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Pré-visualização do livro
Depois Da Terceira - Roberto Bern
Roberto Bern
Depois da Terceira
3ª edição
Lisboa
2023
© Roberto Bern
Depois da Terceira
Revisão: Cristiane Otílio
ISBN papel: 978-85-916340-1-9
ISBN pdf: 978-85-916340-0-2
Editado por Clube de Autores
Este livro é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares, empresas, organizações, acontecimentos e incidentes são todos produtos da imaginação do autor ou usados de modo ficcional.
Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, acontecimentos ou locais reais é mera coincidência.
Reservados todos os direitos. Salvo exceção prevista pela lei, não é permitida a reprodução total ou parcial desta obra, nem a sua incorporação a um sistema informático, nem a sua transmissão em qualquer forma ou por qualquer meio (eletrónico, mecânico, fotocopia, gravação ou outros) sem autorização prévia e por escrito dos titulares do copyright. A infração de ditos direitos implica sanções legais e pode constituir um delito contra a propriedade intelectual.
Para minha mãe Cecília e meu pai Heider
Este livro também é dedicado
a Renato Bernardo e Ronaldo Bernardo,
irmãos inseparáveis.
Agradeço a colaboração inestimável
de Cristiane Otílio, amiga paciente,
que teve o carinho de ler antes.
Sua revisão foi preciosa para
a consolidação da obra.
"A única guerra para a qual
somos convocados não é uma batalha com armas,
mas uma batalha de consciência"
Karen Berg
Prólogo
WASHINGTON D.C, 04h08, 05 de dezembro de 2028 (GTM -4) rimeiro veio a escuridão. Quem sobrevivera à guerra sabia dizer exatamente onde estava quando houve o P apagão. Tudo foi abaixo. Um país inteiro às cegas. Não apenas as infraestruturas essenciais dos Estados Unidos, como a rede elétrica e o sistema de águas, que haviam sido interrompidas; o ciberataque foi massivo e derrubou tudo. Ninguém conseguia acessar a nada. Não havia uma única senha que funcionasse. Não havia internet nem telefone. Tudo lhes fora vedado. O tempo passou de forma peculiar nos minutos seguintes ao apagão. Toda a gente sabia que cada minuto era crítico; todo o mundo intuía que, naquele preciso momento, estavam a incidir acontecimentos daqueles que moldam a História para sempre. Afinal, horas antes, os americanos afundaram o Fujian, um dos mais emblemáticos porta-aviões da China, que, junto com outros grupos ofensivos da Marinha, cercara a Taipé Chinesa ou Taiwan, como o Ocidente insistia em chamar. As imagens do Fujian afundando foram transmitidas ao vivo nos principais canais de televisão do mundo.
Uma demonstração de poder extremamente ofensiva. As guerras 13
justificavam-se com desentendimentos deste gênero. Ao longo de décadas, a Marinha Americana navegou nas águas territoriais da China desafiando a soberania dos chineses, pelo menos era assim que eles acreditavam e se sentiam. Naquele instante, a linha que demarcava os limites de toda essa tensão fora ultrapassada. O
mundo sabia que uma escalada do conflito seria inevitável. Iria haver, obviamente, uma reação por parte de Pequim. Os chineses iriam contra-atacar, e os americanos iriam contra-atacar esse contra-ataque. O pessoal da Segurança Nacional estava a postos para isso, mas sequer imaginaram que o revide viria em forma de um ciberataque tão poderoso. A capacidade da China para piratear infraestruturas online e deixar os Estados Unidos completamente às cegas fora subestimada. "A arte suprema da guerra passa por subjugar o inimigo sem lutar". Sun Tzu era chinês. Até isso os americanos se esqueceram. Os segundos iam passando com uma estranha imprecisão, como se o tempo tivesse sido adulterado.
