Transformações em Veneza
()
Sobre este e-book
Leia mais títulos de Gabriel De Brito Velho
Cartas de amor e ódio Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMinha intensidade me levou à solidão Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAi dos vermes Nota: 5 de 5 estrelas5/5As imortais primas lésbicas Nota: 0 de 5 estrelas0 notas
Relacionado a Transformações em Veneza
Ebooks relacionados
Exercícios de admiração: Ensaios e perfis Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCésar Nota: 0 de 5 estrelas0 notasBion: Transferência, transformações, encontro estético Nota: 0 de 5 estrelas0 notasKerigma: A Conclusão de Pantokrátor Nota: 0 de 5 estrelas0 notasLuz E Sombras Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAmar, verbo intransitivo Nota: 0 de 5 estrelas0 notasTriste Fim de Policarpo Quaresma Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA Sonata a Kreutzer Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAmores desvalidos Nota: 0 de 5 estrelas0 notasEclético Nota: 0 de 5 estrelas0 notasUnfinished∞poiesis Nota: 0 de 5 estrelas0 notasContos Do Além-sala Nota: 0 de 5 estrelas0 notasLitania dos Transgressores: desígnios da provocação em Lúcio Cardoso Nota: 0 de 5 estrelas0 notasNão tive nenhum prazer em conhecê-los Nota: 0 de 5 estrelas0 notasPara além do bem e do mal Nota: 0 de 5 estrelas0 notasComplexo Nota: 0 de 5 estrelas0 notasColeção Literatura Clássica - Dom Casmurro: Machado de Assis Nota: 0 de 5 estrelas0 notasDesejo: Inclinações do corpo, conjecturas da alma Nota: 5 de 5 estrelas5/5Noite Boa, Boa Noite Nota: 0 de 5 estrelas0 notasNunca houve tanto fim como agora Nota: 0 de 5 estrelas0 notasNoite na Taverna e Macário Nota: 0 de 5 estrelas0 notasMemórias póstumas de Brás Cubas Nota: 0 de 5 estrelas0 notasRealismo de Machado de Assis (Clássicos da literatura mundial) Nota: 0 de 5 estrelas0 notasLiberdade: fato ou ilusão? Nota: 0 de 5 estrelas0 notasHIPÉRION - Hölderlin Nota: 5 de 5 estrelas5/5Silogismos da amargura Nota: 4 de 5 estrelas4/5Monteiro Lobato: Romance e contos Nota: 0 de 5 estrelas0 notasHumano, Demasiado Humano Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO manual de Epiteto e uma seleção de discursos Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAntes e Depois Nota: 0 de 5 estrelas0 notas
Ficção de Ação e Aventura para você
O Conde de Monte Cristo: Edição Completa Nota: 5 de 5 estrelas5/5Dom Quixote Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA volta ao mundo em 80 dias Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO enigma da Bíblia de Gutemberg Nota: 4 de 5 estrelas4/5Mitologia Indígena Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO vento nos salgueiros Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO Chamado Selvagem Nota: 4 de 5 estrelas4/5Alice no País das Maravilhas: Por Monteiro Lobato Nota: 5 de 5 estrelas5/5As Deusas Do Sexo E Da Guerra Nota: 0 de 5 estrelas0 notasLoko Sempai: Volume 01 Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA Volta de Sherlock Holmes - Vol. 6 Nota: 0 de 5 estrelas0 notasTHANOS: Sentença de morte Nota: 5 de 5 estrelas5/5AuthenticGames: A batalha da Torre Nota: 0 de 5 estrelas0 notasDe volta à Atlântida Nota: 0 de 5 estrelas0 notasCANINOS BRANCOS - Jack London Nota: 0 de 5 estrelas0 notasNovos vingadores - Motim! Nota: 0 de 5 estrelas0 notasO Pequeno Príncipe. Edição Especial Ilustrada Nota: 0 de 5 estrelas0 notasGoldenray Nota: 0 de 5 estrelas0 notasLendas Contos E Tradições Do Folclore Brasileiro Nota: 0 de 5 estrelas0 notasAs Três Marias Nota: 0 de 5 estrelas0 notasDesafio Nota: 4 de 5 estrelas4/5Wolverine - Arma X Nota: 0 de 5 estrelas0 notasHarry Potter e as Relíquias da Morte Nota: 4 de 5 estrelas4/5Ninguém me ensinou a morrer Nota: 5 de 5 estrelas5/5O mundo depois - Fim dos dias - Livro 2 Nota: 5 de 5 estrelas5/5O Bárbaro da Ciméria Nota: 0 de 5 estrelas0 notasA filha do jardineiro: uma história sobre jornada, descobertas, aventura e identidade Nota: 0 de 5 estrelas0 notasInvasão - The Walking Dead - vol. 6 Nota: 0 de 5 estrelas0 notasOs Melhores Contos de Jack London Nota: 0 de 5 estrelas0 notas
