Dança e Corponectividade: Inexistências na Formação da Pessoa Pedagoga
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Sobre este e-book
práticas superficiais e desconectadas de seus potenciais epistemológicos e artísticos. Entrelaçando experiências artísticas, conceitos contemporâneos de corpo e análises de documentos oficiais da educação, a obra denuncia a lógica polivalente que esvazia o ensino das Artes e propõe alternativas para reconfigurar a formação docente de forma mais sensível, interdisciplinar e reflexiva. Destinado a pessoas pedagogas, educadoras, pesquisadoras e educandas das áreas de Dança, Educação e Artes,
este livro é um convite a repensar os corpos em movimento como agentes de conhecimento e transformação social. Seu diferencial está na articulação potente entre Dança e Pedagogia, na proposição do conceito de Corponectividade e na defesa intransigente da Dança como campo legítimo de saber na
escola. Uma leitura essencial para quem acredita que a educação pode (e deve) ser também um espaço de criação, emancipação e resistência.
Carlos Alexandre Borges de Lima
Pessoa Pedagoga-artista fertilizada nos seios da Amazônia e docente de ensino superior. Mestre em Dança com 18 anos de andanças em múltiplos contextos educacionais. Líder do GRUTEPAE (Grupo Transdisciplinar de Estudo e Pesquisa em Arte e Educação).
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Dança e Corponectividade - Carlos Alexandre Borges de Lima
ENREDAMENTOS INICIAIS: SENTIRPENSAR A PESQUISA
Ao lançar-me na tarefa de escrever este livro, com base em minha dissertação de mestrado, desejei traçar uma tessitura que não apenas acolhesse os elementos que sempre guiaram meu caminhar — o corpo e a Dança —, mas que também pudesse oferecer a outras pessoas docentes envolvidas com o Ensino de Artes novos pontos de partida para reflexões ou investigações futuras. Não busco aqui a arrogância de afirmar verdades definitivas, pois compreendo que o conhecimento é sempre continuum, em estado de travessia. Este livro não pretende erguer monumentos imutáveis, mas sim abrir frestas, janelas por onde novos olhares possam atravessar.
Rompendo o silêncio de estupefação, espero que este texto possa instigar movimentos — movimentos que desvelem, que problematizem, que interroguem os dualismos que ainda assombram a Educação Básica. Que cada página seja menos um fim e mais uma dobra: uma dobra do pensamento, do corpo, da sensibilidade que insiste em criar mundos onde a arte não seja apenas a cereja do bolo
, mas existência.
Se todos tivéssemos idênticas reações à mesma experiência, não haveria necessidade de novas buscas. Portanto, ao falar desta pesquisa, falo de sentimento. Penso que ela nasceu de uma insatisfação com as significações já existentes. Assim, decidi colocá-las pelo avesso e investigar, destacar, outras redes de significados sobre o corpo, mais especificamente, no que diz respeito à pessoa acadêmica de Pedagogia. Utilizei a Dança, caminhando pelas metáforas corpóreas, pela percepção do corpo e tendo como nucleação a corponectividade.
Sou uma pessoa pedagoga por formação na graduação, mas trazendo a Dança comigo desde o meu entendimento como pessoa deste mundo, ainda que começasse a dançar, de fato, na adolescência. Aqui já se instaura uma possibilidade de diálogo, esse que muitas vezes inexistiu no campo da minha formação. E o que isso mapeia? Um desejo de pertencer — nesse lugar de pessoa pedagoga por formação e artista da dança por formação informal sem um lugar na Pedagogia. E foi nessa bifurcação da vida que surgiu o interesse pela investigação desse tema.
Na graduação em Pedagogia percebia-me como um corpo fora do lugar. Lugar esse que não tinha a Dança como fonte de seus saberes. Perguntava-me sempre cadê a dança?
. Vi apenas meros resquícios de fragmentações do que se entendia e ainda se entende sobre ela. A Dança era desqualificada como área de conhecimento ao ser abordada com termos como recreação, ludicidade, brincadeira dançante, recurso pedagógico
, entre outros termos. Colocada em um lugar de diversão e instrumento, ou seja, como cereja do bolo
. Dentro desse cenário, nesta argumentação, reconheci a grande fragilidade do curso de Pedagogia com a falta do ensino de Dança/Artes na formação da pessoa pedagoga. Pessoas docentes sem cabedal suficiente para formar futuras pessoas pedagogas com conhecimentos das Artes e quiçá da Dança, currículos sem referências bibliográficas sobre Dança, ações pedagógicas sem um procedimento didático adequado para o ensino de Dança na escola.