Imediatamente, os Estados Unidos lançaram seus aviões militares, mas a aviônica deles paralisou completamente, os sistemas de navegação falharam e passaram a controle manual. Os pilotos sequer conseguiam se ejetar. Nada funcionava. Os mísseis não dispararam. Ainda não se tinha confirmação de quem estava fazendo aquilo, mas era evidente que o domínio cibernético exercido sobre as forças americanas foi total. Uma capacidade de inteligência artificial altamente sofisticada e ainda desconhecida, 14
que permitiu ao agressor utilizar seu poderio cibernético no momento preciso para invadir os sistemas dos Estados Unidos, totalmente dependentes e reféns da própria tecnologia. A Casa Branca sucumbira ao pânico. Por precaução, o Air Force One, com o presidente Harold Shephard a bordo, sobrevoava o Pacífico desde o ocorrido no mar da China, mas, agora, sem a aviônica funcionando, as comunicações com a aeronave eram nulas e toda a gente sabia que, se o presidente dos Estados Unidos não tivesse como se comunicar com o seu poderio nuclear, haveria protocolos para um ataque preventivo automático. Era preciso regressar ao continente e pousar, manualmente, o Air Force One em segurança no Andrews AFB o mais rápido possível. Um silêncio coletivo abateu-se sobre a tripulação e todos a bordo, como quem segura a respiração. Sabiam que, inerente a todas as guerras, havia um erro de cálculo; o medo era que este erro provocasse um incidente que espiralasse para um conflito mais amplo. Dentro desse fôlego sustido, existia uma tênue esperança que o apagão fosse apenas uma única demonstração de força e que a situação não escalasse para além disso. Todos ainda estavam tentando juntar as peças do que estava acontecendo quando enxames de mísseis de cruzeiro hipersônicos totalmente furtivos e teleguiados com pequenos drones de direcionamento não tripulados entraram em território americano. Com os sistemas antiaéreos sem funcionar, numa escalada desproporcional com uso de armas nucleares táticas, 15
foram atingidas simultaneamente três importantes cidades americanas: Washington D.C, New York e Boston. A capital norte-americana estremeceu com os estrondos causados pelas bombas que não paravam de explodir. Andrews AFB, The Pentagon, The White House e toda a região do Downtown, Southwest Federal Center até Crystal City, na Virgínia, foram completamente destruídos. Tudo que existia entre o DC Armory e o United States Naval Observatory, em Washington D.C, incluindo as embaixadas britânica, italiana, brasileira, coreana, japonesa e mais de 600 mil vidas, desaparecera de um momento para outro, num abrir e fechar de olhos. O obelisco Washington Monument foi derrubado com o impacto das bombas e o Ronald Reagan National Airport afundado no rio Potomac. Em Boston, a destruição do aeroporto Logan e de grandes áreas residenciais, com mais de 500 mil habitantes, foi devastadora. Um cheiro horrível preencheu as ruas com prédios e lojas totalmente tomados pelas chamas. Mas em New York o estrago foi ainda mais simbólico. Isso não significava que a impressionante perda de vidas em locais como Washington D.C e Boston não fosse suficientemente sombria, mas seria difícil imaginar um cenário onde um ataque a New York não resultasse numa escalada de armamento nuclear tático para estratégico. Em Manhattan, a tempestade de neve deu lugar a uma chuva escura e radioativa. A calmaria da madrugada fria foi interrompida pelo som ensurdecedor das bombas que caíam sobre a ilha destruindo 16
tudo do Battery Park ao Harlem, matando mais de 1 milhão de pessoas. No alto do céu coberto de nuvens densas, esquadrilha após esquadrilha de bombardeiros passava roncando cruzando de east a west. Cada vez que despejavam as súbitas trovoadas de suas cargas, a cidade desaparecia numa crescente nuvem de fogo e fumaça. A poeira não tinha tempo de assentar porque chegava outra vaga de bombardeiros. Mais de 40 km² de morte e pânico. O
prédio da ONU na 1St Avenue e outras centenas de edifícios incendiaram completamente ou foram abaixo em poucos minutos.
O som dos desmoronamentos e o estrondo das explosões, somados ao fedor execrável que emanava no ar, criaram um cenário pavoroso. Havia explosivos, estrategicamente instalados nos principais prédios e aeroportos dos Estados Unidos, sendo acionados quase que simultaneamente. Bombas sujas plantadas por células adormecidas, ogivas montadas na ponta de mísseis balísticos, um ataque em múltiplos pontos do território continental americano com bombas nucleares táticas. Em seguida, às 04:15
(GTM -4), iniciaram os ataques em Detroit, Chicago e Columbus.
Depois Houston, Los Angeles, Atlanta, Seattle, Dallas...
espalhando o caos pelos Estados Unidos, da Florida ao Hawaii, de Oregon à Maine, do Alaska ao Texas. Contratorpedeiros armados com mísseis hipersónicos. Fragatas semissubmersíveis.
Submarinos ofensivos completamente silenciosos. Mísseis de cruzeiro teleguiados com pequenos drones de direcionamento não 17
tripulados. Cada um possuía a mais recente tecnologia e tudo isso observado por uma constelação de satélites com profundas capacidades cibernéticas ofensivas e defensivas. As forças armadas norte-americanas tentaram reagir imediatamente, colocando todos os seus porta-aviões carregados de caças nos conveses, incluindo o George H. W. Bush, Gerald R. Ford, Enterprise e até o Doris Miller, e e seus submarinos nucleares espalhados estrategicamente pelo planeta prontos para entrarem em ação de forma impiedosa, mas todos estavam às cegas. Os equipamentos tecnológicos não funcionavam. Fora um golpe, há muito aguardado, contra os Estados Unidos. Suas armas inteligentes deixaram de ser inteligentes. Sem acesso à tecnologia que as comandava, sequer eram armas. O que faltava aos americanos era imaginação. O que fora dito em relação aos ataques do 11 de setembro seria também dito em relação ao incidente atual: não se tratava apenas de um fracasso dos serviços secretos americanos, mas, antes, de um fracasso da imaginação americana. Quanto mais os americanos se esforçavam, mais encurralados ficavam. A forma de derrotar a tecnologia não era com mais tecnologia, mas sem ela. Precisavam reagir de forma analógica, sem envolver a tecnologia computacional, mas já haviam perdido essa capacidade. O inimigo cegou e subjugou os americanos de forma inimaginável. Para piorar, ainda não tinham a certeza de quem era o agressor. O inimigo era desconhecido.