Categorias relacionadas
Avaliações de Transformações em Veneza
0 avaliação0 avaliação
Pré-visualização do livro
Transformações em Veneza - Gabriel de Brito Velho
I
O DESCARRILHAMENTO
Cássio, investido em seu novo emprego, tomou o trem em Paris com destino a Veneza. Ele estava plenamente convencido de que embarcara rumo à mais importante e feliz transformação de sua vida. Ele poderia finalmente algemar a mais esplêndida felicidade. Sua crença nisso era tão arrebatada, tão insuportável, que ele esteve mesmo tentado a celebrar o seu noivado com essa nova possível maravilhosa felicidade indo, nu, a pé, até Veneza, tomando champanhe, declamando Shakespeare in ebbro italiano
, e até flagelando-se pelo caminho… Seria, embriagado, castigar o corpo antigo
, para o voluptuoso noivado com um jovem imenso futuro, que ele atingiria bem no coração com um golpe certeiro e terrível. A ascese supliciante despertava nele uma sarcástica simpatia e um sensual e excitado horror.
Cássio era, de fato, um respeitabilíssimo andarilho, bom amante de champanhe, leitor de Shakespeare em português, francês e italiano, e, quanto a flagelar-se, não é a coisa mais atroz e penosa. Nem a mais inteligente e limpa, mas, em matéria de grau de imbecilidade e de torpeza, perde para um grande número de coisas perpetradas hoje em dia com não menor fervor e sucesso do que, outrora, a maceração penitente. Parece que o triunfal neo-macaco consegue ser ainda mais obtuso do que certo anjo imemorial ávido de Nada. E é muito desagradável e humilhante ter que esperar dois ou três séculos para ter uma opinião segura e compreensiva de atrocidades culturais e morais contemporâneas.
Cássio parecia adotar, rigorosamente, o sistema da aniquilação completa do que havia sido na fase anterior, ou, mais exatamente, com um bem prosaico incremento da exatidão, o sistema da aniquilação mais completa possível. A questão de mudar, mudar mesmo, era de capital importância para Cássio. Mas ele não lhe atribuía nenhuma ampla universalizabilidade
… Era menos uma regra de ação do que uma regra de paixão. Menos um ideal da razão em estado de cálculo e desígnio do que um ideal da pulsão em estado de imaginação. Menos, menos…, mas era, contudo, uma regra de vida, de vida buliçosa, empreendedora, uma regra de vir a ser, de movimento; portanto, ao menos, um princípio latente de ação e de conduta, mas princípio estigmatizado por uma estranha falta de pontaria.
O ímpeto metarmorfoseante de Cássio não nascia de alguma definição dele mesmo como ser para a transformação, na transformação, pela transformação…, ou de qualquer outra versão heracliteana de bom ou de mau gosto. Não provinha de alguma concepção ética que pudesse estar na origem das incontáveis formas de oportunismo, arrivismo etc. Não surgia tampouco de um incansável narcisismo camaleônico. E Cássio estava convencido de que, do tabernáculo de seu ímpeto para a mudança, estavam mortalmente ausentes as terríveis premissas de um Nietzsche ou de um Trasímaco. Seu especial impulso a modificar-se foi sobretudo gerado e estimulado por uma funesta estatística pessoal de situações por que passou.
Situações de opressão, de asfixia, ou de liberdade para nada. Situações de cruel e injusto insucesso, e de penosa e merecida derrota. Situações de êxito vacilante, caprichoso, êxito ingovernável. Situações de vitória desperdiçada e de fracasso impossível
, mas acontecido e total.
