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Marés de setembro - Pedro Chambel
Créditos
© Editora Gato·Bravo 2019
Não é permitida a reprodução total ou parcial deste livro nem o seu registo em sistema informático, transmissão mediante qualquer forma, meio ou suporte, sem autorização prévia e por escrito dos proprietários do registo do copyright.
editor Marcel Lopes
revisão editorial Paula Cajaty
projecto gráfico 54
D
esign
imagem da capa Shutterstock
Título
Marés de setembro
Autor
Pedro Chambel
isbn 978-989-8938-23-7
e-
isbn 978-989-8938-24-4
1a edição: setembro, 2019
Depósito legal: 460983/19
gato
·
bravo
rua de Xabregas 12, lote A, 276-289
1900-440 Lisboa, Portugal
tel. [+351] 308 803 682
editoragatobravo@gmail.com
editoragatobravo.pt
Epígrafe
Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente luminosa que [se] destaca das fachadas sujas e, ainda mais, das janelas abertas. E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou.
— Bernardo Soares,
O Livro do Desassossego
Dedicatória
Para o Francisco e para a Ângela.
Obrigado pelo incondicional apoio..
Marés de setembro
" – Sabes, a questão, no fundo, é simples. Como podemos viver com isto tudo? Parece difícil, ou mesmo impossível. E no entanto…No entanto, continuamos. Sempre pensei que não aguentaria, a vida… e o que se passou, sabes? E no entanto aqui estou. A viver todos os dias, a viver cada dia. Sim às vezes, o passado volta. Inspecciono-me, finjo explicar-me, contar, enfim, a alguém. Mas é tudo. Apenas continuamos, todos, ou quase… continuamos, sabes? Rui falava com uma súbita confiança, com um desejo de contar, narrar aquela história, talvez trivial, repetida desde que os homens sentem desejo, desde que existem homens e que se sacralizam uniões. Como tantas vezes pensara, um dia esse momento talvez finalmente chegasse, e então podia desvendar o passado a outro, a alguém que não ele próprio, como sonhara nos seus elípticos monólogos silenciosos, obedecendo, assim, à ilusória ideia de que não ficaria esquecido e a sua história que também era a do seu pai, da sua mãe, da madrasta, do irmão e sabe-se lá de quem mais, mas sobretudo a sua, não seria olvidada, vencendo por meio da sua verbalização a memória dos homens a que se apegaria para sempre. Agora, frente a Rodrigo, sentia um à-vontade que não se lembrava de alguma vez ter sentido, a que se juntava o desejo premente da partilha e uma simpatia por aquele velho conhecido, que talvez nem fosse, na verdade, correspondida. Rodrigo, no entanto, à sua frente parecia disposto a tudo ouvir, a ser um reservatório silencioso para o qual Rui podia despejar os velhos ressentimentos. –
Sabes, um dia um gajo que tinha um gato com nome de homem perguntou-me como se chamava o cão da minha infância, e eu, envergonhado, admiti aquele nome vulgar dum animal de estimação que vinha do fim do mundo, com a simplicidade atroz do nome de um burro que tinha sido transformado em herói de uma série infantil de que eu na altura já nem me lembrava. Mais tarde, quando comprei o boxer dei-lhe o nome, talvez com maliciosa inconsciência, mas no fundo nem sei, de um brasileiro que conhecia. Só depois me lembrei da coincidência, mas deixei estar. O cão parecia já estar habituado…" – Encontrava-se, sabia-o agora, disposto a contar todas as suas pretensas maldades, os seus erros, mas sobretudo o que considerava como os seus pecados, e aquela história insignificante parecia dar-lhe a confiança necessária para abrir, de forma crescente, a torrente destes com que a si próprio se marcara, como uma deformação congénita que na infância o expusera e, depois, o assinalara para sempre, fazendo-o membro de uma infame raça condenada pelos divinos desígnios a esconder-se pelas franjas do orbe, qual um Cinocero cuja exposição o transformaria numa atracção de feira, e que, portanto, habituara-se a ocultar a tremenda face com a adequada máscara e a envergar um ridículo dominó de Carnaval.
– Nasci em 60, dois anos depois do meu irmão. Ele, em 58, o ano do azar…
– Rui continuava com a velha e estúpida superstição que tinha alimentado desde a infância e que partilhara com aquele distante irmão, apenas dois anos mais velho, mas que para ele sempre lhe parecera uma infinidade, sobretudo de maturidade e de capacidade de triunfar no mundo, ou, pelo menos, de nele saber viver e usufruir dos doces frutos que a Terra lhe parecia ter reservado. Assim, somava mentalmente os dois últimos algarismos, sempre que um número fosse superior a três dígitos, pois caso contrário, somava-os todos, e assim determinava se um número lhe, a ele, ou aos seus próximos, traria azar. Ora, o óbvio e vulgar treze, não obstante a sua vergonha em admiti-lo, era um número fatídico e, portanto, a data do nascimento do irmão predestinara o triste fado àquele rapaz, tanta vez homem aos olhos do irmão mais novo.
