Uma produção discursiva do espaço: a literatura regionalista enquanto concepção de um nordeste irremediável
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Uma produção discursiva do espaço - Alcides Mendes S. Jr.
TEMPOS E FORMAS
Aurora. Sétimo andar. O Capibaribe desliza suas águas sujas no outono seco. E mais canoa e homem. Contidas águas mansas prenhes serenadas. O concreto às margens imposto ao manguezal. O cais e o maquinário. Silos de açúcar longes. Prédios dispersos e asfalto. Olinda além vista quase que perene. A paisagem ao redor acena a fatos, relatos e espera. Tudo lega o movimento que é tempo trespassando formas. A vida entre: latejante e perpétua. Tal cenário remete-me a outros, de mesmo chão e d’outra concretude. Reporto-me precisamente a um, que da posse de outras peças constrói mosaico bem mais fluido, cuja memória tem registros e lacunas. O lugar é o mesmo, as formas outras.
À beira do último quartel do século XVIII, um barco em fuga sobre e dentro em um Capibaribe quase imaculado, leva um dito José Gomes, conhecido Cabeleira, a lugar ermo; que muitos havia. Salteador e assassino, temido e odiado; o jovem fora reconhecido na Ponte do Recife. O Palácio do Governador por testemunha: pânico e mortes. Narra-o Franklin Távora (1997), no romance que tem como título a alcunha do bandido. Florescia um novo bairro, de nome Boa Vista. Casas dispersas entreviam ingazeiros, pitombeiras, castanholas, mangueiras, cássias, macaíbas, ubaias, sombreiros, brasis e outras tantas. O manguezal espalhava-se em quilômetros, e as pontes, ainda poucas, emprestavam à cidade uma nobreza rústica... E ao cabeleira, a quem bem cabe ainda história e rio, abrem-se os confins do espaço.
E o espaço é o ponto. O homem forja sedimentos, admira e constrói paisagens, produz histórias, narra geografias. Intervém, destroça e adoece; macula, distorce e cura. Ao depois doura a palavra. O nosso José Gomes vê ao longe terras anchas. Do rio, a vista se perdia em montes. O canoeiro de há pouco, às margens da Aurora não avista o longe. As pontes continuam, não os montes.
Os lugares até certo ponto são perenes; as paisagens são instantes. O Espaço é a junção de ambos. Átimo e latência. Nele estão os tempos de uma forma viva (Santos, 1997). O Recife, separado de si já vão duzentos anos, é ainda ele e muitos outros. Mas eis que esse é somente o nosso exemplo à mão e imediato. O Espaço a que queremos apontar, no entanto, expande-se e atende pelo nome de Nordeste. E é essa a matéria-prima que este percurso encerra: um étimo que vai muito além das suas especificações geográficas, precisamente por ter ganhado ao longo da história o status de um signo que comporta uma ampla gama de conceitos prévios, a torná-lo pretensamente um estigma de representações petrificadas.
A relativização de símbolos maciços é tarefa árdua. Há que haver compleição teórica robusta. Em pano amplo serão pressupostos geográficos e linguísticos a guiar-nos. Mais especificidades históricas, sociológicas, e sobretudo de crítica literária, darão suporte ao argumento e ao roteiro. De modo que se instaure o espaço como um campo móvel, e o discurso como instância ideologicamente produzida. Daí ser possível tomar o homem e o meio como medidas entrecruzadas de ações, consequências, representações e fissuras em um corpo social que insiste afigurar-se simultaneamente coeso, difuso, anômico e movediço.
Mas se a sincronicidade é esta algaravia de formas e cores quase sempre avessa à clareza retórica dos conceitos, nela fluem coetâneos tanto acontecimentos indistintos quanto o que há neles do bolor dos tempos. Nesse sentido, a pesquisa histórica é competente ferramenta de raspagem. À sua ação as múltiplas pátinas aplicadas sobre a descendência vão caindo e deixando entrever as cores primevas dos ancestrais. Até que ao fim nos reste além do totem, a prescrição de sua feitura. Ou, se preferirmos, os tipos específicos da ação discursiva que o engendrou (Orlandi, 1988).
O Nordeste é esta construção. Resulta de um discurso histórico datado e definido; sedimentado ao sabor de intempéries e volições, e disposto em um espaço, que movente, ultrapassa seus rincões e estabelece representações muito além dos seus limites.
Isto posto, em fatura complementar, e de não menor importância, a geografia é o outro desta dupla face, porque toca no cerne da questão primeira: a espacialização regional de um modus vivendi que acabou por ser concebido ao longo do tempo como invariável. E peculiarmente não histórico. O ser nordestino, eivado de caracterizações depreciativas – e mesmo no que pese a toda uma leva de produção contradiscursiva –, ainda hoje goza de estatuto estrutural, e nacional (Silveira, 1984). O que empresta a uma patente não reconhecida tendência nacional a entender a diferença como um valor hierárquico e negativo, um teor de verdade concreta. Falem os determinismos de toda ordem ou a homogeneização discursiva de complexas e diversificadas realidades intrarregionais (Albuquerque Jr., 1999).