Situações de apavorante mal-estar ou de intragável bem-estar. Situações de harmonia indesejada ou indesejável. Situações de sucesso idiota e de felicidade imbecil, felicidade nula. Situações de prestígio humilhante, prestígio odioso, tramado por víboras amigas, costurado e recosturado por assassinos fraternais, inimigos insuspeitados, inimagináveis. Víboras companheiras, assíduas, víboras comensais. Víboras escondidas no guardanapo, no guarda-pó, na gaveta, no bolso, no cofre, sob o travesseiro. Víboras matrimoniais. Víboras preocupadas, aflitas, abatidas, víboras tristes… Víboras decepcionadas, desiludidas. Víboras desesperadas! Víboras comovidas, solidárias, conselheiras, consoladoras. Víboras tranquilizadas, encorajadas, víboras entusiasmadas!
Expulsão do Inferno. Aleluia! Cássio, penosamente, dolorosamente, expulsara-se a si mesmo de muitos Infernos, e fora rudemente, malvadamente, expulso de muitos outros… Ele saía dos Infernos de lágrimas nos olhos. Só depois é que explodia de alegria, e de que alegria! Aleluia! Não se é expulso apenas de paraísos. Há também os Infernos perdidos… Nos deixam de luto por toda a vida, se não tivermos toda a crueldade clarividente que é necessária para estancar lágrimas tão caras quanto diamantes que nunca nos resignamos a não ter.
Aleluia! Expulsão do Inferno: desde o começo da humanidade! Os Infernos de que o homem foi banido, os Infernos de onde ele se evadiu alegremente, e aqueles de que ele, dolorosamente, se expulsou a si mesmo. Expulsão do Inferno é a história da humanidade. A Expulsão do Paraíso
é um evento secundário. A humanidade avança a partir do Inferno. Apesar de todo terror atual, voltando-se atrás no tempo vai-se de mal a pior. Eis, ao menos, uma razão infinitesimal para otimismo.
Cássio carregava em si vários Céus, e ainda mais Infernos. Sua relação com o mundo era das mais complicadas. Ele queria ser tão guloso quanto rigoroso.
… Cássio não conseguia nem dormir, nem concentrar-se no fluxo da paisagem ou nos seus próprios fluxos internos. Tampouco se decidia a conversar com seus companheiros de compartimento. Nem mesmo conseguia motivar-se a dar uma volta pelo trem, indo ao bar ou coisa parecida. Ao menos para ir à toilette ele já tinha boas razões suficientes, mas nem por isso se mexia. A euforia o tinha embarcado em um trem diferente, de velocidade vertiginosa, um trem todo especial, com respeito ao qual o próprio fluxo da paisagem se engolfava em um outro fluxo, metafluxo…
A sequência das belas paisagens do outono francês se comprimia em uma mísera gotícula da torrente da euforia de Cássio, sem por isso perder seu caráter de sequência, de beleza outonal espalhada e sucessiva, cardápio fugitivo e seleto que o país de Joana oferece aos viajantes que suspiram pela Itália.
Era preciso frear, suavemente, o trem especial da euforia, o metatrem (sic…), para que tudo o mais deixasse gradualmente de ser um mero ponto veloz de um metafluxo, cujas partes ou elementos é impossível sintetizar e coordenar em uma percepção mais ou menos clara. A paisagem total da euforia, a paisagem total vista a partir do trem da euforia, é uma paisagem tão turbilhonantemente surrealista, que, para bem contemplá-la e captá-la, seria preciso uma operação divina. Seria exigida alguma forma de totum simul
.
Era necessário amortecer o êxtase, amortecê-lo delicadamente. Era preciso moderar a torrente de jubilação. Ela parou bruscamente. O trem do arrebatamento descarrilhou. Os olhos de Francesco descarrilharam o vertiginoso trem da euforia de Cássio. A torrente pechou nos belos olhos de Francesco. Do esplêndido Francesco, que estava ali, bem diante de Cássio, oferecendo-se sem qualquer hedionda reserva ou falso pudor.
Mas pilotando, ou, antes, pilotado pelo trem de chama da sua alegria, Cássio não se dera conta do que já estava vendo há muito tempo: os sublimes olhos de Francesco. Foi, decididamente, amor à primeira vista. Ele foi acometido de um verdadeiro acesso de amor. Francesco era belo e profundo. Como pudera viver sem Francesco? Uma conversa intimíssima e quentíssima nasceu instantaneamente.