Outra questão trazida no título deste livro é sobre o entendimento dualista (corpo versus mente) no processo formativo no currículo do(s) curso(s) de Pedagogia e, possível afirmar, na grande maioria de Projetos Políticos Pedagógicos de escolas. É perpetuada a existência simultânea de duas coisas, princípios, sensações contraditórias em uma mesma pessoa. Não há uma formação em Dança na Pedagogia, no sentido de trazer pessoas da Dança e demais especificidades das Artes para o curso, apesar de propor no seu Projeto Pedagógico o estudo das Artes e intentar preparar a pessoa pedagoga para ensinar Artes. A Pedagogia está dentro da Dança, e a Dança está dentro da Pedagogia nessa narrativa investigativa nos processos pedagógico-artísticos.
O ambiente da Pedagogia se recusa a olhar para a Dança ao negá-la nos ementários do curso. Isso se torna um acontecimento que mapeia o entendimento de Dança como algo inferior — não sendo privilegiada no currículo. E qual a implicação disso? Que, mesmo não tendo no currículo, pessoas pedagogas atuam ensinando Dança. Isso gera uma formação polivalente — e essa formação polivalente vai dar conta de quê? Ela é efetiva?
Este trabalho tem a compreensão de que é difícil para as pessoas profissionais de Pedagogia terem acesso ao entendimento da Dança como área de conhecimento e dos conceitos de corpo e seus processos formativos. Coloco-me nesse lugar quando estive nesse contexto formativo. No Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), mesmo abordando a Dança dentro do desenvolvimento das expressões criativas e a descoberta do corpo na Educação Infantil, o TCC foi elaborado dentro de uma proposta de recurso pedagógico. Ainda não tinha estudo e pesquisa sobre questões epistemológico-teóricas da Dança. Apesar disso, esses problemas já me eram perceptíveis nos processos investigativos curriculares da Dança na escola, na atuação da pessoa profissional de Pedagogia.
A Dança não está colocada na estrutura curricular do curso de Pedagogia como uma disciplina isolada em um eixo comum de formação, cuja finalidade seja a especialização na área específica da Dança. O curso não tem objetivo de formar pessoas pedagogas capazes de darem aulas de Dança e ocuparem o espaço de um Licenciado em Dança. E esta obra reivindica a legitimação dos especialistas da área da Dança e o respeito da Dança como área de conhecimento na educação, assim como defendo a Pedagogia e seu campo de conhecimento.
Até o momento (2023–2024) as pessoas pedagogas, no Brasil, atuam com aulas de danças e outras artes para crianças. A formação delas é desenvolvida em uma perspectiva polivalente, não há um preparo de questões estéticas e epistemológicas em relação à Dança, e a quaisquer artes. Na amplidão desta problemática no país será dado um recorte de como se dá o trajeto formativo dos profissionais atuantes na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental de Manaus/AM, nas perspectivas curriculares em relação à Dança como área e/ou subárea de conhecimento.
Uma hipótese que se apresenta é a de que o dualismo corpo versus mente ainda se encontra enraizado no trajeto formativo desses profissionais de Pedagogia, motivo pelo qual a dança vai ser tratada como um saber complementar, e não como campo de conhecimento específico, haja vista que o corpo ainda é compreendido apenas como um meio de expressão para as danças. Formulação que não abarca o entendimento do corpo e suas danças como articuladores e produtores de conhecimento. Fato, possível afirmar, que implica o despreparo no lidar com crianças em sua integralidade como pessoas no mundo.
Paul Churchland (2004)¹ nos ensina sobre a ocorrência de cinco tipos de dualismo, sendo o mais comum o denominado dualismo de substância (que se divide em dualismo cartesiano e popular). Essa concepção afirma que existem duas substâncias: mente e corpo, e que o mental (substância não física) pode existir fora do corpo e o corpo (substância física) não pode pensar. Portanto, esse caso ocupa um lugar alarmante nas ações educativas nas escolas.
O processo de formação inicial é fundamental para o desenvolvimento de ações pedagógicas de cunho emancipatório sobre o corpo. Pessoas profissionais de Pedagogia atuam em todas as áreas do conhecimento e são os únicos profissionais com habilitação para atuar como docentes na Educação Infantil e nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), lei 9.394/1996. Nesse contexto esta pesquisa tece um diálogo sobre os conceitos de polivalência e interdisciplinaridade, para entender de que forma tais conceitos se aplicam, se complementam, ou se sobrepõem em documentos oficiais para as propostas educacionais na formação da pessoa pedagoga.
O objetivo geral deste estudo é entretecer uma análise crítica e propor um diálogo entre as áreas da Dança e da Pedagogia. O estudo tem como objetivos específicos da investigação: (I) apontar o problema do trajeto formativo do curso de Licenciatura em Pedagogia em Manaus nas perspectivas curriculares em relação à Dança como propositora de conhecimento no contexto escolar; (II) identificar as inexistências da Dança nas proposições curriculares do curso de Pedagogia, buscando possibilidades de superação por meio de ações interdisciplinares; (III) apresentar conceitos de corpo e dança distintos do habitual a exemplo de corponectividade (Rengel, 2007), como fundamentação articuladora na formação inicial e continuada da pessoa pedagoga.
