Gênero, Sexualidade e Relacionamento: Discursos Confessionais e Não Confessionais
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Gênero, Sexualidade e Relacionamento - Luiz Carlos Lisboa Gondim
COMITÊ CIENTÍFICO DA COLEÇÃO CIÊNCIAS SOCIAIS
PREFÁCIO
O professor Gondim apresenta neste trabalho os passos evolutivos da questão homem-mulher na vida sexual e relacional de forma muito interessante, esclarecedora e responsável, sem deixar, contudo, de enfatizar o respeito ao próprio ser por parte daqueles que se reconhecem como resultado da criação divina.
Muitos teóricos têm mostrado que a habilidade em se relacionar constitui um importante ingrediente das relações de gênero dentro de um casamento, e isso parece ainda mais relevante no discurso evangélico, talvez porque os evangélicos se consideram guardiões do depósito edênico da igualdade de gêneros. Os pressupostos deste trabalho estão trançados nas categorias relacionamento/sexualidade, objetivando encontrar uma chave para compreensão das relações entre marido e mulher na contemporaneidade. Nesta pesquisa, realizada com 12 casais da Igreja Adventista do Sétimo Dia (Iasd), em Cachoeira (BA), o autor procura perceber os modos como esses casais representam as relações conjugais examinadas nos seus ditos e nos escritos dessa igreja, organizados na forma de periódicos, livros e manuais diversos. A entrevista investigativa e o exame documental foram utilizados visando a uma reflexão contextualizada e moldurada num processo de reconstrução da realidade investigada.
Os achados em documentos e nos ditos regulares das entrevistas cruzaram-se com as ideias de diversos teóricos, na montagem exaustiva de uma grade de análise por categoria de estudo. O resultado revela, entre as diversas descobertas, que a unidade doméstica na Iasd é um lugar de diferentes conotações semânticas, em que a desigualdade opera moderadamente e às vezes fortemente, tornando a submissão feminina fundadora de qualidades negativas; e que a nova paternidade alcançou os lares da Iasd, ainda que imersa num individualismo também próprio das transformações ideológicas da sociedade. A santificação do dia de sábado, entre os adventistas, recebe tons singulares pela sua implicação com a visão de santidade do sexo e a divinização das relações. Muitos casais sentem-se mais inspirados no sábado para resolver suas diferenças, reforçar seus relacionamentos e sua sexualidade. O tema é de considerável importância para produção sobre família no Brasil.
O livro traz outro elemento atrativo das falas dos entrevistados, que desvelam para o leitor o calor de certas intimidades, detalhes que normalmente permanecem em segredo, mesmo quando alguns não conseguem discernir se suas atitudes são positivas ou negativas para a manutenção amical de seus relacionamentos conjugais.
O tema, bem abordado como pesquisa, vai enriquecer o leitor, em particular, e a literatura, em geral, sobre família, atualmente tão carente de bons trabalhos.
Natan Fernandes Silva
Pastor e professor de Teologia – Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia do Instituto Adventista de Ensino do Nordeste. Autor do livro O outro lado da história.