Como tinham pontos em comum! E, no entanto, como Francesco o completava! Acrescentando coisas que Cássio não conseguia ser. Francesco era exatamente o que Cássio gostaria de poder se tornar. Isso não era incrível? Francesco era infinito. Cássio se daria por muito satisfeito de ser apenas parecido com Francesco. Assemelhar-se a ele, compartilhando sua vida, já era uma meta comovente, que abençoava de antemão as prováveis fúrias, preocupações, tormentos, suicídios…, e que derramaria toda suculência e a nobreza das melhores volúpias.
Cássio queria conhecer todo o Francesco. Não era preciso arrancar dele o que quer que fosse: segredos, opiniões, dúvidas, temores, desejos, promessas… Como era fácil aguilhoá-lo rumo à mais alegre expansão, rumo à mais bela transparência! Francesco era luminoso. Ele nada sabia esconder. Ele não podia ser covarde. Ele tinha que amar a verdade. Mas será que não amava Cássio mais do que a verdade? E será que ele não se amava a si mesmo infinitamente mais do que a Cássio? Ali, naquela situação, a verdade francescana
não era, pois, um reles infinitesimal sem qualquer importância? Não, é claro que não: o olhar e a voz de Francesco revelavam uma impressionante pureza e sinceridade. Forneciam a Cássio um critério instantâneo e absoluto para julgar. Autorizavam e mesmo obrigavam Cássio a avalizar qualquer promissória que Francesco quisesse emitir, mesmo que seu valor equivalesse a todas as riquezas da Terra e à própria vastidão de toda a felicidade que era possível a Cássio.
Aos poucos, Cássio, sempre exultante, foi preferindo simplesmente olhar, contemplar, adorar Francesco. E foi no precipício do seu olhar imperial que ele mergulhou.
Os olhos de Francesco se mexiam muito, giravam sem trégua, rodopiavam sem qualquer constrangimento por amplas regiões de suas bem afeiçoadas órbitas. Não por cacoete, ou por loucura, nem também por descuido, nem mesmo por curiosidade ou por exibição coreográfica, mas simplesmente para cumprir com a obrigação, frequentemente penosa, de enxergar. É que sua cabeça movia-se o menos possível, por uma teimosa economia de movimento, cujas razões plausíveis só eram talvez conhecidas pelo seu usuário e seus mais secretos amigos.
A imobilidade majestática da cabeça acuava os olhos para as seguintes opções: cerrarem-se, obstinarem-se em um mesmo ponto do campo visual, ou se locomoverem sem pausa, caso pretendessem apanhar as coisas que se passavam em volta. Se estas fossem numerosas e, além disso, apetecedoras, os olhos de Francesco, quando não queriam jejuar, entregavam-se a uma correria circular, a uma verdadeira maratona giratória, executando, com impecável frenesi, a dança de São Guido.
A imobilidade era o rendimento habitual da cabeça de Francesco. Não que o pescoço recusasse à cabeça uma amável companhia giratória, ou que o tronco recusasse a ambos permissão rotativa! Mas ocorria que a companhia não era apreciada, e a permissão não era exercida. Entre a cabeça, o pescoço e o tronco reinava um profundo concerto de tédio e de orgulho, de solidão e de majestade. Quando deviam jogar a partida da existência e da ação, especialmente a partida da relação e da posição, a partida do encontro, um anjo lívido, fatal, hierático, mostrava sua face.
No caso de Francesco, não se tratava quase nunca de uma orientação postural determinada principalmente por esforços de adaptação a fatos contemporâneos… Foram três séculos de apavorante e desnaturante religiosidade, através de doze gerações piedosas de antepassados, que modelavam, e ainda regulam, a relação existente entre a cabeça e o tronco de Francesco, assim como a relação entre, de um lado, o tronco-cabeça e, de outro, a procissão universal dos acontecimentos.
… Mas a promissora relação de Cássio com Francesco, esse grande amor que prosperava, foi bruscamente abreviada. Por um descarrilhamento! Não de algum metatrem, mas do trem mesmo!! Essa enorme besta de ferro começou a se contorcer, a se sacudir em espasmos infernais, arremessando Cássio e Francesco para lugares distantes um do outro. Cássio, após várias cambotas, foi se reencontrar no colo de uma freira desmaiada.
