma ideia a que chamamos Natureza. (Clark, 1949, p. 19).

    A ideia de paisagem como construção cultural estará em evidência em toda a obra de Clark; contudo, seu foco principal será a apresentação e discussão da evolução da pintura de paisagem desde o medievo, até chegar nas concepções das paisagens impressionistas, sempre buscando estabelecer as influências — principalmente filosóficas — que permeiam essas transformações.

    Os filósofos Alain Roger em Breve tratado del paisaje (2007) e Anne Cauquelin em A invenção da paisagem (2007) possuem aspirações semelhantes quanto à problemática que circunda o conceito paisagem. Além do fato de que ambos discorrem sobre a dificuldade de se conceber a natureza enquanto um sujeito autônomo.

    A paisagem, segundo Roger, é uma construção cultural, o autor

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