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Mel Da Terra - Páulo Thorrez
MEL DA TERRA
dos Cabeças
ao Rock de Brasília
1978 a 1982
Páulo Thorrez
MEL DA TERRA
dos Cabeças
ao Rock de Brasília
1978 a 1982
Páulo Thorrez
Ficha Técnica:
©Copyright 2024 por Páulo Thorrez. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste
livro pode ser reproduzida ou transmitida de qualquer forma ou por qualquer meio, incluin-do fotocópia, gravação ou quaisquer sistemas de armazenamento e recuperação de infor-
mação, sem permissão por escrito do autor."
Capa e Contracapa: Páulo Thorrez e José Osvaldo.
Foto da capa: Correio Braziliense Diagramação: Andressa Gonçalves
Revisores: Carmem Menezes e Ricardo Wagner Ribeiro
Spotify: Páulo Thorrez
Instagram: @paulothorrez Instagram: @paulothorrez_artevisual
Youtube: @páulothorrez
Email: paulothorrez@hotmail.com
Ficha Catalográfica:
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Thorrez, Páulo
Mel da terra : / Páulo Thorrez. -- 1. ed. --
Brasília, DF : Páulo Torrez, 2024.
ISBN 978-65-01-02828-6
1. Compositores - Brasil - Biografia 2. Mel da
Terra (Banda) 3. Rock (Grupos) - Brasil 4. Rock -
Brasil - Discografia I. Título.
24-207452 CDD--782.421640981
Índices para catálogo sistemático:
1. Mel da Terra : Grupo musical : História
782.421640981
Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427
Este livro começou a ser escrito por mim no ano de 1979, quando, logo após os primeiros ensaios da banda, comecei a fazer pequenos rascunhos. Durante todos esses últimos
45 anos, fui lembrando e aprimorando histórias vividas.
Páulo Thorrez (Paulo Maciel)
Dedicado a
Remy Portilho,
Sérgio Pinheiro,
Paulinho Mattos,
Haroldinho Mattos,
Beto Escalante
"Acho que ninguém tem o direito de ficar limitando a
arte em estreitos ou parâmetros. O trabalho que a gente faz é ao mesmo tempo, música teatro e dança, não é uma coisa só. Compreendido por pessoas de qualquer nível, de qualquer faixa etária. É uma coisa simples, verdadei-ra, como nós mesmos. A transa do Mel é com as pessoas.
Queremos estar próximos delas."
(Sérgio Pinheiro)
Índice:
1978 - E A Cidade Tinha Cheiro De Asfalto Novo 15
1979 - Do Cabeças
para milhares de cabeças 35
1980 - Ô abre Alas... o Mel da Terra vai PASSAR 69
1981 - Lábio doce, tudo ideal e real no Planalto Central 117
1982 - Escolhas erradas Caminho Alterado 161
Prefácio
O que se convencionou chamar de Rock Brasília, a partir do estou-
ro de algumas bandas em 1983, revelando ao eixo Rio-São Paulo a forte produção do estilo a Capital da República, possui outra ori-gem em sua concepção da década de oitenta quase desconhecida do grande público brasileiro. O embrião do boom do rock que elevou o nome da cidade a um patamar igual ao do Rio e de São Paulo dentro da mídia surgiu em 1978, quando alguns garotos brasilienses resol-veram trabalhar a música ainda moldados pelas correntes do som progressivo e as fusões com timbres mais latinizados.
Um ano mais tarde nascia o grupo Mel da Terra, o principal respon-
sável pelo desencadeamento do rock brasiliense e primeira banda da cidade a chegar ao disco, dentro do que se pressupôs como Rock Brasília. Na verdade, esta seria a terceira edição de um movimento que se iniciou na década de sessenta, continuou com outra forma até meados dos anos setenta e consolidou-se mercadologicamen-te a partir de 1983. Nesta época, o Mel da Terra seguia para São Paulo, onde no estúdio Vice-Versa, gravou seu primeiro trabalho, em forma de Lp e iniciou assim toda a trajetória de um movimento que tomaria conta do Brasil, em 1985. Havia duas correntes roquei-ras no Planalto Central no início dos anos oitenta. Uma transitava
pelos acordes pesados e primitivos da ressurreição causada pelo Sex Pistols, que levantou nomes como o da Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. A outra trabalhava a música, dentro do estilo rock, com arranjos mais esmerados, concepção criativa e perfeito conhecimento musical, além de uma definição correta do que se pretendia fazer com a proposta. O Mel da Terra encabeçava esta segunda facção - se é que se pode considerar a única divisão deste sopro cultural como parte e ou integrante dela. (Rodrigo Leitão)
MEL DA TERRA
1
1978
E A CIDADE TINHA CHEIRO DE
ASFALTO NOVO
15
EMEL DA TERRA ra julho em Brasília, o frio já se despedia da cidade e a seca anunciava a sua chegada com dias quentes e sem umidade. Dentro do ônibus Grande Circular, linha que cruza a Asa Norte e a Sul, eu estava nervoso para saber como seria o meu teste para estu-dar na Escola de Música de Brasília, indicado pelo professor Ney Rosauro (com sua banda Margem
, um dos precursores do rock de Brasília no início e meados da década de 1970), após algumas aulas de violão no curso que ele ministrava no SESC da 913 Sul.