O descarrilhamento não foi classificado como dos piores de sua espécie. Um jornal italiano noticiou, na manhã seguinte, que alguns vagões tinham tombado, mas tinham se levantado sozinhos. Dois deles tinham fugido. Na Itália, isso acontece mesmo. Como o milagre do Sangue do Santo, que ora se solidifica, ora se liquefaz, ora se evapora. Uma tia de Cássio fazia três peregrinações anuais a Nápoles, para adorar a Substância Santa em seus três estados possíveis. A propósito, uma outra tia de Cássio jurava e rejurava que, dentro do santuário português de Fátima, ela conseguia desmanchar qualquer nó cego sem fazer uso das mãos: bastava soprá-lo uma vez, após ter soprado três vezes para cima. Nessa mesma ocasião, ela dispunha também de graça suficiente e eficaz para secar, em exatamente três segundos e meio, seu véu encharcado de água benta. Um primo de Cássio conseguia — graças à santidade do seu pai e da sua mãe, bem mais do que à sua — jogar só de ouvido toda uma longa partida de pingue-pongue, sem jamais olhar para a bolinha, a não ser por distração! O pai de Cássio publicou um tratado científico, de mais de mil páginas, confirmando os milagres de Nápoles, de Lourdes e de Fátima, incluindo os de sua irmã e de sua cunhada, e sem esquecer o milagre esportivo de seu sobrinho. E escreveu vários artigos muito técnicos demonstrando que não há verdadeiro prazer no orgasmo. O pai de Cássio tinha ainda outras concepções curiosas. Dentre as mais importantes, havia uma que se expressava através da seguinte tese: Todo filósofo honesto que se submeter a um tratamento psicanalítico adequado torna-se tomista
, isto é, adepto da doutrina de São Tomás de Aquino. Essa tese lhe valeu um grande sucesso no Brasil, não só entre os escolásticos encarniçados e entre muitos cúpidos especialistas freudulentos
, mas também no grande público. Quanto à sua teoria do orgasmo, é preciso admitir que ela fez muito menos sucesso.
… Cássio jamais esqueceria Francesco. Nunca o reveria, mas sabia que o mundo não perdera Francesco. Os jornais confirmaram, nos dias seguintes, que o acidente não fizera nenhuma vítima fatal. Só muito tempo depois Cássio ficou sabendo que Francesco era membro das Brigadas Vermelhas, que deixaram um saldo tão espantoso e tão inteligente na história italiana. Francesco era, portanto, algo de Histórico! Algo que deixou uma marca poderosa, delirante, terrível, que não se pode ignorar e esquecer. Cássio tinha, pois, conhecido, em pessoa, a quantidade não negligenciável, o histórico Francesco — uma espécie de Garibaldi —, histórico graças a assaltos, assassinatos et cetera. E para rematar o poema de sua vida, para coroá-lo, ele ainda traiu as Brigadas: por um pouco de dinheiro, que ele depositou na Suíça e no Liechtenstein. Francesco vive agora no Brasil, e continua a olhar da mesma maneira.
No que se refere, não à quantidade, mas à profundidade intrínseca, e ao horror metafísico e teológico, há algo cujo impulso básico nada fica devendo ao das Brigadas Vermelhas: é o grupo Baader-Meinhof. Ele é o conteúdo histórico mais desenvolvido e transparente, o núcleo sublime e derradeiro de qualquer Wir sind eine kleine, radikale Minderheit!
. Ele é a vontade absoluta do orgulho absoluto do grupelho que se arroga tudo. É o desespero ativo, empreendedor, armado, o desespero em guerra. Esses radicais seriam favoráveis ao suicídio da humanidade. Seria melhor se a espécie humana cessasse de existir. A humanidade não pode deixar de ser abominável, de viver abominavelmente. O prodigioso Sartre cumpriu com o alegre e estrondoso dever de homenagear os Grandes Alemães, visitando-os na prisão. A propósito, Cássio tinha em Paris um conhecido em um melancólico talento que muito se orgulhava de ter uma mulher que muito se orgulhava de ter tido contato com Ulrike Meinhof.