Sumário
1
INTRODUÇÃO 11
1.1 PROPONDO ALGUMAS DISCUSSÕES 11
1.2 O CENÁRIO DA ANÁLISE 15
1.2.1 A Igreja Adventista 15
1.3 COMO O ESTUDO FOI ORGANIZADO 18
1.3.1 A localização 18
1.3.2 Etapas de desenvolvimento do trabalho 19
1.3.3 Participantes 19
1.3.4 Documentos 20
1.3.5 Suposições teóricas 21
2
OLHANDO A LITERATURA E CONSTRUINDO UM OBJETO 25
2.1 ESTUDOS NO ÂMBITO DAS SOCIEDADES EM GERAL 25
2.1.1 Assimetrias relacionais 25
2.1.1.1 Conceitos e preconceitos: um breve histórico 26
2.1.1.2 A nova perspectiva igualitária 28
2.1.1.3 Trabalhos domésticos femininos 29
2.1.1.4 Quando o trabalho é fora do lar 31
2.1.1.5 Pessoas coisificadas e coisas personalizadas 33
2.1.2 Assimetrias sexuais 34
2.1.2.1 Sobre fidelidades 37
2.1.2.2 Imperativo orgástico 38
2.1.2.3 Variações sexuais 40
2.1.2.4 Exigências contemporâneas 43
2.1.2.5 O homem: vítima sexual das mulheres? 45
2.1.2.6 Para além das diferenças de gênero 47
Volto a Touraine e suas ideias: 48
2.2 ESTUDOS NO ÂMBITO DAS COMUNIDADES RELIGIOSAS 49
2.2.1 Assimetrias relacionais 50
2.2.1.1 Ethos evangélico: um dilema entre a igreja e a rua
50
2.2.1.2 Anomias e autonomias: entre masoquismo e/ou histeria 52
2.2.1.3 Ambiguidades nas relações conjugais 53
A autora descortina outras ambiguidades: 54
2.2.2 Assimetrias sexuais 54
2.2.2.1 O dispositivo da individualidade 54
2.2.2.2 Influência da divinização do sexo nas práticas sexuais 57
2.2.2.3 Aparentes desvios da divinização do sexo 58
3
A IGREJA ADVENTISTA E SUAS REPRESENTAÇÕES DE GÊNERO 61
3.1 O GARIMPO DOCUMENTAL 61
3.1.1 Revista Adventista: a divinização dos relacionamentos 62
3.1.2 Revista Ministério: diferenças de gênero 63
3.1.3 Revista Afam: área feminina da Associação Ministerial 64
3.1.4 Revista Diálogo Universitário: as injunções da igreja 65
3.1.5 Lições da escola sabatina: o amor na assimetria dos gêneros 66
3.1.6 Programas na TV Novo Tempo: infidelidades relacionais e sexuais 67
3.1.7 Debate no estudo da lição da escola sabatina: indivíduos no mundo 68
3.1.8 Batismo num culto de adoração 69
3.1.9 Guia para anciãos: o pecado do adultério e as vias de perdão 70
3.1.10 Manual da igreja: pluralidade sobre a permanência da díade 71
3.1.11 Guia para ministros 71
3.1.12 As relações conjugais nos livros de autores da Iasd 72
3.2 O DITO DOS ATORES 78
3.2.1 Questões relacionais 79
3.2.1.1 Práticas assimétricas 79
3.2.1.1.1 Modelação feminina 79
3.2.1.1.2 Ideais nubentes e práticas desiguais, depois de um tempo... 81
3.2.1.2 A rotinização 82
3.2.1.3 O dualismo entre práticas laicas e religiosas 84
3.2.1.4 Práticas igualitárias 85
3.2.1.5 Trabalho doméstico 87
3.2.1.6 O dilema entre um emprego e a educação dos filhos 90
3.2.1.7 A divinização dos relacionamentos 92
3.2.1.8 O significado relacional do dia de sábado 93
3.2.2 Questões da sexualidade 96
3.2.2.1 Frequência das relações 96
3.2.2.2 Variantes do repertório sexual 99
3.2.2.3 Afetividade feminina 103
3.2.2.4 As novas exigências da mulher e o homem vitimado... 105
3.2.2.5 Divinização da sexualidade 107
3.2.2.6 O significado sexual do dia de sábado 110
3.2.2.6.1 Injunções da própria consciência 110
3.2.2.6.2 O sábado como liberdade e como afrodisíaco 111
3.3 RECONSTRUÇÕES SOBRE A DESIGUALDADE ENTRE GÊNEROS NO SEIO DA IASD 112
4
CONSIDERAÇÕES FINAIS 115
REFERÊNCIAS 119
1
INTRODUÇÃO
1.1 PROPONDO ALGUMAS DISCUSSÕES
Este trabalho procura analisar — usando como chave interpretativa as elaborações religiosas da Igreja Adventista do Sétimo Dia (Iasd) acerca das simetrias relacionais e sexuais — como fiéis dessa igreja concebem e representam as relações conjugais. Entendo que essas categorias são instrumentos importantes para melhor compreensão dos achados, para o norteamento e a delimitação da pesquisa, além de funcionar com lentes que facilitam a visão de elementos de igualdade ou desigualdade nos estudos teóricos e no campo de estudo. A pesquisa foi desenvolvida na Iasd localizada em Cachoeira, Bahia, conhecida como Igreja Adventista da Faculdade do Instituto Adventista de Ensino do Nordeste (Iaene).