Na avenida de Roma vi burros a puxarem carroças
, prosseguiu Rui lembrando-se do dia dos anos sessenta da sua meninice, em que observou um par a disputar o espaço aos Ford, aos Peugeot e aos minis
, enquanto nas ruas paralelas e nas transversais à Avenida, aparecia, pela manhã, o amolador com a sua gaita-de-beiços, na qual infalivelmente tocava o mesmo conjunto de notas, despertando as empregadas domésticas, entretanto desmamadas pelas patroas, que nos carros dos maridos as iam buscar a Santa Apolónia, permitindo-lhes assim ver, pela primeira vez, aquela grande cidade de província, rodeada de barracas, a capital do império que Salazar se orgulhava de herculeamente sustentar e manter, o último império da Cristandade que, com a odiada Espanha, atravessara incólume o tormentoso mar de revoltas democráticas que, anunciava aos portugueses, tinham atirado as antigas colónias europeias, ora para a órbita do ateu império soviético, que a Virgem um dia resgataria, ora para a do capitalismo americano, e desmantelara as outrora poderosas nações do continente, transformando-as em incréus países onde os cidadãos possuíam o terrível poder de destituir governos, e onde agitações de todo o tipo e inumanas manifestações de massas aturdiam e confundiam o pobre e sempre humilde povo. Vivíamos numa casa burguesa, atolada pelas flores que a minha enfermiça, balofa e muito querida mamã comprava às ciganas e aos camponeses que deambulavam com os vagabundos pelas manhãs preguiçosas da Avenida, olhando para as senhoras que, como a minha mãe, passeavam vagarosamente em direcção a Alvalade onde se encontravam com as amigas, iguais a ela, se não no porte, pelo menos na elegância das vestes, mulheres que se orgulhavam de já ter ido a desfiles de modas onde observavam os fatos que depois encomendavam, com explicativos desenhos e convincentes frases, às sempre resistentes modistas. Tudo parecia parado, sabes? Não vivias em Lisboa, na Avenida, por isso não podes saber da eterna quietude que parecia emanar do empedrado do passeio, do asfalto plano, dos movimentos estudados dos polícias sinaleiros que recebiam dinheiro, nos dias de comemorações religiosas, dos automobilistas abastados, em troca do os deixarem passar nos seus augustos automóveis, que, como hoje, assinalam o estatuto social dos possuidores, como o meu pai, que à casta agora pertencia, imitava para nosso prazer, fazendo-nos usufruir do estatuto que conquistara, como a minha mãe sempre nos lembrava, através de árduo trabalho e da dedicação ao estudo, qual novo Ulisses que após anos de tormentosa navegação, permitira, não a ele, mas à sedentária Penélope minha mãe, o regresso ao lugar a que sempre julgara pertencer mas que injustamente lhe tinha sido subtraído pela infame canalha republicana, como a minha avó, que connosco vivia, chamava àqueles usurários que, por vis ardis financeiros, a tinham destituído do pedestal a que, por filiação, se tinha por destinada, mas que na verdade tinha sido perdido ao jogo pelo aristocrático marido no Estoril, onde esbanjara o dinheiro, que julgava ser inesgotável, e que os antecessores lhe transmitiram com a propriedade e o nome que ilustrava o título dado a um longínquo antepassado.
– Sim.
– Continuou Rui olhando fixamente para Rodrigo, num gesto escusado de desafio, – Tudo estava parado. Apenas se viam os movimentos dos sapatos que calçavam os pés de meias de cor de carne das mulheres, que no passeio fazem aquele barulho que nós sabemos que só elas é que fazem, é que sabem fazer. Não é uma pura questão física, um mero fenómeno de acústica, de sons de saltos a bater contra o empedrado….É mais qualquer coisa, é como uma manifestação de pertença àquele sexo, àquela condição social, um som só delas que é preparado desde o cuidadoso erguer da perna para o passo seguinte, até ao pousar final do sapato no chão, na calçada, na madeira, na alcatifa. E, de resto, tudo imóvel, uma enorme lentidão como um filme passado a baixas rotações ou um disco riscado. Lá fora, na Avenida, tudo era assim. Lembro-me de um amigo do liceu me dizer, depois da Revolução, como tudo então era mais fácil, sem ruído, sem termos de tomar partido, bastava apenas viver…Mas, se tudo estava quieto era porque todos amochavam. Todos, excepto as pedantes mulheres que continuavam a passear pelo empedrado, passando incólumes pelas tabernas das ruas que desaguavam na Avenida, trazendo o som dos papagaios vindos com os soldados que regressavam do Ultramar, e ensinados pelos putos burgueses e pelos bêbedos a dizer asneiras, e dos grilos enjaulados que se vendiam nas lojas de flores e pinheiros de Natal, quando a época chegava, e que as nossas mães, que executavam a melodia dos saltos nos passeios, nos compravam, a nós os miúdos abastados da Avenida. Às vezes, via-se um macaco, preso por uma corda, nalguma mercearia de bairro, e então juntávamo-nos, por minutos, observando aquela pobre imitação de homem, objecto de riso e escárnio no Coliseu para onde, no Carnaval, as nossas mães nos levavam a ver o circo, e onde descobríamos uma outra Lisboa, a das ruas estreitas e sinuosas, e dentro do qual se encontrava o palco onde apareciam os cães vestidos de espanholas e o anão dos palhaços que nos fazia contar até três, e depois do
a até ao
u", pedindo-nos, então, para repetir tudo outra vez, enquanto esperávamos que o ruído sincopado das nossas vozes, das nossas ordens ainda não atendidas, fizesse finalmente saltar aqueles grotescos acrobatas, simulacros de verdadeiros homens, como os nossos pais, aqueles que conseguiram, nalgum momento da vida, chamar a atenção daquelas orgulhosas mulheres, quando, no fim, um bom emprego ou uma boa herança compunham o necessário e inabalável chamariz que as faziam para eles direccionar as cabeças de cabelos pintados e oxigenados e neles, finalmente, reparar, como se as presas fossem agora os predadores, como pombas transformadas, metamorfoseadas, por momentos que chegavam a durar anos, em falcões.