… Com olhos grandes e inquietos, dançarinos azuis que mesclavam o devaneio com a observação, Cássio, descarrilhado, pôs-se a perambular ao acaso por entre os pequenos grupos de passageiros que tinham se postado ao longo da ferrovia. Grupos que pareciam já nada surpresos ou alarmados pelo infortúnio ocorrido há bem pouco. Sob o impacto dos solavancos causados pela horrível freada, tinha havido um princípio de alvoroço, de confusão, mas logo debelado: não tinham sido
as Brigadas Vermelhas! Havia sido um simples descarrilhamento regolare
… Dissipado o breve pânico, e, ao mesmo tempo, frustrado o desejo de uma emoção diferente
, o que sobrou, cresceu e prevaleceu foi um sentimento de estridente desconforto e de azedo desapontamento. Sentimento que passava muito de impaciência, roçando por vezes a indignação, e que adquiria muito maior relevo nos descarrilhados italianos. Estes gesticulavam, é verdade, menos do que outrora — talvez um primeiro sinal da fatal influência da Comunidade Germânico-Europeia; talvez por medo das Brigadas…; talvez pelas duas razões reunidas em um deplorável casamento; talvez… só Deus sabe! —, mas gesticulavam, contudo, de forma suficientemente distintiva e curiosa.
Matando o tempo e espairecendo, Cássio deslizava em meio aos pequenos aglomerados charlantes e gesticulantes, e tinha ensejo de apreciar, em escala bem ampliada, os matizes da revolta coletiva. Parando pouco, andando quase o tempo todo, andando bem devagar, ele se valia de espiadelas e escutadelas furtivas para fazer a coleta dos sofrimentos e das fúrias.
Se revelava alguma harmonia em seus tons lamuriantes e fulminantes, a aflição da legião dos descarrilhados não exibia qualquer uniformidade de motivos. Nos cachos deflorados pela indiscrição de Cássio, gemia-se, rosnava-se e amaldiçoava-se em completa discórdia. Maldizia-se em todas as direções, infelicitavam-se os inimigos que estão em guerra encarniçada, a infelicidade de uns fazendo a mais perfeita felicidade dos outros. Abominavam-se os inconciliáveis, execravam-se os incompossíveis. Em suma, alternadamente, desejava-se o céu e o inferno a todos os seres da alta política italiana. E ia-se até o ponto de invocar monstros ainda vivos — era outono de 1978 —, profetas malditos, como Almirante, arrebatado chefe do M.S.I. Conjurou-se mesmo o grande celerado morto Mussolini.
Mas Cássio, subitamente, enamorou-se de uma cordial dupla de italianos descarrilhados, que conversavam calorosamente. Eles estavam bem próximos, e era fácil escutá-los sem chamar atenção.
Segurando seu amigo pelos dois braços, Giuseppe Artifano Peressuti gemia desalentado:
— Fioravanti, ela está de anos hoje! Combinamos passar a tarde e a noite só fazendo a melhor coisa, não nos deixando distrair por nenhuma outra, não dando sequer um minuto a tudo que for menos ardente e gozozo. Não é a primeira vez que me atraso. Acho que esse maldito descarrilhamento vai me custar a coelha de vez.
— Pepito, qual?
— Ma che!
— Não sei… É a filha do Scalfarotto?
— Ma, ma!
— Ora, não sei… É aquela noivinha do Ludecus…?
Pepito solta os braços de Fioravanti.
— Não se pode falar sério contigo, Fioravanti.
Agora é a vez de Fioravanti segurar Pepito pelos braços.
— Pepitino, não sei mesmo!
— Ora! É aquela germanicazinha, a Kotzebue, Dorothea von Kotzebue, essa gema da Alemanha que eu te apresentei no Rialto.
— Aquela…? Pepitino, aquela seria um crime jogar fora!
— Justamente! E logo no dia do aniversário dela, quando íamos, finalmente, passar toda uma tarde e toda uma noite bem longe de seus pais e seus três irmãos.
— Pelo que se diz, e também pelo que se vê… ela é kerndeutsch
. Faz com que ela padeça todo o nosso ardor!
— Darei o melhor de mim. Ela adora gemer de prazer, ela guincha de volúpia. E durante horas de coragem lasciva, sente-se bem-aventurada puta. É a sua real vocação, mas ela é por demais ambiciosa e se ocupa com banalidades acadêmicas e com carreira preguiçosa. Tem do erótico tanta erudição, que seu talento teme exaustão. E enquanto o guincho dura, ela na cama faz cultura! Rima, não é?