O cerne dessa discussão formalizou o seguinte problema: Onde se localiza a Dança e como se dá a sua presença na formação da pessoa pedagoga, respeitando os devidos espaços profissionais?
A formação inicial da pessoa pedagoga ocorre em cursos de Pedagogia — licenciatura, sendo que nos currículos de tais cursos noções introdutórias de Dança deveriam estar presentes. Tal argumentação se elabora de acordo com diversas orientações legais, sendo uma delas a própria Resolução CNE/CP n.º 1/2006, que institui Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Pedagogia, licenciatura. No entanto, tal formação pode ser compreendida e empreendida de múltiplas formas, considerando diferentes entendimentos dos textos legais em dessemelhantes sistemas educacionais, sendo o desígnio desta pesquisa o contexto educacional de Manaus, Amazonas.
Entre os dilemas da formação artística da pessoa profissional de Pedagogia está a questão da polivalência. Ela assume, nesta pesquisa, a responsabilidade pelo ensino de quatro linguagens artísticas, as quais deveriam estar presentes de forma equânime e não fragmentada, no contexto localizado desta pesquisa, Manaus/AM. Busca-se a superação desses problemas da formação inicial da pessoa profissional de Pedagogia. Diversos docentes que formam profissionais da Pedagogia, seja na universidade ou em projetos de formação continuada, atuam de forma polivalente. Há, de modo geral, a superficialização dos conteúdos, criticada pela literatura da área, sem possuir aprofundamento teórico-epistemológico sobre a área de conhecimento Dança/Artes, incluída aquela que trata da formação da pessoa pedagoga ou do professor especialista em uma linguagem artística.
Em diferentes documentos, como na Resolução específica para o curso de Pedagogia, em 2015, aprovada na Resolução CNE/CP n.º 2, de 1º de julho de 2015, o termo polivalência
deixa de ser mencionado, sendo substituído por interdisciplinaridade. Este termo parece superar os dilemas existentes com relação à formação e à atuação da pessoa profissional de Pedagogia com relação ao Ensino de Dança na escola. Porém, as orientações que se referem à ação interdisciplinar são pouco esclarecedoras. Esta mudança na terminologia sobre o ensino de Dança representa, de fato, uma mudança efetiva nos processos de formação dos profissionais de Pedagogia e no seu ofício docente em sala de aula nas primeiras fases da Educação Básica? Este é o foco das discussões que se seguem nesta pesquisa, levando em consideração que tais discussões afetam a formação e a ação de especialistas das linguagens artísticas.
Foi feito um levantamento de bibliografia, decorrente das pesquisas na área da Dança, que discute o tema e os conceitos aqui apontados como nucleares na leitura para interpretar e propor alternativas ao problema da formação da pessoa pedagoga. Para isso, organizou-se uma base de dados para conhecimento, compreensão e aprofundamento dos saberes em Dança na escola que decorre da investigação deste objeto. Procura-se avaliar e sintetizar o conceito de corponectividade (Rengel, 2007) e autonomia intelectual (Ghedin, 2018) e seus desdobramentos para a área de conhecimento da Dança. O mesmo processo foi adotado para compreensão e apreensão dos outros conceitos aqui estudados.
Foram feitos recortes, para efeito de análise, de dois documentos para contextualização do histórico formativo e constitutivo do curso de Licenciatura em Pedagogia: a) Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Pedagogia, licenciatura (Brasil, 2006) — que tratam da formação inicial do pedagogo em curso superior e incluem o ensino de artes; b) Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada (Brasil, 2015) — que tratam de novas orientações gerais que se aplicam a todos os cursos de licenciatura do país. Entre outros documentos legais, a Base Comum Curricular (BNCC, 2020) foi consultada e incluída para auxiliar no processo analítico-crítico.
Na análise crítico-analítica dos documentos oficiais já mencionados, com nucleação dos conceitos de polivalência e interdisciplinaridade, buscou-se pelas orientações, pelos objetivos e conteúdos referentes à área de conhecimento Dança na formação da pessoa profissional de Pedagogia. A literatura da área de Dança e Educação que tratam das políticas educacionais, da organização curricular da Educação Básica e da formação da pessoa profissional de Pedagogia também foi revisada de forma sistemática, a fim de contribuir para a discussão proposta. Os dados dos documentos analisados dialogam, sempre que possível, com esta literatura revisada, trazendo elementos que se complementam ao longo dos textos