Lá dentro, no interior daquelas casas, decoradas a anos cinquenta, com móveis de madeira envernizada e sofás de cores, por vezes, de tons discretos, outras vezes extravagantes, como as cores dos cabelos das velhas da Avenida que chegavam a pintá-los de roxo ou de tons azulados, quem mandava, a que obedecia a lógica que levava um dos seres do casal a sobrepor-se ao outro? O sexo, o dinheiro, o nascimento ou o carácter de cada um? O que faziam dentro das casas das ruas traçadas a régua e esquadro os transeuntes da Avenida? (aqueles seres irmanados em casais que um dia estabeleceram um pacto assinado no registo e depois sacralizado pelo padre na igreja nova, desconcertantemente decorada com um tosco agnus dei numa das paredes, enquanto as outras foram decoradas com cenas dos Evangelhos, a que não faltava uma piedosa Crucificação pintada por um obscuro pintor para a observação dos miúdos levados à força pelas mães à missa que lhes lembravam que agora já podiam perceber o que dizia o homem de Deus, pois antes os padres falavam em latim, mas que nós não nos preocupávamos em entender, pois o sermão era, ou assim pensávamos, sempre o mesmo, pelo que observávamos aquelas toscas decorações impossíveis de decifrar, excepto para os meninos que iam à catequese, e que nós, Filipe e eu, não frequentávamos, pois o nosso pai era ateu e, assim, pensava livrar-nos das ideias obscurantistas dos eclesiásticos com o acordo tácito da minha mãe e avó, que, no entanto, se vingavam daquela acordo, ganho em troca das benesses económicas que o meu pai lhes proporcionava, levando-nos à missa uma vez por mês). Nunca se sabe o que acontece dentro das casas de gente burguesa, popular, rica, pobre, culta ou ignorante…apenas não podemos saber, porque tudo o que conseguimos imaginar é submerso pela fria realidade que sempre nos excede. Apenas sei o que via e ouvia nas conversas murmuradas, nas discussões cujo fim era evitado, nos monólogos sussurrados ou quando escutava o delinear do futuro dos filhos ou o governo da casa, que a minha mãe, por delegação do meu pai e propensão natural, que não hereditária, assumia, e nos comentários, por vezes desinteressados, outras vezes malévolos, acerca da vida dos vizinhos, aqueles casais que viviam com as suas mesnadas, dentro das casas estilo Salazar, e que incluíam não só os herdeiros, como uma avó ou um avô e as criadas, quando para as ter havia dinheiro, vindas das províncias do Norte onde a fome era resgatada por uma sardinha num pão na única refeição do dia, e que por isso eram embaladas e despachadas para a capital, onde deixavam, se a casa fosse abastada, de sentir o temor da fome e onde novas e inesperadas iguarias as esperavam, por elas entretanto preparadas, depois de ensinadas pelas patroas, que por vezes não evitavam um irritado esbofetear que traía as suas origens populares entretanto quase esquecidas, e que depois de completarem o serviço do dia, eram autorizadas a ver a televisão bicolor, onde manchas acinzentadas se deslocavam para seu gáudio, prazer e inesperada bênção. Mas comportavam-se todos de forma igual, quando em casa, isolados pelas paredes, tudo seria permitido? Não, não podia ser, mas cada criança molda, como Deus, o outro à sua semelhança, se não o corpo, tal como o divino a alma, o sentir, o cheirar, o percepcionar e o pensar. Podemos, pois, imaginar o que quisermos: mulheres esbofeteadas, mulheres esquecidas por homens que as trocavam por outras mais jovens, ou quem sabe, por mais velhas, ou por homens e que, assim, encontravam no casamento o meio de ocultarem o desejo proibido, mulheres dominantes e machos subjugados, mulheres que enganavam o conjugue com outros ou outras. Toda a panóplia de casos que o engenho humano inventou para obter o prazer e todas os meios existentes para dele usufruir sob a fachada da monogamia sedentária, então e agora aceite, e que por isso era por todos assumida. Todos, em suma, a enganarem todos, mas a mostrarem-se a uns e a outros da mesma forma, seguindo a mesma fórmula, repetindo a mesma imagem de casais reprodutores, quais parelhas de burros enjaulados num estábulo e destinados a trabalhar, comer e copular…
Entretanto, eu e Filipe, os assumidos e anunciados sucessores, então unidos, ainda irmãos a brincarem no quarto de costura, mais tarde transformado no meu solitário quarto, quando a minha mãe decidiu que cada um de nós viveria sozinho entre paredes, iniciando, sem o querer, a inevitável separação que pouco mais tarde ocorreria, não drasticamente, não assumida nalgum momento identificável, mas apenas por que sempre fomos tão diferentes. Sim, viste-nos mais tarde sairmos juntos, frequentarmos a mesma praia, partilharmos as idas ao cinema, calcorrear os mesmos passeios em companhias supostamente comuns… mas e depois? Quando chegava o momento de juntos regressarmos do que falávamos? De nada. Cada um fechava-se então em si, apenas abertos ao próprio pensar e sentir, ignorando-nos mutuamente, não de forma voluntária mas apenas porque nada encontrávamos para partilhar, excepto quando Filipe falava entusiasmado do que o surpreendera ou interessara, e então monologava ao meu lado, fazendo crer aos outros que era eu o destinatário das palavras que em voz alta encadeava. Dois seres com os mesmos genes, frutos da mesma união, do mesmo sexo e próximos na idade, mas sem nada para dizer um ao outro, como se separados, não à nascença, mas por vontade (se é que houve disso consciência) mútua, partilhada, fruto de qualquer invisível e irreparável