Nesse momento, Pepito volta a agarrar os braços de Fioravanti, cujas mãos continuavam não indicando qualquer propósito de soltar os deliciosos braços roliços de Pepito.
— Meu querido — continuou Pepito, agora com voz súplice —, estamos com bem pouca bagagem… Que tal continuarmos daqui a pé até Veneza? É talvez a única chance que me resta de eu chegar a tempo para festejar com a Dorothea…
Da singular reciprocidade afetuosa dos dois jovens amigos, segurando-se mutuamente os braços, resultava, é claro, que estavam fazendo cadeirinha
, embora um pouco acima da altura normal para uma pessoa de porte razoável. Ora como, além disso, falassem em ir a pé a Veneza, Cássio, que estava bem pertinho, fisgou a oportunidade para pedir licença: Posso sentar?
, dando a entender que ele, Cássio, viajaria sentado na cadeirinha, mas, em compensação, carregaria, com uma mão, a mala de Pepito, e, com a outra, a de Fioravanti. Chegando à Praça de São Marcos, ele prometia desembarcar, devolver a cada um sua mala e ir representar Giuseppe Artifano Peressutti junto à sua gema da Alemanha, Dorothea von Kotzebue.
Os dois joviais amigos, não conseguindo ouvir aquilo em que pudessem acreditar, se entressorriam laconicamente e dedicaram ao que estavam presenciando comentários puramente mímicos. A intervenção de Cássio os forçara igualmente a um recíproco livramento, condicional, dos braços. Fioravanti, o menos desamparado, acabou por replicar: A cadeirinha também pode descarrilhar antes de chegar à Praça de São Marcos…
.
A tensão entre eles, que, por momentos, escalara níveis quase perigosos, se converteu em antagonismo bufo, no fim quase cordial. Eles se sentiram, se temeram, acertaram, secretamente, um elaboradíssimo sistema bilateral de convexidades insolentes e de concavidades indulgentes; eles se aceitaram, e quase se gostaram. Mas continuavam, por inércia, trocando sorrisos inimigos, esgares de guerrilha desdenhativa, que, no fundo, eram só de aparente ironia. Prometeram rever-se em Veneza, assegurando que se reencontrariam totalmente por acaso.
Cássio começou a perambular. Imprecações proferidas por blasfemadores muito pitorescos, ferroviários de uniforme azul e de trejeitos alegremente fulminantes, assim como as irritantes sacudidelas de alguns vagões, indicavam a existência de esforços, mas a inexistência ainda mais certa de resultados, ao menos de imediato. Por isso, Cássio entendeu que devia prosseguir vadiando, vadiando com algum método, em uma caminhada indolente e insidiosa, que se interrompia em paradas pretensamente distraídas…
Uma idosa freira, vestida, do queixo aos pés, com imemorial decoro negro, se queixava e se queixava, no meio de uma luxuriante adolescência. A sombria criatura estava envolta em uma grinalda de juventude, uma grinalda de ondulante, vibrante adolescência: garotas buliçosas, que deviam ser alunas dela.
A freira se lamentava dos danos sobrenaturais que o descarrilhamento lhe causava. Ela se queixava de que chegaria, talvez, só para as completas, a última hora, a hora em que acaba, a hora em que se consuma o ofício divino. E isso, ainda por cima, não era totalmente seguro. Ela ia, pois, perder a noa e as vésperas, e talvez mesmo as completas!
Mas as meninas não se consumiam nesse desgosto, as meninas, luxuriante e cambiante anel de juventude que cingia a freira. Elas não se queixavam de nada: estavam sendo olhadas. Estavam sendo olhadas por Cássio, e o gosto, o prazer que isso lhes dava era o mais competente, rigoroso e favorável julgamento que se poderia fazer sobre a aparência dele.
A beleza é imediatamente glória. A glória é absoluta. A beleza é imediatamente glória, imediatamente absoluta. No mesmo instante, ela é prestígio, grandeza, coroa. Ela é poder súbito e terrível. Isso é tão alegre quanto espantoso.
