Experiências Diante da Saúde Mental na Infância
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Experiências Diante da Saúde Mental na Infância - Marcos Venicio Esper
COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO MULTIDISCIPLINARIDADES EM SAÚDE E HUMANIDADES
PREFÁCIO
Escrever um prefácio é uma tarefa que me causa um grande prazer. Quem sabe Marcos Venicio Esper intuía isso ao me ligar, uma fresca tarde paulistana de agosto, para me propor essa missão. Aceitei de imediato. Afinal, o organizador desta obra, agudo e brilhante pesquisador, apresentaria, com certeza, um produto sólido e instigante. Não estava errado. A maneira em que Esper organiza esta seleta coletânea caracteriza-se pelo rigor epistêmico e um percurso que valoriza as últimas contribuições em relação à saúde mental infanto-juvenil. Tema que – sou testemunha fiel disso – desvela o organizador há anos. O livro não somente aporta um olhar disciplinar, mas também interdisciplinar à dimensão da criança e do adolescente, olhar epistêmico que dá conta da consciência sócio-histórica dos autores. Mas, apesar dessa abordagem, o livro é uma proposta orientada não somente a profissionais da educação e da saúde, senão também a membros das famílias dessas crianças e adolescentes, construindo um saber simétrico que valoriza diferentes olhares. Quiçá, seja essa a verdadeira interdisciplinaridade que propõe o texto: uma forma democrática de pensar o conhecimento que o organizador e os autores expõem com riqueza e precisão cirúrgica. Os experientes profissionais das áreas da Pedagogia, Psicopedagogia, Neuropsicologia, Psicanálise, Medicina, Assistência Social, Enfermagem e Nutrição, convocados pelo organizador não somente expõem conhecimentos teóricos cruciais para entender as lógicas problematizadas, mas, nessa construção, conseguem enriquecer seus trabalhos com as próprias experiências clínicas, imbricando solidamente teoria e prática. Eis aí o momento em que surgem as questões mais desafiadoras de qualquer disciplina: até que ponto as classificações e as taxonomias patológicas são a chave para pensar intervenções terapêuticas ou pedagógicas? Quando e como se pode rotular uma determinada manifestação ou ocorrência? Como podemos ser fiéis ao nosso conhecimento canônico, todavia estando alertas a novas perspectivas? Esta obra percorre, mediante seus autores, essas perguntas, se não explicitamente, pelos casos e pelas reflexões apresentadas. Mais ainda, o sujeito que se apresenta nesta obra, não é outro a ser explorado sob uma perspectiva de outro patológico. É outro com agência, um sujeito que é capaz de contestar sua própria realidade construindo-a com os profissionais uma realidade melhor para si e para a sociedade. Quem sabe esse olhar mais antropológico de Esper tenha influído na coletânea que nos ocupa. Além da apresentação, escrita com lucidez por Esper, 9 capítulos publicam-se neste livro. Um deles, assinado por Marcos Esper, o qual fala da saúde mental na infância e as contribuições da Psicanálise, assunto que sempre merece ser aprofundado, e o outro, assinado por Marcelo Esper, refere-se à produção de textos como estratégia para a saúde mental das crianças, assunto proficuamente pesquisado pelo autor. Martins da Silva e Ferreira Silva apresentam um magnífico trabalho sobre a saúde mental da criança hospitalizada. Por sua vez, Braga Silveira e Lima Ribeiro refletem, por meio de uma experiência, sobre a saúde mental, a educação nutricional e a obesidade. Silva Costa apresenta a relação da violação dos direitos na infância com a saúde mental. Jorri e Jorri mostram com solidez um projeto de estudo para o trabalho (PET), e Oliveira Sanchez pensa o olhar neuropsicológico a partir de uma proposta específica. Cescato apresenta sua experiência de maneira interdisciplinar e revela a importância da equipe multiprofissional. Em um contexto político em que as chamadas fake news e as posturas anticientíficas parecem prevalecer, este livro é um convite a reafirmar a convicção de que a pesquisa séria, metódica e rigorosa, presente na produção dos autores nesta coletânea, não somente libera as mentes, mas propõe novas e instigantes perguntas. Boa leitura!