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Apesar de desconfiarem dos chineses, sabiam que a China era uma nação que, assim como eles, se empenhava em manter a ordem mundial. Logo, poderiam ser outros adversários como os iranianos ou russos, a se aproveitarem do conflito inicial com os chineses. A Rússia, tal como o Irã, sabia que qualquer cenário que enfraquecesse os americanos seria vantajoso. De fato, suavizar a presente crise não era, efetivamente, de interesse iraniano ou russo. O que lhes interessava era a perturbação. O caos. Uma alteração na ordem mundial. Apesar do cenário de destruição apocalíptico, era preciso cautela e, enquanto os Estados Unidos e a OTAN não tivessem a certeza do alvo, não poderiam atacar. Só uma coisa era certa: numa reunião de emergência do Conselho de Segurança Nacional, que lidava agora com a situação a partir do Air Force One, o presidente Harold solicitara autorização para um ataque nuclear contra o inimigo, desde que pudesse ser encontrado e feito alvo. Os Estados Unidos e a OTAN iriam recorrer ao arsenal de armas nucleares estratégicas. As armas do fim do mundo.
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PARIS, 19h57, 05 de dezembro de 2028 (GTM +1)
e repente, lá estava eu com uma dor na nuca insuportável e fazendo a barba no banheiro do meu D apartamento com a porta aberta para sair o vapor.
Tinha acabado de tomar um banho longo e quente. O banheiro ainda estava úmido, com os azulejos molhados e o espelho embaçado. Com a toalha enrolada na cintura, eu estava ligeiramente irritado com a pizza que não chegava e com o espelho que voltava a embaçar logo após eu passar a mão nele, o que me atrapalhava demais. Era noite de uma terça-feira fria, peguei o relógio em cima da bancada da pia, olhei os ponteiros e haviam passado cinquenta e sete minutos desde que liguei para a pizzaria fazendo o meu pedido. Ao colocar o relógio de volta à bancada, cortei-me com a lâmina de barbear. Senti uma fisgada e um filete de sangue escorreu pelo meu queixo pingando dentro da pia. Uma linha vermelha se formou misturando com a água que escoava pelo ralo. Não gosto de sangrar. Pressionei o pequeno corte com o dedo polegar esquerdo no intuito de estancar o sangramento o mais rápido possível. No mesmo instante a campainha tocou e, na televisão ligada às alturas na sala, a âncora da CNN anunciou que o presidente dos Estados Unidos entraria ao vivo para um pronunciamento. Saí em disparada até a porta e 21
fui receber a pizza de roquefort e brie, ainda com a toalha na cintura. Abri a porta em um solavanco.
- Bonsoir, monsieur. – disse o entregador.
Peguei a pizza sem responder e, enquanto procurava minha carteira com o polegar ainda pressionando o corte, o funcionário novato pediu perdão por demorar a achar meu apartamento.
- Pardonnez-moi, monsieur!
Não dei ouvidos, mas fiz que sim com a cabeça. Paguei com uma nota novinha de vinte euros e não exigi o troco. Irritado, bati a porta com força. A pizza estava fria e o queijo endureceu feito borracha. Mal comecei a comer ali mesmo na sala, com a barba ainda por terminar a fazer, com a toalha molhada sobre o corpo, quando o presidente dos Estados Unidos começou seu pronunciamento na TV. Ele estava em pé, sério e aparentemente abatido. Ao fundo, um tapume revestido de veludo azul marinho evidenciava um cenário improvisado com a bandeira dos EUA ao lado da bandeira presidencial da Casa Branca, que nem existia mais e onde, certamente, ele não estava. Conforme a câmera dava close no rosto do presidente, pude perceber o quanto envelhecera durante seu segundo mandato. Seu terno escuro com risca de giz dava-lhe uma elegância superior e sua gravata vermelha soava como um prenúncio do sangue que seria derramado. Como os conselheiros do presidente permitiram que usasse uma gravata 22
vermelha? , pensei sobre uma eventual quebra de protocolo. Mas era provável que estivessem todos mortos. Sabe-se lá como aquele pronunciamento fora organizado. Quando o presidente começou a falar, um pedaço de queijo caiu sobre minha perna. Ao lado, a mancha de uma gota de sangue na toalha branca.
-Meus caros cidadãos dos Estados Unidos da Améria e de todo o mundo, neste momento as forças de coalizão norte-americanas deram início às operações militares para defender o mundo de um sério perigo. Sob minhas ordens, começarão a atingir alvos selecionados e de importância militar, com objetivo de minar a capacidade de combate da Coreia do Norte, Rússia, Irã e China; países que desafiaram as resoluções do Conselho de Segurança. Desde o