Desci do ônibus e fui a passos apressados para a Escola de Música.
Uma multidão aguardava a sua vez de entrar em uma pequena sala onde dois professores aguardavam ao lado de um piano.
Um a um foram sendo chamados para fazer o teste, e, por sorte,
fui um dos últimos. Entrei na sala tremendo mais que vara verde, suava que parecia que eu estava derretendo; o professor me pediu para que eu repetisse alguns ritmos que ele fizera. Foi uma beleza: filho de pais pernambucanos e com todo aquele universo rítmico do Nordeste, eu tirei de letra. Logo o outro professor sentou ao piano e me pediu para que repetisse algumas escalas que fizera ao piano. Essa foi a parte mais difícil. Talvez por minha tamanha timidez e também por nunca ter cantado, só deu pra sair algumas notas daque-la voz pós-adolescência.
16
MEL DA TERRA
Terminei o teste e segui para a parada de ônibus pegar o Grande
Circular, esperançoso em um dia tocar um instrumento e, quem sabe, subir ao palco.
Depois de uma semana apreensiva, o telefone tocou e minha irmã
Maria do Carmo atendeu:
— Paulo, papai quer falar com você urgente… — Alô?
— Paulo, pegue um ônibus e venha até o hospital: sua mãe foi ope-
rada e quero que você dê uma passada por aqui. Não demore.
Ele não sabia que eu tinha feito o teste para entrar na Escola de
Música e justamente hoje à tarde sairia o resultado. Decido passar primeiro na Escola e depois ir ao hospital visitar minha mãe. Chego ao hospital e, empolgado, dou logo a notícia:
— Mãe, passei no teste da Escola de Música! Vai começar sema-
na que vem.
— Imagino a barulheira que será lá em casa! — A senhora tá bem?
— Dessa eu escapei, graças aos meus santos. — Essa turma aí é forte mesmo...
Eu estava em êxtase. Cheguei em casa e fui direto para o meu
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MEL DA TERRA
quarto pegar o violão que meu irmão Marcelo tinha me emprestado.
— "Chô Chuá, cada macaco no seu galho, Chô Chua, eu não me
canso de falar..."
Essa música do Gilberto Gil aprendi no curso de violão que o Ney
Rosauro ministrava no SESC da 913 Sul, indicado pelo meu grande amigo do Colégio Caseb, Sérgio. Nas noites, eu ficava aprendendo a tocar as músicas de revistinhas de bancas de jornais.
Primeiro dia de aula é dia de confusão. Um monte de alunos que-
rendo saber pra onde ir, e eu, no meio daquela confusão, não tinha a menor ideia do que fazer. Fui para a secretaria. Ao chegar ao bal-cão, a atendente me explicou a dinâmica do curso:
— Além das matérias teóricas e coral, você vai ter que escolher um
instrumento. Você já escolheu?
Ao ser perguntado, percebi que não tinha a menor ideia. Sempre
gostei do som do baixo que o Paul McCartney tirava nos Beatles e minha irmã Maria do Carmo sempre me presenteava com os LPs que ele lançava com a banda WINGS. Foi pensando nas linhas de baixo que o Paul fazia que fiz minha escolha.
— Vou fazer baixo.
— Contrabaixo? Que bom. Temos poucos alunos nesse instrumento.
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MEL DA TERRA
Aqui estão os seus horários das aulas e vá para a sala de coral, que vai ter uma seleção agora.
Ao ouvir a ordem pensei: meu Deus, vai começar tudo de novo!
Vermelhidão, suadeira... E se não sair nada na hora? Cheguei à sala
do coral e o professor começou o teste:
— Vamos lá, quantos anos você tem?
— Dezesseis.
— Me acompanhe, dó ré mi fá sol lá si dó. Agora vamos descer a
escala.
— Dó si lá sol fá mi ré dó si lá sol fá mi... Tá bom, você é barítono,
mas vai ficar com o pessoal do baixo.
Pensei comigo mesmo: sou baixo nas vozes, vou estudar contra-
baixo, mas com 1,82 de altura? Só podia ser piada. A ideia que eu tinha de baixo era o elétrico, aquele parecido com a guitarra e, de repente, entro em uma sala enorme com vários instrumentos aguar-dando os seus manejadores. Confuso, resolvo perguntar à senhora que parecia ser a responsável.
— Por favor, senhora, tenho uma aula de contrabaixo agora, será
que podia me mostrar um?
Saio daquela sala carregando um trambolho maior que eu, pesado,
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MEL DA TERRA
e não tinha a menor ideia de como carregá-lo. Para completar a ver-gonha, a sala em que eu ia estudar ficava no último bloco da escola e eu teria que passar por aquele corredor com todos aqueles olhares curiosos. Chego até a sala que fora indicada, abro a porta e entro:
— Boa tarde, eu tenho uma aula com o senhor agora…
O velho professor levantou da sua cadeira, resmungou alguma
coisa e me fez sentar no banco.
— Pegar baixo e tocar…$%$#%¨&&*. — Mas eu não sei nada.
— Você é burro? Vamos, vamos…
O que ele tinha de pequeno e velho tinha de bravo. Eu não entendia
a metade das