condenação. Portanto, (eu) a caminhar só, mesmo quando o outro (sim por que Filipe era, ou parecia-me, não o não-eu, a outra individualidade, mas o anti-eu) me acompanhava e íamos juntos, ainda jovens, para o liceu, porque já então, com amigos que perto da nossa casa viviam, nos separávamos, eu para junto do companheiro que cada ano se metamorfoseava noutro rapaz e Filipe com os vários que, magneticamente, atraía até que, mais tarde, se juntaram as raparigas que tal como os rapazes o escolhiam para companheiro e alvo de paixões, enquanto eu (imagino) seguia atrás com a nova versão do mesmo, o que em cada ano representava aqueles jovens sempre tão iguais que se foram sucedendo, qual uma tabela de reis destronados e coroados, que me acompanhava e com ele partilhava o que sentia e necessitava de verbalizar. Sim, sempre separados até ao dia em que tudo se tornou irreversível, até que aquela carapaça mental, que no início parecera porventura ocasional, me impediu de comunicar com Filipe, o meu irmão, que naquele momento em que tanto dele precisava, para me ouvir, acolher, e, enfim e até ao fim absolver em nome dalguma redentora divindade celeste, para que pudesse prosseguir apaziguado, pois os pecados, as tentações e os actos já não contariam para o final juízo que a minha consciência, que não a religião, me impôs como uma incurável doença que para sempre teria de suportar.
Mas naquele tempo mítico, primordial, illo tempore, como Filipe dizia, em que despertávamos os sentidos para o mundo, naquele espaço que eu viria a herdar e possuir para com ele partilhar medos, surpresas e desilusões, mas que agora, não obstante a presença das duas crianças, era uma divisão de mulheres, de minha mãe e de minha avó, que primeiro a ocuparam, e nela ficavam até que a luz do Sol minguava, quando não havia visitas de amigas e encontrando-se o macho ausente algures a trabalhar, por que o meu pai não tinha então distracções ou prazeres que não incluíssem a esposa, com as criadas que mais tarde, quando concluíam as tarefas, connosco vinham ter, e que então já eram duas, a mais velha que tratava sob a orientação de minha mãe das refeições e a presumível sucessora ao prestigioso lugar de fabricante de manjares, quando aquela se aposentasse ao casar com algum empregado de mesa, ou marçano ou qualquer outro aprendiz, que encontraria nalguma casa de bailes onde os desterrados da província, que abrangia quase todo o país, iam conviver e olhar, avaliando-se uns aos outros, até que alguém avançasse até à pista de dança, enquanto os homens indolentemente bebiam um copo de cerveja, mas de olhar alerta para as raparigas que, juntas do lado oposto do salão, inventavam conversas e viam os debutantes daquele baile repetido, não o praticado naquele espaço, mas o que fazia vir, para não regressarem, os jovens para Lisboa e de onde depois partiam, metamorfoseados em soldados, os homens para as colónias que à custa dos seus núbeis corpos eram mantidas.
Eu e Filipe ainda no gineceu, Filipe que também era Nuno, porque, se tinha herdado do meu pai o primeiro nome, a mamã convencera, por insistência da avó, a acrescentar o nome de seu pai que era também o do guerreiro beato, o do milagreiro herói de Aljubarrota, um dos filhos ilegítimo do Pereira que deixou de ser apenas mais um dos inúmeros bastardos com que o pai, que jurara virgindade e ludibriou a castidade, formou uma quase hoste de guerreiros, para vir a transformar-se em herói da pátria ao seguir o também ilegítimo Mestre, e chefiar o exército que derrotaria a orgulhosa chusma de ilustres castelhanos, portugueses e franceses, e que prosseguiu o seu ardor guerreiro pela fronteira, assegurando o reino ao novo soberano. Foi pois Nuno Álvares Pereira que inspirou os pais do meu desconhecido avô, a querer dar àquele filho, tão propenso à indolência e que parecia, quase por desagrado pelo nome que lhe puseram, renegar, não conscientemente mas por natural carácter e, porventura, excesso de mimos, o nome do herói beatificado pelos portugueses, antes de o bispo de Roma o ter confirmado como agente na Terra do divino. Filipe, o meu irmão, que possuía o nome de dois guerreiros, por que ao Nuno antecedia-lhe o que herdara do papá que parecia ter consumado o desejo de uma longa cadeia de antecessores, de um conjunto de gente que proveio de camponeses, mantenedores dos guerreiros, a que se foram juntando os padres, que no campo desfloravam governantas, criadas e camponesas, e os agora esquecidos descendentes dos judeus, que porventura, transmitiram, pelo sangue, ao meu avó paterno, filho de um republicano que vivia numa cidade da província, o saber dos negócios a que, paralelamente ao café de bairro que mantinha, se dedicava, uma vez que comprava ouro, prata e jóias a quem deles prescindia para pagar dívidas, e que depois vendia à socapa, e assim obteve os apreciáveis lucros que permitiram a meu pai tirar o curso de mecânico, não de automóveis, uma vez que era precedido pela designação, bem agradável e socialmente aceite, de senhor engenheiro, e depois arranjar aquele lugar de chefia no escritório dum representante duma fábrica alemã de componentes de automóveis, que partilhou, durante dois anos, com a docência de uma disciplina do curso de mecânica, leccionada no rectangular e caixotesco
Instituto Superior Técnico onde eu, e não o seu primogénito, me viria a licenciar e me tornar também num familiar mantenedor
, com mulher e respectiva prole, pois se estou destinado a ser anónimo cadáver, ao menos posso acrescentar que procriei.