Para o estado de volúpia e de encanto admirativo em que as meninas se encontravam mergulhadas, a pontualidade — ou não — de Madre Angélica, no seu encontro litúrgico com Deus, concernia uma indecisão dos fatos cuja importância era evidentemente nula. A própria relação da mestra delas com seu grande Deus tinha perdido, em um abrir e fechar de olhos, o que não possuía senão muito dubiamente: verdade, utilidade, existência justificável. O dano sobrenatural sofrido pela Madre era simplesmente o avesso lastimável e risível da felicidade das meninas, o lado ruim de um tecido encantador. E elas sabiam que seriam censuradas, sabiam que a Madre se obstinaria em expulsar do Paraíso o prazer delas, expulsando do prazer delas o Paraíso…, banindo do desejo e do pensamento delas todas as palavras da Bíblia.
As meninas estavam preocupadas em verificar se agradavam duradouramente ao seu resplandecente voyeur visível. Queriam se certificar se o encanto delas se prolongava sem fim. Examinavam se Cássio distribuía equitativamente a cada uma delas a atenção sensual que dispensava ao grupo: ou se favorecia, por uma injustiça cruel, ou deliciosa, alguma ou algumas delas. E se era ela mesma (!) Giovannita, a mais degustada dentre todas, a mais suculenta, a grande luminosa favorita, o que ele saboreava nela por predileção?!
Mas ainda menos surpreendente do que a preferência das meninas por Cássio, em detrimento da desgraça litúrgica e do descarrilhamento bíblico da freira, foi o despeito que se apoderou desta quando percebeu que tinha sido preterida. Ela foi, mais uma vez, obrigada a ver a confirmação de uma tendência que já vinha se reforçando há bastante tempo: a sua piedade perdia, uma por uma, todas as suas bases eleitorais. O Demônio, apoiando a candidatura dos mais vis concorrentes, Cássio, por exemplo, vencia todos os pleitos. Mas Madre Angélica não se dava por vencida, ela não engolia esses resultados eleitorais. Segundo ela, o Maligno trapaceava, o Espírito pérfido não jogava segundo as normas, Satanás violava as regras da boa contenda! Havia fraude… Mas ela e Deus não trapaceavam. Era uma luta desparelha.
Entre a piedosa Angélica e Satanás não havia, pois, guerra total, como seria de se esperar, mas uma espécie absolutamente extraordinária e única — dada a natureza das forças em questão e a envergadura espantosa da parada — de antagonismo diplomaticamente concebido, regulado: um jogo, cujo regulamento era preciso respeitar. Ora, Satanás tinha cometido falta… portanto seus pontos não valiam. Portanto, a freira não tinha amargado nenhuma verdadeira derrota, e Cássio não passava de um vencedor provisório e ilusório, que seria desconcertado no dia do Juízo Final. Nessa ocasião, ele, acompanhado ao menos pela impudente Giovannita e suas sorrateiras e sensuais amigas Sandra, Gina e Marina, seria colocado à esquerda do Filho do Homem.
A Madre confessava que, chegando ao Céu, não conseguiria dominar a tentação de tirar desforra das meninas. Seria o único pecado que cometeria no Céu, no início de toda uma eternidade de inevitável perfeição e bom comportamento. Ela se vingaria de suas alunas infiéis e condenadas, por meio de uma colossal e interminável gargalhada, que seria ouvida por todos os eleitos e todos os réprobos. Seria uma risada histórica para a evolução permanente do Paraíso. Deus, Seu Filho, Sua Mãe, Seus Sobrinhos, Sua Tia-Avó, assim como a nata dos anjos e os santos de primeiro escalão, tapariam, é claro, os ouvidos, mas não deixariam de sorrir com complacência. Todos os outros membros da sociedade celeste seriam, pouco a pouco, contagiados pelo riso louco da freira. E os indivíduos menos duvidosos entre os réprobos — a nata do Inferno, um punhado obstinado de heróis do mal — aplaudiriam por zombaria, cuidando para não sucumbir à tentação de rir, à qual todos os outros habitantes do Inferno seriam incapazes de resistir. Esse grande Dia do Riso celestial e infernal seria provavelmente o segundo dia após o Dia do Juízo.
Em suma, as ondulantes meninas de Madre Angélica não pediam mais do que continuar indefinidamente descarrilhadas, mesmo na manhã fria de outono, desde que pudessem ficar flutuando naquela maravilhosa temperatura dos instintos acordados, avivados, adejando com todo o corpo
