A ilusão do Fausto: Manaus (1890-1920)
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A ilusão do Fausto - Edinea Mascarenhas Dias
Prefácio à 3.ª edição
Na obra A ilusão do fausto: Manaus – 1890-1920, são levantadas questões relacionadas à urbanização rápida e radical da cidade de Manaus, com ênfase na última década do século XIX e início do XX, quando por força de um projeto civilizatório, o capital determinou o que valorizar nesse processo. Historiando os impactos sociais negativos de urbanização, aponta-se um projeto de apagamento de memórias, episódios, atores, sacrifícios, traços e combates de sujeitos históricos silenciados. A questão é como compreender o constituir de uma cidade, considerando que muitos silêncios foram impostos à sua memória. A partida em busca da cidade real para a construção desta escrita fez-se com um minucioso estudo, interrogando-se os códigos de posturas, decretos e regulamentos estaduais e municipais, relatórios dos chefes de repartições, as mensagens dos governadores e intendentes, os jornais de grande e pequena circulação e as leituras dos viajantes. As evidências apresentadas por esses documentos serviram para testar muitas hipóteses.
Decorridos 20 anos da publicação da 1.ª edição de A ilusão do fausto: Manaus – 1890-1920 e 12 anos da 2.ª edição, esta 3.ª edição vem com um caráter comemorativo e de agradecimentos. A intenção da obra é trazer para o estudioso um momento de grande relevância na história econômica do Estado do Amazonas, apontando pistas, rastros, sinais e problemas importantes para a reconstrução da história da cidade, com periodizações sociais, econômicas, demográficas, geográficas etc., sem a preocupação de acrescentar novos capítulos, mas dizer de sua contribuição a uma nova escrita da história da cidade de Manaus, de seu constituir ou constituído urbano como cidade legal ou como espaço real.
Quero agradecer aos amigos, leitores, pesquisadores, professores, estudantes, a compreensão na leitura da obra. Estamos portanto, celebrando os 20 anos do lançamento de A ilusão do fausto: Manaus – 1890-1920, acrescentamos nesta edição, registros de estudiosos da Amazônia com contribuições para o entendimento do tema em foco, são comentários, resenhas, artigos publicados em jornais locais no momento do lançamento da obra.
Edinea Mascarenhas Dias
MANAUS
O impasse da modernidade
Milton Hatoum*
Os problemas de uma cidade não são apenas técnicos e estéticos. A cidade ou o espaço urbano são construídos ou destruídos segundo uma política de intervenção que pode favorecer certos segmentos sociais em detrimento de outros. O urbanismo é, ao mesmo tempo, uma técnica de organização do espaço e uma estratégia política. A mais singela ou ingênua intervenção urbana encerra uma intenção política e social, pois influi na vida do cidadão, no seu cotidiano, lazer e trabalho. Influi, enfim, nas relações sociais e na sociabilidade de cada pessoa.
A Ilusão do Fausto é um estudo pioneiro sobre uma cidade, Manaus, que foi planejada e construída para atender a uma demanda do capital internacional. Já muito se comentou e escreveu sobre o espaço embelezado da cidade: suas praças, seus monumentos, seus edifícios suntuosos, dotados de estilos superpostos, importados da Europa. Esta é a Manaus mais divulgada, a cidade revelada em fotografias e cartões-postais. Mas há uma zona de sombra, escondida ou muito pouco revelada nesse urbanismo pretensamente grandioso, espelhado na Paris do prefeito Haussmann. Trata-se da outra face da urbs
, uma face nada edificante da mesma fisionomia urbana: a Manaus dos excluídos. Ou seja, a dos pobres, miseráveis, imigrantes, enfermos e loucos.
O ensaio de Edinea Mascarenhas Dias põe em relevo a tensão social gerada por essa política urbana excludente. Além disso, chama a atenção para o poder do capital, que determinou uma nova concepção do espaço urbano. Ou seja, o projeto de Manaus foi pensado não apenas na configuração de espaços amplos (boulevares, avenidas e praças), de infraestrutura (porto, luz elétrica, redes de esgoto e abastecimento de água), e de lazer, mas também de um conjunto de medidas que pretendiam afastar, da vitrina urbana, os mais desfavorecidos. Nesse sentido, o traçado urbano de Manaus não foi muito diferente do de outras cidades brasileiras, como o Rio de Janeiro à época de Pereira Passos.