A mim, por ironia, calhou-me por segundo nome Maria, porventura a santa evocada pela vovó ao saber que o marido apenas lhe tinha deixado uma parca pensão, juntamente com o dever de educar a filha, e de lhe prover um marido que depois as mantivesse, à herdeira e à então pouco mais de remediada sua mamã, destinadas as duas a viver no pequeno apartamento que meu avô alugara em Lisboa, e que a mulher desconhecia até o advogado, seu primo, ter avaliado os bens que pouco mais eram que uma disfarçada penúria, como a minha avó então pareceu, pois a herdade do Ribatejo em que até então vivera se encontrava penhorada, como a avô numa invulgar noite de angústia nos revelou, a mim e a meu irmão, já depois de conjuntamente com meu pai ter feito enterrar aquela querida e desejada filha, que depois da morte do marido lhe sugeriu a ideia de um insuportável peso, mas que aprendeu a amar como às próprias entranhas, poupando os tostões da mísera pensão para a recolocar no lugar a que por nascimento julgava que pertencia. E, se o voltar à aristocrática posição lhe estivesse vedado, pelo menos proporcionar-lhe-ia a entrada na triunfante classe do novo século, a laboriosa burguesia, o que levou minha avó a deixar de elogiar a preguiçosa e melómana cigarra da fábula, a contragosto é certo, pois se como aprendera, nem todos os homens nasceram para trabalhar, já tinha há muito chegado o tempo dos burgueses que, antes dos camponeses e do operariado, doutrinaram-nos na fé de que o trabalho dignifica e justifica a riqueza, e, portanto, a minha avó, perante a agora burguesa filha, passou a desajeitadamente louvar a organizada formiga, ela, cujo único trabalho em vida consistiu, para além do lamento pelos vícios que a empobreceram, no contar do dinheiro ao longo do mês, após a morte do entretanto reabilitado, aos nossos olhos e ouvidos, marido.
Eu, Rui Maria, e o mano Filipe no quarto das mulheres, a brincarmos com guerreiros de várias épocas, incluindo os inevitáveis cowboys que largavam as vacas para ajudarem outros imóveis combatentes a tomar aos mouros, sob a forma de índios, a miniatura de cartão de um castelo medieval, a que não faltava o portão preso por um entrançado arame que permitia que o pudéssemos erguer e assim mostrar o fosso onde miniaturas de animais africanos, potenciais devoradores do liliputiano exército atacante, formado de uma amálgama de cristãos de diversas eras sob a chefia dos cavaleiros medievais que, com as suas lanças, indicavam os inimigos a, impiedosamente, abater, enquanto os carrinhos se encontravam estacionados a conveniente distância. Rodeavam-nos, então, as pernas das mulheres da casa, dois pares revestidos de meias, os outros dois em pele. Aquelas pernas que nasciam no velado desconhecido e se prolongavam até aos sapatos, de salto os da minha mãe e de minha avó, e rasos os das criadas, mas que mesmo assim pareciam ter sido feitos para causarem sofrimento àqueles pés desabituados às apertadas armaduras que minha mãe as fazia calçar em detrimento das chinelas que, elas, as criados, e eles, os seus pés, tinham, até chegarem a nossa casa, sempre usado. Envolvia-nos, então, o cheiro citadino dos desodorizantes e dos cremes, conjuntamente com o cheiro do campo que persistia naquelas novas habitantes da cidade, que não mais a abandonavam, pois estavam destinadas a irem viver para algum manhoso prédio da periferia – após se casarem – a qual, com a morte do ditador, se desenvolveu à volta das barracas, que anunciavam a entrada na capital, num natural prolongamento do campo que constituíra o termo
de Lisboa, donde continuavam a vir as alfaces que originaram o nome pelo qual nós, os habitantes da grande cidade
, somos apelidados. Sentados no chão, observávamos as pernas das mulheres: as quase obesas de minha mãe, as já idosas e magras de minha avó, e as possantes das jovens e incultas trabalhadoras que sofriam mais dos apertados pés que do trabalho repartido que efectuavam. Agora, repousando cada uma os membros inferiores enquanto os superiores se dedicam ao croché, aos remendos, às bainhas ou a qualquer outro trabalho que envolvesse o sábio manipular de agulhas e linhas, nós podíamo-nos deitar recostando-nos no chão, já sem medo do proibido olhar para cima
que estragasse a surpresa que nos estava reservada para mais tarde, para quando tivéssemos idade de olhar por debaixo das saias, ou mesmo erguê-las num acto de destemor e desejo que preludiasse algum desflorar precoce duma donzela, como as que se encontravam presas pelos sarracenos de plásticos e que as nossas incongruentes tropas de brincar iriam resgatar.