Dr. Ramiro Fernandez Unsain
Antropólogo
Universidad Nacional de Buenos Aires – Universidade Federal de São Paulo
Sumário
INTRODUÇÃO 9
Capítulo 1
A SAÚDE MENTAL DA CRIANÇA HOSPITALIZADA 11
Monise Martins da Silva e Bianca de Cássia Ferreira Silva
Capítulo 2
SAÚDE MENTAL E EDUCAÇÃO NUTRICIONAL PARA CRIANÇAS COM OBESIDADE: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA 21
Vivian Freitas Silva Braga Silveira e Bruna Lima Ribeiro
Capítulo 3
VIOLAÇÃO DE DIREITOS NA INFÂNCIA: IMPACTOS NA SAÚDE MENTAL INFANTIL 31
Denise Gisele Silva Costa
Capítulo 4
SAÚDE MENTAL NA INFÂNCIA: CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE 47
Marcos Venicio Esper
Capítulo 5
SAÚDE MENTAL NA INFÂNCIA: EXPERIÊNCIA DE UMA PEDIATRA 61
Rosângela Leal Cherchiglia
Capítulo 6
PROJETO ESTUDO PARA O TRABALHO (PET) 77
Alzira Jorri e Amanda Jorri
Capítulo 7
UM OLHAR NEUROPSICOLÓGICO A PARTIR DE UMA PROPOSTA DA SOCIOPSICOMOTRICIDADE RAMAIN-THIERS 97
Karina Oliveira Sanches
Capítulo 8
PRODUÇÃO DE TEXTOS COMO ESTRATÉGIA PARA SAÚDE MENTAL DE CRIANÇAS 113
Marcelo Esper
Capítulo 9
ATENÇÃO À SAÚDE MENTAL DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE: UMA EXPERIÊNCIA INTERDISCIPLINAR 123
Maria Priscila Cescato
SOBRE OS AUTORES 147
ÍNDICE REMISSIVO 153
INTRODUÇÃO
Saúde Mental na infância abarca também conceitos de deficiências, transtornos, síndromes e processos de aprendizagem. Busca-se abordar, nesta obra, por meio da interdisciplinarização e multiprofissionalização, os olhares e as experiências para essa densa e complexa temática.
Vivemos num tempo em que não acreditamos somente em conjecturas ou teorias, como nos passados tempos do Iluminismo. As pessoas não buscam somente ideias abstratas, mas as experiências vivenciadas. As políticas públicas de saúde mental para a população infanto-juvenil compreendem um amplo campo de aprendizagem e conhecimento. Apesar do progresso no século 21, há vários desafios a superar, como uma atenção à saúde individual e coletiva, pois o público infanto-juvenil demanda constante atualização e criação de estratégias específicas de atuação que valorizem a troca de informações entre os profissionais da saúde e da educação que atendem seres humanos em desenvolvimento.
As teorias podem apresentar caminhos, mas locomover por esses caminhos é uma questão de experiência. Por essa razão a literatura científica tem privilegiado temas voltados para patologização, medicalização e, em especial, a atuação de equipe multiprofissional.
O livro Experiências diante da Saúde Mental na Infância apresenta contribuições de diferentes olhares profissionais e caminhos terapêuticos ao olhar as questões de saúde mental infanto-juvenil. Apresenta um repertório de relatos de experiências de profissionais das áreas da Pedagogia, Psicopedagogia, Neuropsicologia, Psicanálise, Medicina, Assistência Social, Enfermagem e Nutrição altamente qualificados e experientes, sobre a infância em suas categorizações profissionais.