É, pois, esse discurso, chamado regionalista (Freyre, 1996) – sendo construção originária de representações e condicionamentos historicamente sedimentados –, que uniformiza a região e institucionaliza o símbolo. O imaginário reina ante o real, e o espaço ganha ares de consumação.
É neste universo pré-moldado que a literatura, com todo seu cabedal de complexidades, ergue-se como voz a um só tempo passiva e dissonante, mas nunca indiferente. Escrutina relações e expõe chagas. Faz conceber-se por Nordeste um outro nordeste douto e miserável; pomposo e abjeto. Prenhe de falácias e famintos. Numa crueza de faca e corte e seu quinhão de amores. E vem nostálgica como a casa da infância: verde, áspera e doce; ou seca e pedregosa, como resquícios de miséria.
E chegamos ao terreno onde verdadeiramente germinam as sementes: o espaço. A ele cabem os valores de resposta à conformação das estruturas em paisagem – a forma mesma em como as coisas se apresentam (Santos, 1997). A ele, os trejeitos sociais da produção e as malhas visíveis do discurso. Ele, a instância em que geografias física e humana coadunam. Mas há também o espaço caudaloso, semovente e obtuso. Aquele das medidas incomensuráveis; do íntimo das coisas e dos homens. Esse baldeia o segredo das formas geométricas e as dimensões incalculáveis de um cômodo vazio. (Bachelard, 2008) Tal espaço é uma casa de espelhos, onde cada imagem comporta um velho abismo. Um rasgo é ruga ou rio, ou ambos. Um anseio é casa e vale ou multidão. Um sonho é nunca o mesmo rosto: serenas lembranças vagas de um castelo, ou descalços pés num vasto campo ermo. Esse espaço é a literatura. O lugar de onde nada falta além do que não resta.
O trato em desvelar velando. Substratos de sujeitos infinitos e estilhaçados. Vozes dissonantes, multiformes e humilhadas. Almas lavradas em tradição, a revolutear-se no tino/desatino dos sobreviventes. O dito regionalismo teve seus fulgores. Bebeu de fontes caudalosas; cunhou obras-primas, outras nem tanto. O nosso escopo abarca três romances: Fogo Morto, de José Lins do Rego ([1943] 1987), Terras do Sem Fim, de Jorge Amado ([1943] 1997), e São Bernardo, de Graciliano Ramos ([1934] 1997). A região partifundida em três espaços: um plano de vivências em perspectiva e carências ensolaradas; a espacialização das subordinações e o interior de almas em conflito, e um discurso altivo e raso penetrando tudo.
* * *
Evoco o Anjo tosco de Paul Klee. Regionalizo-o. E o monumento de palavras fincado ao pé dos mortos, dos escombros; da tempestade a que Walter Benjamin (2020) luziu chamando história. Eis que o Anjo está, e paira. Impele-o à força de um sopro antigo. Cá de baixo não o percebemos. Nossas obras nascem já fadadas. Caídos anjos que somos nem sabemos, que nos espreita em nossos sonhos nossa queda.
AS REFRAÇÕES DO ESPAÇO
O destino de um homem
é estar entre as paredes
e contê-las
Carlos Nejar
Lembro de minha mãe
Que mantinha poços secos
Entre os mares das clavículas
E o resto do corpo era sertão.
Almir Castro Barros
• EM BUSCA DE UMA TEORIA ESPACIAL DA SOCIEDADE
No conjunto de ensaios que compõem o homogêneo e significativo Geografias Pós-Modernas – A Reafirmação do Espaço na Teoria Social Crítica, Edward W. Soja (1993) lança mão no prefácio, que ele chama oportunamente também de pós-escrito, da simultânea e múltipla imagem do Aleph, vislumbrada por Jorge Luis Borges: (...) Nesse instante gigantesco, vi milhões de atos agradáveis ou atrozes; nenhum me assombrou mais que o fato de todos ocuparem o mesmo ponto, sem superposição e sem transparência. O que os meus olhos viram foi simultâneo; o que transcreverei será sucessivo, pois a linguagem o é. Algo, entretanto, registrarei. (Borges, 1986, pp. 132-133 apud Soja, 1993, p. 8) Sendo o Aleph a primeira letra do alfabeto hebraico, composto pelos signos que formam o tetragrama sagrado com que Deus apresentou-se a Moisés, e tendo em vista que deste tetragrama – IHVH –, segundo a mística judaica, emanam todas as letras e todas as significações, entende-se a nomeação de Borges para a sua alegoria do instante infinito. E Soja, a respeito, o que diz é que o dilema do geógrafo diante do espaço construído é mais ou menos o do escritor argentino ante o Aleph: a impossibilidade linguística da descrição simultânea. Posto que, se tudo no mesmo instante existe e atua, à linguagem, como