E então ouvia (ouvíamos?) aquele fggg,…fggg…fggg das saias, das pernas a roçar pelas saias e estas nas pernas ou nas combinações que, eventualmente, minha mãe e a avó vestiam para melhor esconderem aqueles desinteressantes corpos. Mas naquele quarto que viria a ser meu, também estavam os sólidos corpos das empregadas que na nossa casa viviam desde que de nós próprios, eu e Filipe, nos lembrávamos de lembrar, e que funcionavam como membros inferiores da família, pois até minha mãe, com elas presentes, nada ocultava nas conversas que tinha com sua mãe (tantas mães, lá em casa, parecia-me então, mas mães para nós e para aquelas juvenis adultas que na nossa casa eram ensinadas a servir em troca de alguns escudos que eram enviados em envelopes para as famílias que nalguma das Beiras, numa aldeia perdida, assim pensava eu, ansiosamente esperavam para alimentarem outras filhas e filhos, que também seriam postos a render, numa interminável chulice que disfarçava a sempre presente pobreza. Aquele dinheiro demonstrava como a escravatura era uma coisa do passado. Era, portanto, minha mãe que acabava por lhes dar o necessário para usufruírem das tardes de domingo, com o acordo do meu pai, e que acompanhado de maternais conselhos lhes permitia percorrer a cidade, primeiro sem objectivo, e, depois, porventura à caça de qualquer jovem, também ele predador, que se mostrasse interessado em acompanhá-las até algum café ou parque, imagino, pois daqueles tardes pouco sei…). Era como se elas então não existissem, como se possuíssem o poder de desaparecer e depois surgirem armadas com algum pano de pó a lustrar um móvel da sala ou a preparar um guisado que à noite o meu pai consumiria enquanto nos contava, a todos, os que tínhamos direito a estar sentados à mesa, algum pormenor do seu dia de labuta que ouvíamos em respeitoso silêncio, até que Filipe foi para a escola e começou a competir com meu pai ao contar, também ele, novidades, pois agora também as tinha, para gáudio de minha mãe e de minha avó, enquanto o chefe de família esperava, com um sorriso nos lábios, que meu irmão narrasse os infinitos acontecimentos que na escola se teriam sucedido ou que ele, ou algum colega, inventava; os cinco sentados, então à mesa onde éramos servidos por uma das empregadas que rodopiava fazendo um elipsoidal movimento para que nada nos faltasse e no fim pudesse receber a esperada aprovação que, em forma de discreto sorriso, minha mãe nunca regateava.
Um dia, na varanda traseira, um cágado apercebeu-se de que lhe faltava o apoio. Encontrava-se desprovido da matéria que o suportava e, pouco depois, caía, após percorrer, num movimento uniformemente acelerado e descendente, quatro andares até um chão desconhecido, onde permaneceu rodeado de galinhas e pintos, bichos que nunca tinha visto e que também, decerto, não o incomodaram, pois a queda provocou-lhe dores (intensas?) e depois a esperada, por quem o visse a cair, morte que ainda demorou a chegar, pois foi com vida que nos foi entregue pela porteira que subiu os lanços de escada que separavam o andar em que vivia do topo que ocupávamos, pois no prédio já toda a gente sabia que a senhora do senhor engenheiro tinha oferecido aos filhos aquele estranho animal que então se começava a vender nas lojas de animais. Sim, naquela época já tudo parecia ser vendido em Lisboa, transaccionado para alegria dos que podiam comprar e assim acumular o que quer que fosse, proporcionando-lhes o estatuto de proprietários, como nós que, por breve tempo, fomos felizes donos do cágado, que, horas antes, a minha mãe, acompanhada por mim e por Filipe, comprara, uma vez obtida a complacência de minha avó, o que não deve ter sido difícil, pois antes, na noite anterior, na intimidade do leito, o meu pai decerto aprovara a compra de um animal que nos iria alegrar durante, porventura, alguns anos, para mas que durou, na nossa posse, pouco mais de duas horas.
O tempo que o cágado levou a percorrer, vítima da atracção gravítica ou da deformação do espaço, apressadamente os quatro andares do prédio em que eu vivia, foi bem menor do que aquele que eu levei. Na verdade, a minha iniciática queda
durou os anos que passei na escola até me consciencializar de que nas ruas da Avenida, nas que para ela sempre se dirigem, outra gente vivia para lá das famílias abastadas e das suas criadas. Foi aos poucos que descobri os remediados e os caídos na remediação, os que outrora não o tinham sido e os que sempre o foram, e os que subiram na vida até se remediarem. O mundo das porteiras e seus filhos, e de outros homens com suas mulheres, e de mulheres sem homens, de rendimentos reduzidos mas que esperavam algum dia conseguirem possuir, não alguém, mas algum bem, através de trabalho acrescido ou por sorte na lotaria, ou no totobola, ou se porventura os filhos se conseguissem formar nalguma faculdade, e assim saírem da remediação
ou sentir que a tinham abandonado. Essa esperança alimentava-lhes a vida e permitia-lhes imaginar o dia em que comprariam a televisão sem terem de se endividar, ou até pagá-la, como os abastados, a pronto
, com dinheiro na mão, levantado pouco tempo antes ou no princípio do mês do banco que guardaria as suas posses e as faria render, permitindo um ganho extra a quem não abusasse das sempre apetecidas compras, como os avaros que, dizia-se, guardavam as notas debaixo do colchão onde pernoitavam, tentando senti-las como a princesa da história que se incomodara com a pequena ervilha.
