Direitos Trans no Ensino Superior: as normativas sobre Nome Social das Universidades Públicas Federais
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Direitos Trans no Ensino Superior - Vitor Nunes Lages
AUTORA E AUTORES
VITOR NUNES LAGES
Pesquisador em Gênero e Sexualidade. Advogado. Graduado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB).
E-mail: vitornlages@gmail.com.
EVANDRO PIZA DUARTE
Professor de Criminologia na Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em Direito pela Universidade de Brasília (UnB). Integrante do Centro de Estudos sobre Desigualdade e Discriminação (UnB).
E-mail: evandropiza@gmail.com.
MARIA LEO ARARUNA
Travesti. Atriz. Escritora. Pesquisadora em Gênero e Sexualidade. Graduanda em Direito pela Universidade de Brasília (UnB).
E-mail: leoararuna27@gmail.com.
SUMÁRIO
Capa
Folha de Rosto
Créditos
PREFÁCIO
APRESENTAÇÃO
INTRODUÇÃO
CAPÍTULO 1
AOS 18, IMPLORANDO PELO MEU NOME SOCIAL
: JUSTIFICATIVAS E CONTEXTOS JURÍDICOS, POLÍTICOS E SOCIAIS DAS NORMATIVAS UNIVERSITÁRIAS
CAPÍTULO 2
NOMEAÇÃO DO ANORMAL
E OMISSÃO SOBRE O CISTEMA
: DEFINIÇÕES, ABRANGÊNCIA E PROCEDIMENTOS DO DIREITO AO NOME SOCIAL NAS UNIVERSIDADES
CAPÍTULO 3
NOME SOCIAL E OUTROS DIREITOS TRANS: A RELEVÂNCIA DAS NORMATIVAS UNIVERSITÁRIAS DADO O NOVO CENÁRIO JURÍDICO BRASILEIRO PÓS-DECISÃO DO STF DE 2018
CAPÍTULO 4
PARADOXOS DAS DISPUTAS LOCAIS: CONTRADIÇÕES, OMISSÕES E LIMITES PARA PROMOVER O RESPEITO À IDENTIDADE DE GÊNERO NAS UNIVERSIDADES
REFERÊNCIAS
NORMATIVA-MODELO
COLETÂNEA
AS NORMATIVAS SOBRE NOME SOCIAL DAS 63 UNIVERSIDADES PÚBLICAS FEDERAIS BRASILEIRAS
Landmarks
Capa
Folha de Rosto
Página de Créditos
Sumário
Bibliografia
PREFÁCIO
NOME COMO LEMA PESSOAL E DILEMA SOCIAL
Jaqueline Gomes de Jesus
¹
Não há encontro para mim,
Não tenho nome em tua lista,
Não iniciei, sou sem fim...
Anderson Bigode
Herzer, 1982.
O senso comum — que não se restringe ao conhecimento popular — tem o poder de invisibilizar certos temas que, no seu oceano de ideias certas e propostas consolidadas, parecem tão óbvios que sequer mereceriam discussões aprofundadas. Nesse campo cabem, por exemplo, as questões de gênero. A conjuntura política, pautada pelo conservadorismo moral e o extremismo religioso, evidencia isso: criam-se projetos de Lei contra a educação inclusiva que debata gênero, ao mesmo tempo em que se criam espantalhos, como o kit gay
e a mamadeira de piroca
supostamente distribuídos nas escolas; essas ficções visariam proteger crianças de mudanças forçadas
em suas identidades. Essas foram táticas eleitorais baseadas em falácias, preconceito e medo que elegeram parlamentares e chefes do Poder Executivo mundo afora.
Não à toa, logo que o corpo ministerial do Governo Bolsonaro foi consolidado, a Ministra responsável pela pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos
(SIC) salientou, em tom jocoso, que agora no Brasil menino veste azul e menina veste rosa
. Um matiz interessante a se refletir acerca do impacto dessa afirmação foi que, apesar da reação imediata de repúdio por parte significativa da sociedade, muitos não entenderam que a mensagem não visava diretamente a imposição de costumes de moda fundamentados em estereótipos de gênero. O alvo era principalmente uma população cujo nome aqueles que não a reconhecem evitam: a trans.
Pouco se debate o conceito de gênero problematizando a sua confusão com a representação social acerca de sexo biológico (ou pior, quando confundem identidade de gênero com orientação sexual), corrente em nossa cultura. Ademais, geralmente as pessoas discutem questões relativas às pessoas trans a partir de uma perspectiva reducionista, como se as suas particularidades e demandas não dialogassem com dimensões constituintes da própria condição humana, que não se reduz ao horizonte da cisgeneridade.