Criança ou jovem agitado, triste e angustiado, insociável, come demais ou come de menos, apresentam problemas de aprendizagem na escola, talentoso em excesso, tímido e violento: há várias razões para a família ou responsáveis confiar e buscar auxílio de um profissional da saúde ou da educação. Na fase de inocência e da autoconstrução, quais são os comportamentos patológicos e os que não são? O que é da área da saúde ou educação? Onde o sofrimento psíquico começa na criança? Quando e quem consultar e buscar apoio? É necessário, desde cedo, rotular e medicalizar comportamentos atípicos? Essas questões dizem respeito à sociedade como um todo porque refletem nossa relação com a norma, às regras e as diferenças.
Este livro é destinado a familiares e profissionais da educação e da saúde que se interessam pela saúde mental infanto-juvenil, e traz reflexões para o bem-estar físico, mental, social e cultural. Por muitos anos, no exercício de meu ofício como educador e psicanalista, guardo em mim vários depoimentos, entrevistas, observações e dados que serviriam para pesquisas acerca do tema da saúde mental na infância. Portanto, nasce, assim, a obra que o leitor tem em mãos, um conjunto de minhas sensações e as experiências de outros profissionais sensíveis a essa temática a fim de sensibilizar pais, educadores e profissionais da saúde que estejam dispostos a entender a relevância de parcerias e da singularidade de cada contexto familiar e escolar na fase infanto-juvenil.
Agradeço a todos os autores e profissionais que se dispuseram a relatar uma parcela de suas consagradas experiências profissionais que, seguramente, servirão de inspiração no âmbito da saúde e da educação.
Capítulo 1
A SAÚDE MENTAL DA CRIANÇA HOSPITALIZADA
Monise Martins da Silva
Bianca de Cássia Ferreira Silva
Introdução
A infância destaca-se como um período importante na vida de qualquer indivíduo. É nesse ciclo que a criança constrói uma relação com o próprio corpo e com o mundo externo, mediante vivências pessoais, familiares e sociais. Assim sendo, a criança conhece e explora o meio ambiente, e como o assimila, intensificando a sua percepção (RODRIGUES et al., 2015).
Diante dessa percepção, fica explícito que a infância é uma etapa fundamental no desenvolvimento da criança, regadas pelas atividades físicas intensas em que ela será capaz de explorar o conhecimento do ambiente a sua volta. Porém, no transcorrer de seu desenvolvimento, elas passam por momentos de doenças, o que, muitas vezes, pode ser acompanhado de hospitalização (PEREIRA et al., 2018).
Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS) (2002), a prevalência dos transtornos psiquiátricos na infância/adolescência, no mundo, encontra-se entre 10 a 15% no Brasil, pesquisas efetuadas com mais de 3 mil crianças e adolescentes constatou que há uma prevalência de 13% com algum diagnóstico de acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (CUNHA; BORGES; BEZERRA, 2017).
O hospital representa um local desconhecido para as crianças, restrito de praticar atividades, como brincar, sendo um lugar, muitas vezes, de solidão, tristeza e saudade, resultando, assim, em doenças mentais. O trabalho interdisciplinar com a criança e sua família torna o atendimento integrado e humanizado, auxiliando no processo de melhora do cliente (CALVETT; SILVA; GAUER, 2008).
Quando a criança se encontra hospitalizada, ela apresenta três manifestações: a fase do protesto, fase do desespero e, por fim, a fase de desligamento. No decorrer da fase de protesto, as crianças resistem de maneira agressiva à separação dos pais, resultando em choro e grito, tornando como consequência a recusa da atenção de pessoas diferentes. Já na fase de desespero, o choro acaba e a depressão fica perceptível. A criança faz-se menos ativa, com desinteresse por jogos e brincadeiras ou por alimentos e distancia-se dos outros. E, por fim, a fase do desligamento, às vezes, chamada de negação, na qual a criança ajustou-se à perda. Ela faz-se mais distraída nas visitas, brinca e até forma novos relacionamentos, porém superficiais. Contudo esse comportamento é consequência da resignação, e não um sinal de satisfação (WONG, 1999).
O cenário do