À imagem da piramidal hierarquia social que coloca em cima os mais abastados enquanto na alargada base que os sustenta se encontram os pobres de metal sonante e porventura, de espírito por não possuírem a oculta arte ou o engenho, ou quem sabe se apenas a sorte, que permitem a acumulação da sempre desejada posse material, também era nos andares de baixo dos prédios, como então me parecia, que os remediados viviam, talvez por muitos deles constituírem a família das porteiras, inevitáveis desfavorecidas segundo minha mãe que, esquecendo as desventuras da fortuna familiar que transformara a vida de sua mãe numa desesperada luta pela sobrevivência, costumava, quem sabe se por hábito, compartimentar a sociedade, discorrendo sobre a necessária
distinção dos lugares onde viviam pobres e ricos, o que revelaria uma sábia forma de organização que impedia a miscigenação das classes, divididas entre os que possuíam e os que desejavam possuir, esses desfavorecidos, se não de Deus, pelo menos da vida, e que se originara, como proclamavam os padres, sempre apoiados pelo consentimento de minha mãe e da avó, que o exteriorizavam fazendo com a cabeça o inevitável abano vertical, nas mensais peregrinações de trezentos ou quatrocentos metros até à igreja onde assistiam, comigo e Filipe, à missa, em obediência à omnisciência divina e à sempre justa providência, talvez a mesma que permitira a minha mãe resgatar a honra da família, para eterno e bem sentido alívio da sua progenitora.
De resto, foi só no interregno que preludiou a minha segunda vida, pois, como os gatos, tive mais que uma, que conheci e me tornei amigo dos jovens remediados e com eles brinquei naqueles pequenos quintais que se escondiam por de trás das fachadas dos prédios que, organizados numa rectangular ordenação, continham no seu interior os pátios de terra onde se cultivavam alfaces, couves e sei lá que mais, e onde os pequenos rafeiros perseguiam os pintos que deles fugiam, enquanto as galináceas mães, obedecendo ao instinto que preserva as espécies, corriam atrás dos cães, assemelhando-se deste modo àquelas mães dos andares baixos que faziam o possível para proteger a prole, ao mandarem para a escola os filhos, a quem sempre gritavam e, por vezes, quando achavam que a paciência se esgotara, decidiam usar de meios mais eficientes para a dissuasão da natural impertinência dos descendentes, que teriam sido gerados para sua eterna preocupação, e esbofeteavam as jovens faces dos que, com sentida dor, tinham por elas sido gerados, castigo de que eu e Filipe estávamos isentos, pela natural docilidade de minha mãe e pela bonomia de meu pai que, sempre que para nós olhava, não escondia um sorriso que fazia acompanhar dum esfregar dos toutiços
, como então dizia.
Foi com eles que comecei a dar pontapés numa bola, aprendendo o jogo de eleição nacional de cuja existência vim a saber pelas notícias da televisão, que apresentavam os resumos dos importantes jogos que decidiam a sorte e o destino da época dos clubes cujas supostas particularidades eu desconhecia, mas acerca das quais ouvia os meus colegas de escola discutir, nas acesas discussões entre vermelhos e verdes, interrogando-me porque as outras cores pareciam, para os sempre engalfinhados companheiros de colégio, não existir, até que um dia meu irmão me falou num clube, que, segundo me disse, era formado por estudantes, como nós mas mais velhos, e a que portanto decidimos, para nosso infortúnio, pois raramente ganhavam alguma coisa a não ser juízo, e que, a julgar pelos resultados que obtinham, já devia ser muito, aderir e as suas pretas cores jurar defender durante a breve eternidade das nossas vidas. Sim, foi apenas mais tarde, quando entrei para o Ciclo Preparatório, por que até então andara naquela rubicunda escola que ocupava dois andares de um remodelado prédio situado no lisboeta Alvalade, perto duma outra igreja – não já a que minha avó nos fazia ir, por que era ela que sempre convencia a filha a ir à missa para prevenir, garantir e obter as graças do divino e da sua corte, na qual se encontravam os santos mártires que para as ganhar, mais do que nós se esforçaram, como nos catequizava a jovem que vinha com esse propósito ao colégio defrontar os inquietos jovens, já então marcados pela ascendência na devida, e para a vida, social escala, e que pela pouca idade que aparentava e pela cristã moderação com que nos tratava não conseguia obter o nosso respeito – que conheci e me tornei amigo dos jovens das famílias remediadas, que connosco partilhavam a Avenida. Mas antes, naquela escola de dois andares, que então me parecia imensa, e em que apenas nos intervalos das aulas me encontrava com Filipe, já então rodeado de inúmeros amigos que pareciam juntar-se para o ouvir contar as suas imaginadas aventuras e desventuras ou as suas ajuizadas ou surpreendentes opiniões, que a cada minuto naturalmente lhe surgiam, o dia iniciava-se com a saudação dos retratos do Presidente da República e do Presidente do Conselho – cuja obra de alargamento da comunidade dos crentes em Deus e na Pátria era exaltada, ao fazerem-nos aprender o nome das principais vilas e cidades das colónias por onde passavam as recentes linhas férreas que demonstravam ao mundo a obra civilizadora dos colonizadores, os descendentes, se não genéticos, territoriais, do arrojado herói que derrotara e submetera o poderoso Gungunhana, cujo nome nos fascinava ao remeter-nos para imagens de uma selva com leões, elefantes e macacos, à semelhança da que nos sempre surgia nos admirados filmes de Tarzan – com o braço direito, pois o sinistro permanecia imóvel, erguido e distendido, enquanto salmodiávamos, em ritmada cadência, o juramento de luta abnegada que nos levaria a enfrentar os portentosos canhões inimigos, contra os quais de livre vontade, como cantávamos, marcharíamos.