O nome é outro desses temas geralmente tratados como se fossem óbvios, especialmente no pensamento social que o restringe à burocracia das certidões de nascimento. Entretanto, nomes remetem a dois corpos: um natural, que se apresenta fisicamente, e um corpo político, que fala de si e é lido, não necessariamente como pretende o sujeito daquele corpo. Há pelo menos meio século discutimos, nos movimentos sociais e no meio acadêmico, o quanto as explicações sobre os corpos, calcadas no modelo anatômico-biológico, não são suficientes para abarcar as dimensões culturais e simbólicas das práticas e usos dos corpos (MAUSS, 2011). O mesmo cabe para os nomes.
Vale comentar que, ainda hoje, há quem ache que os problemas das pessoas trans se resumem ao nome com o qual querem ser reconhecidas, ignorando que identidade não é apenas um rótulo, mas um complexo de elementos que incluem reconhecimento, necessariamente interseccionado, do gênero com o qual a pessoa se identifica, cor, etnia, orientação sexual, classe sócio-econômica, et cetera. Quando alguém diz ou escreve o seu nome está comunicando marcadores sociais. O nome, como o corpo, é um anteparo: o nome se incorpora ao corpo, faz parte dele, acentuando ou mascarando sinais.
No Candomblé, durante o processo de iniciação, a/o filha/o de santo (Iaô), ao despertar, não deve ser chamada/o pelo nome de batismo, mas pelo dijina, nome que lhe foi dado (COSSARD, 2004). A matriz de pensamento afro-brasileiro nos remete a uma concepção de mundo, uma épistémè (concepção possível em cada momento histórico acerca da realidade²), na qual a pessoa renasce, como alguém que atende ao seu pleno potencial, e que, portanto, não pode mais ser chamada por um nome que, outrora, foi-lhe atribuído. Esta cosmogonia nos oferece uma chave interpretativa para o que os nomes representam, para além do nível superficial de análise.
No seu entrecruzamento com as questões de gênero, os nomes tornam-se elementos de patente importância na auto e na heteroidentificação dos indivíduos, ainda mais em uma cultura pautada pelo binarismo, como a brasileira: isso é nome de mulher, aquilo é nome de homem
.
Dado esse contexto, refletir sobre o tema dos nomes, e em específico do nome social³, não é uma obviedade, como podem pensar, inclusive, os colegas pesquisadores que não compreendem gênero como um eixo estruturante da sociedade, e acreditam — daí um impacto do senso comum nos usos do conhecimento científico — que resolveram o enigma das variáveis independentes quando seus respondentes marcam, nos questionários, se o seu sexo (SIC) é feminino
ou masculino
(eu me lembro dos meus professores ensinando como confeccionar surveys a partir dessa fórmula ainda na minha graduação em Psicologia, no fim dos Anos 90, e já nessa época eu sentia uma pinicada
, sussurrando que ali faltava algo, ou que havia alguma maneira de extrair mais informações acerca das semelhanças e diferenças entre homens e mulheres, e além). Portanto, se o nome demarca um lugar para o ser nomeado, como é possível negar a violência simbólica intrínseca à prática de se obrigar uma pessoa a adotar um nome com o qual não se identifica? Isto também configuraria um apartheid, nesse caso de gênero.
Abordar o nome social — estratégia política desenvolvida nos anos 90 do século XX pelo movimento social trans — não é uma pauta exclusiva do Direito ou de gestores, é acima de tudo uma política institucional urgente, ainda mais em um país de tradição autoritária e excludente como o Brasil, que somente em 2018, ante à inércia do Poder Legislativo, reconheceu o direito fundamental de pessoas trans à identidade, quando o Supremo Tribunal Federal garantiu a retificação de seus registros civis (nome e sexo nos documentos), sem necessidade de medicalização, intervenções cirúrgicas ou judicialização. Tal decisão foi antecedida por décadas de reivindicações da sociedade civil organizada, de reflexões teóricas, investigações empíricas e posicionamentos organizacionais em prol da despatologização e do fim da tutela sobre as identidades trans, luta ainda em curso.
Posteriormente a esse momento de inflexão, e considerando expansão da política do nome social junto às instituições federais de Ensino Superior, estudos como os que os autores deste livro executam com maestria, ao costurarem as reflexões e experiências de diferentes autores e atores que têm intervindo intelectualmente nesse campo, seja na academia, nas organizações ou nas ruas, configuram-se como imprescindíveis.
Mesmo que desde o advento da Modernidade reconheçamos o sujeito como um criador de signos, e de significados para os signos, o poder de nomear entretanto, ainda não é permitido a todos, quanto mais o de se nomear. Quem nomeia reafirma um poder sobre si. Destarte, na perspectiva colonial, como uma pessoa oriunda de um grupo social historicamente discriminado, a exemplo das pessoas trans, poderia nomear a si mesma? Tal negativa tem por função lembrar quais opressões operam sobre os nossos corpos, antes mesmo de sermos discriminados. Eis um dilema para