O interesse por analisar como são elaboradas as representações de gênero no seio da Iasd e quais as suas relações com a construção do modelo de relação de gêneros entre cônjuges dessa igreja ocorreu em virtude da minha experiência como pastor, trabalhando com os casais dessa igreja, realizando palestras, encontros de casais e visitando o lar deles nos últimos 20 anos. Durante esse tempo ouvi muitos casais que me intrigaram com seus dilemas entre o ideal bíblico e a realidade do mundo, com seus discursos sobre relacionamento conjugal, suas perguntas sobre simetrias relacionais e suas inquietações sobre sexualidade. Venho me perguntando há algum tempo sobre o tipo de elo existente entre o aporte teórico¹ produzido pela igreja para os casais e a prática dos seus membros; sobre a conjugalidade em face das individualidades dos que compõem o casal; sobre os ideais de igualdade conjugal que estão por trás das elaborações sobre a mulher e o homem adventistas ideais. Na verdade, enquanto esposo e pastor, caminho entre dois mundos: o da prática e do discurso idealizado e o do homem, estudante, pesquisador, que tenta compreender o que há de singular em tudo isso.
Acreditando que este estudo interessava não apenas aos crentes evangélicos e católicos, mas também ao universo não confessional, parti para uma incursão na relação família/religião/conjugalidade de modo genérico. Considerando a importância do tema e sua atualidade para a produção sobre família no Brasil e para os estudiosos da díade evangélica², a pesquisa de campo ocorreu entre casais pertencentes ao ethos de Capueiroçu, bairro de Cachoeira (BA).
Minha permanência na Faculdade Adventista da Bahia (Fadba) nos últimos 16 anos atuando como professor de filosofia na Faculdade de Teologia tem me propiciado uma aproximação mais densa
e tem enormemente colaborado com a realização do estudo e contribuído para uma interpretação acurada dos fatos observados e para discriminação do que é regular e/ou irregular no comportamento dos casais estudados.
Tento entender nesta obra a configuração das representações dos gêneros, numa estrutura de poder socialmente organizada entre os sexos, e como elas são engendradas no seio dessa igreja³. Ao lado disso, que se delineia aqui como o objetivo principal, junta-se a inquietação acerca dos modos mediante os quais essa instituição realiza atividades de reprodução ou atenuação de possíveis simetrias ou assimetrias nessas relações.
Investigo abordagens sobre simetrias relacionais e sexuais transversalizadas nos conceitos de relacionamento entre casais discutidos nos escritos de Bourdieu (2005), Aboim (2006), Heilborn (1992). Outros autores, como Araújo e Scalon (2005)⁴, interessados no tema da construção social da dominação e dos determinantes culturais das ações dos indivíduos, são importantes na medida em que funcionam como contraponto a essas análises.
Eles informam que, mesmo quando ocorre algum tipo de iniciativa masculina no sentido de transcender sua própria perspectiva de dominação, há como que uma resistência operada pelo meio social. Esses autores revelam também que grande parte dos homens nota como suas relações são marcadas pelos condicionantes culturais e que muitas vezes tenta justificar o seu domínio em função da educação que receberam.
Tais abordagens são de grande valia na tarefa de entender até onde a marca
religiosa é determinante de atitudes e formas de agir dos gêneros. Nesse sentido, ao iniciar a pesquisa junto aos casais, uma questão apresentou-se como uma importante preocupação: como avaliar se as posturas e os valores, sobretudo dos maridos, poderiam ser caracterizados como exclusivamente adventistas? Ou seja, em que medida podemos afirmar que um suposto perfil de dominação seria próprio à denominação religiosa ou se simplesmente estaria reproduzindo um padrão aprendido na sociedade mais ampla. Logo no início da pesquisa, algumas pistas levavam a crer que os adventistas não estavam longe das pressões sociais, apesar de estes estabelecerem, frequentemente, relações exclusivamente intragrupais. Uma possível mudança visando a uma relação menos assimétrica parecia acarretar um enfrentamento de cobranças em seu meio social.
Por outro lado, Biddulph