Foi, pois, depois do primeiro dos dois enterros que para mim marcaram o início dos anos setenta, um sentido por nós, eu e Filipe, mas também pelos outros, os que lá em casa sobreviveram à agonia de minha mãe, e o outro, supostamente pela nação, e cujo luto durou três dias, durante os quais não houve televisão, pois mesmo morto o pai
dos portugueses ainda condicionava as nossas vivas, que minha mãe levou-me à escola nova, de amplos espaços, e lá me largou, para ficar entregue a mim próprio, sozinho perante aquela turba que parecia movimentar-se ao sabor de invisíveis correntes que a faziam percorrer, de um de um lado para o outro, o vasto recreio. Sozinho no meio da multidão de miúdos, que se dividia entre os que já tudo pareciam conhecer e os expectantes, alguns dos quais ainda se encontravam acompanhados pelas mães a quem, no primeiro dia do ano lectivo, era permitido guardar e proteger os filhos de uma nova vida, enquanto outros tentavam mostrar um ar de habituados frequentadores da escola preparatória com que pretendiam, desajeitadamente, ocultar a sua condição de novatos surpreendidos, como o boi que olha para o palácio, por aquela vastidão de gente que pela primeira vez, como eu, enfrentavam.
Naquele momento Filipe também estava num novo espaço, decerto a avaliá-lo, entendido como era em tomar sempre o melhor partido das novidades que a vida lhe trazia, pois ele já tinha passado, e bem, pelo que eu iria vivenciar, primeiro desgostosamente, e depois, já a tudo habituado, com o enlevo que a consciência de já ser crescido sempre traz. Sim, também eu depois já a tudo habituado. Aprendi, então, com os meus novos, mas mais experientes, colegas, insólitas adjectivações e denominações inesperadas que em casa não podia verbalizar, mas também a me humilhar perante aqueles novos sarracenos
de pele escura que viviam nas barracas que pareciam cercar Alvalade e que vingavam em nós o estigma de terem nascido na nómada raça que fornecia os vendedores de rua, de negros fatos, mais negros que a pele que os identificava e nos permitia fugir atempadamente dos filhos, (enquanto as mulheres se ofereciam, a troco de evidente pouco dinheiro, para espantosamente revelar o até então insondável futuro, pelo exame das mãos das jovens burguesas a quem anunciavam os belos casamentos que iriam celebrar e lhes trariam, não só a eterna felicidade, como os muito desejados filhos) que em bando nos roubavam o dinheiro e sadicamente nos obrigavam a respeitá-los o que nós nunca poderíamos fazer, pois considerávamos aqueles seres como qualquer extravagante sub-raça que na Terra tinha surgido para nosso infortúnio e tormento.
Entretanto, numa época para mim remota, a mamã já nos levara para uma outra Lisboa. A dos prédios cinzentos e de branco sujo que tinham sido colocados, como numa maquete de brincar, em ruas concebidas para obedecer a regras de geometria que traduziam uma ordem que remetia a da humana hierarquia que outro ditador copiara da Europa absolutista, também ele, para desgosto de Salazar que teve de viver com a preservação da sua memória que os anticlericais republicanos não deixavam de enaltecer, salvador da pátria. O homem que, na praça que dá para o rio, montou um tremendo espectáculo de dor, sofrimento e vingança sobre uma linhagem odiada, com que consumou a eliminação, a que os habitantes de Lisboa, que eram como os do resto de Portugal, o sempre bom povo português
, não dispensaram de assistir, porventura por que ver poderosos e ricos humilhados, rebaixados ao nível animal, agrada sempre à populaça que com o sofrimento se consegue identificar, e assim padecer por breves momentos, para depois, por um daqueles movimentos próprios dos humores da alma, sadicamente se alegrar com o teatralizado rebaixamento de uma das principais famílias do reino.
Era quando achava necessário a compra de vestuário para uma nova estação que a mamã ia connosco até àquelas ruas invadidas por pedintes e aleijados, que exibiam os cotos das pernas e dos braços, enquanto alguns cegos permaneciam sentados agarrados às caixas de esmolas, com os escuros e identificadores óculos, enquanto outros faziam chiar uma rabeca ou dedilhavam a guitarra portuguesa. Naquelas ruas a mamã movimentava-se com