Como se sabe, a opulência econômica gerada pelo extrativismo concentrou-se nas mãos de poucos. Também a cidade embelezada serviu para um punhado de privilegiados: uma elite que desfrutou de uma infraestrutura urbana moderna, assim como das atividades culturais e de lazer. Os moradores da outra cidade, de uma Manaus fora do centro, foram alijados dessa modernização. No entanto, criaram-se mecanismos de controle que possibilitaram esses espaços segregados. Na Manaus do período analisado (1890-1920), os trabalhadores não tinham acesso aos serviços básicos de água potável, rede de esgoto, higiene, educação, saúde. Ontem, como hoje, a modernização foi pensada para um determinado setor social. Reside aí a falha de um projeto de cidadania, e, numa perspectiva política mais ampla, de democracia.
A Ilusão do Fausto tece uma crítica muito bem fundamentada dessa modernidade manca que, certamente, tem fundas raízes históricas, já que a herança escravista perdurava numa sociedade cuja elite projetava como modelo de civilização
as metrópoles europeias. O descompasso entre um e outro modelo revelou-se abissal, e reside aí um dos nossos mais dramáticos impasses: Todo o afã civilizador do progresso, subjacente ao ideário positivista, esbarra nesse impasse.
Na Manaus do início do século XX, a imensa maioria da população de 50 ou 60 mil habitantes era mal remunerada, desempregada ou subempregada. O espaço urbano, segregado, reflete essa desigualdade e torna-se palco de tensões sociais. Não por acaso surgem os códigos de posturas, com suas restrições e proibições. É que a cidade higienizada e policiada, enfim civilizada, não pode atender a todos; daí as leis restritivas para os mendigos, ambulantes, boleeiros, cocheiros etc.
Além disso, todo um aparato arquitetônico foi concebido e construído a fim de abrigar os desvalidos, loucos e marginais. O ensaio mostra como essa arquitetura tenta isolar ou segregar uma parte da população. Os excluídos socialmente são confinados em asilos, hospícios e albergues.
Embora este ensaio analise, em profundidade, uma época determinada, o leitor atento é convidado a pensar na cidade atual, pois não podemos entender o presente sem uma compreensão aguda do passado. Um século depois do fausto da borracha, as questões referentes à habitação, saúde, educação e ao transporte urbano, mas sobretudo como ausência ou falha de uma política voltada para a população mais desfavorecida. Esta constitui a grande maioria da população manauara que continua segregada, abandonada, e, por que não dizer, aviltada. Hoje, o cenário político e econômico é outro, muito mais complexo em suas particularidades regionais e nacionais, ligadas, por sua vez, à trama de interesses internacionais. No entanto, pode-se falar de uma nova ilusão de um outro fausto, já que a indústria não garante, por si só, cidadania e bem-estar social.
A ilusão de outrora, fruto do fausto do extrativismo, retorna, com nova roupagem, à Manaus da era industrial.
Nessa perspectiva, A Ilusão do Fausto nos faz refletir sobre o impasse gerado por uma modernidade incompleta, cuja herança, traduzida dramaticamente em carência social, é mais do que visível na Zona Franca de Manaus.
* Milton Hatoum é escritor, autor de Relato de um certo Oriente, Dois irmãos, Cinzas do Norte, dentre outros.
Livro, A Ilusão do Fausto.INTRODUÇÃO
Investigar sobre Manaus impõe-se como uma necessidade para os estudiosos da região, mais ainda quando a pesquisa se volta para questões que, até hoje, não foram privilegiadas pela historiografia regional.
Afirmar que a Manaus da época da borracha não se constituiu como objeto de estudo seria mentir. Mas, sob que ótica? A Manaus que essa historiografia nos deixou é a Manaus dos coronéis da borracha, da luz elétrica, da Avenida Eduardo Ribeiro e da Rua Municipal: cidade que surgiu no meio da selva por encantamento, despertando surpresa e admiração naqueles que aqui chegavam. Bondes elétricos, teatro, porto moderno, magazines, praças, jardins e suntuosos palacetes faziam parte do cenário urbano.
A escolha da pesquisa sobre a Manaus de 1890-1920 teve como preocupação fundamental recuperar uma parte da história da cidade. Interessava-nos conhecer e entender o constituir de Manaus como centro comercial exportador-importador, lugar de contradições e conflitos.
Trabalhar as contradições, analisar como a elite extrativista conseguiu trazer para seu controle todo um processo que envolvia questões profundas, como a ruptura das antigas relações de trabalho, a imposição de novos valores culturais, o controle da saúde, a diminuição ou perda do tempo livre, em consequência das novas atividades e a militarização do espaço físico. Nosso maior interesse foi o de trabalhar as contradições no cotidiano da cidade.
É importante frisar que a intenção, ao estudar a questão, foi a de desmistificar o discurso construído em torno do fausto
. Significa assumir o compromisso de recuperar, para a história do Amazonas, as condições de vida e de trabalho em Manaus no início do século XX.
Aprofundar a análise desse processo facilita-nos o conhecimento crítico de nossa história, desmontando um discurso mitificador sobre a aparência do fausto
do período da borracha, recompondo o histórico de uma cidade construída no meio da selva amazônica, que tanto despertou a atenção, a admiração e o interesse de estrangeiros e nacionais, de ricos e pobres. Cidade que, ainda hoje, preserva os símbolos de um passado de fausto e beleza: Teatro Amazonas, Porto Flutuante, prédio da Alfândega, Palácio da Justiça, Penitenciária etc.
Quando pensamos, inicialmente, como proposta de trabalho, recuperar as condições históricas do processo de organização e urbanização da cidade, tivemos em vista a sua condição de centro de circulação da produção gumífera; logo, uma área de conflitos, impostos pelas contradições econômicas, sociais e políticas. Espaço que respondeu, de forma direta, às necessidades de circulação material do capital e consumo, do transporte de mercadorias, do comércio, armazenamento, bancos etc.
No processo de constituição de Manaus, como área de circulação do capital, procuramos acompanhar as transformações provocadas por este fenômeno, no que se relaciona às condições de vida e trabalho de um contingente muito grande de pessoas que se fixou na cidade.
Como primeiro passo, pesquisamos fontes e documentos que nos oferecessem a oportunidade de reconstituir a história de Manaus, procurando captar a cidade descrita pelos viajantes e primeiros administradores, antes de sofrer a influência da economia do látex.
A escolha do período 1890-1920 não é aleatória, uma vez que foi neste espaço de tempo que Manaus sofreu seu primeiro grande surto de urbanização, graças aos investimentos propiciados pela acumulação de capital, via economia do látex. Embelezar e modernizar Manaus foi o grande objetivo dos administradores dessa época. Era necessário que a cidade se apresentasse moderna, limpa e atraente, para a imigração, o capital e o consumo.
O governo priorizou, do ponto de vista dos investimentos, o aterro dos igarapés, abertura de ruas, construção de prédios públicos, construção de pontes, saneamento, iluminação, construção de escolas, limpeza etc. Neste período, Manaus passou por expressivo processo de transformação, refletindo as novas formas de organização do trabalho.
Por meio de uma documentação variada, o segundo passo foi identificar a cidade que surgiu com a expansão da produção de goma elástica: a cidade comercial, o centro de circulação e consumo, a cidade que se expõe como ponto de atração de pessoas de outras regiões do país e, até mesmo, do exterior. A cidade transformada e organizada para representar os novos interesses do capital. A cidade do fausto
, do poder, harmoniosa e sem problemas – pretendida e desejada pela elite extrativista.
A etapa seguinte foi captar o dia a dia da cidade, recuperar a vida da população, o cotidiano dos trabalhadores, a nova feição que Manaus vai tomando nas suas mais diversas formas e diversidades.
As dificuldades em levantar o material que nos possibilitasse a concretização da proposta foram muitas, desde a sua localização nas instituições de pesquisas existentes na cidade, até a disposição dos documentos nos arquivos e prateleiras, que não obedecem a nenhum critério técnico de organização, sem falar na ausência de um arquivo fichário organizado, o que significa que muitos dos documentos não estão sequer catalogados.
Excluindo a Biblioteca Pública, Manaus ainda não conta com um centro de pesquisa onde se possa dispor de uma documentação e um quadro de funcionários preparados e interessados no trabalho
