A Coisa Mais Certa Da Vida
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Sobre este e-book
A Coisa Mais Certa Da Vida - trata-se de uma bem razoável pesquisa e reflexão, com 100 páginas, onde se assinala que antropologicamente o medo da morte é algo superável.)
A morte é, de longe, a maior força de mobilização da raça humana. Os exércitos marcham em vista da morte dos que vêm ou contra a morte dos que ficam. Sem ela uma só igreja não se teria erigido; sem a morte uma infinidade de deuses estaria, agora, na solidão do nada. Bem como, não fosse a morte, a primeira guerra muito certamente nem se teria começado. Em singela pincelada, podemos perceber o quanto a morte se faz determinante nos roteiros de vida da raça humana.
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A Coisa Mais Certa Da Vida - JOSÉ VALTENO DOS SANTOS
SOBRE O AUTOR
––––––––
Sergipano de Laranjeiras / Sergipe. Concluiu o curso de Letras na Universidade Federal de Sergipe, e bacharelado em Direito na Universidade Federal de Alagoas. Atuou por muitos anos como professor de Literatura Brasileira, e é servidor público.
Tem sua temática visão singela e ao mesmo tempo homônima, plural. Retrata, por necessidade, os ´sim´ e os ´não´, o fim e o aparentemente infindo; o ser humano e os seus mistérios.
SUMÁRIO
––––––––
I – A infância nos desenha por inteiro—————- 07
II – Uma posição afirmativa ante a morte ou para com aqueles que vão sendo castrados pela ela ———————————— 11
III – A morte como fenômeno antropológico ————- 20
3.1 – Dos tipos de morte (física / Psicológica) ————————— 23
3.2 - Causas da morte psicológica ———————- 26
IV – A morte e a história ........... 34
4.1 – Quadro de instrumentos e meios usados pelo poder, para promover morte física —————————36
4.2 - Quadro de instrumentos e meios usados pelo poder, para promover morte psicológica ———————37
V – O pragmatismo muito se alimenta de morte —————— 50
VI – Do flagrante relativismo humano ——————66
VII – A morte e as religiões —————- 69
VIII – A morte é o tema central ———-—78
IX - A saída é bem por aqui ————— 79
X – Considerações finais —————-83
*O cesteiro, na feira, vendia dois tipos de cestos: um simples, apenas de palha trançada, e o outro todo decorado com belas pinturas.
A moça ficou surpresa ao saber que ambos custavam o mesmo preço.
- Eu vendo apenas o cesto. - respondeu o cesteiro – A beleza é grátis.
(Anônimo)
A INFÂNCIA NOS DESENHA POR INTEIRO
––––––––
No fim da adolescência, foi que vim a ler A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, do francês Júlio (Jules) Verne. Tal me aliviou a incrível dor do medo da morte que eu sentia. E nisso mora muito da motivação por que, ora, me disponho a escrever este texto acerca de tema tão insólito para tantos – a morte. Eu nasci e cresci na zona rural e, porque tinha medo de ficar em casa com os meus irmãos mais novos que naquela hora já roncavam, quando alguém falecia, eu era levado por minha mãe muitas noites aos velórios da circunvizinhança, desde bem antes da adolescência. Lá, eu via, extasiado, as tantas pessoas beberem o morto
(as cachaças muitas servidas), enquanto vários parentes e aderentes do defunto choravam copiosamente – tudo isso se constituindo em enredo confuso, por demais tenso, cenário sobremaneira mórbido; inclusive, em face da inexplicável animação dos que já se faziam dominados pela bebida alcóolica. Parecia-me aquilo algo inconciliável: bêbados alegres e falando alto, e até escandalosos, ao lado de pessoas tristes e chorosas e de um corpo duro dentro de um caixão gélido. Nas primeiras vezes, até por curiosidade, fui ver o morto lá no esquife, o que muito certamente ajudou a cristalizar o meu horror por aquelas imagens; e nunca mais me aproximei do caixão ou me deixei atrair por curiosidades fúnebres, como sepultamentos e missas de corpo presente.
Eram fins da década de 1970. Um detalhe relevante, talvez até possa eu dizê-lo determinante, para a configuração da estrutura psicológica que aquelas imagens firmaram na criança que eu era e no adolescente que seguir sendo, fora não haver ainda instalações de energia elétrica naquele povoado onde em nasci e cresci. As casas eram turvas, as ruas muitos escuras - salvo em noites de lua cheia. As estradas e caminhos para os velórios na vizinhança eram um breu e sempre assustadores. Tudo era mal iluminado, especialmente nos velórios. Qualquer estalo ou gafanhoto que se mexesse nas palhas das bananeiras pelas estradas era já o rufar de um maldito lobisomem, de uma mula-sem-cabeça. Todo o ambiente nos velórios era sombreado pelas luzes de candeeiros e de lampiões, e rajadas de ventania comumente concorriam para apagar um ou outro candeeiro, dando susto em alguns e tornando o velório mais chocante. E o mais contundente era que também as velas acesas nas imediações do caixão onde se estendia o defunto passavam pelo mesmo processo, por vezes, apagando-se e insinuando aos mais medrosos ali presentes que as mesmas poderiam ter sido sopradas pelo morto. Por diversas vezes, arrepiado, refleti nisso. Não foram poucas as vezes em que uma vela se apagou e, ao terminar de ser reacendida por alguém, tornou a se apagar, gerando comentários pouco engraçados entre os presentes, e até mesmo brincadeiras desrespeitosas com a figura do morto. Numa dessas vezes, escutei: O ´fulano´ está apagando a luz, porque gosta muito do escuro. O que é que ele ainda está querendo?
A seguir, o velório emudecia-se por alguns minutos.
Assim, longe de qualquer toque de racionalidade, como a esmagadora maioria das pessoas, fui desenvolvendo um asco e um pavor tão somente pela imagem da morte, pois a só ideia de que ela viria me deixava completamente descompassado, aturdido e sensivelmente abatido; tendo por diversas vezes chorado e / ou ficado nervoso a ponto de pessoas próximas me indagarem: o que você tem?
Obviamente, eu me saía com evasivas.
Todos sabemos, por análise teórica ou por sofrimento pessoal, que a morte manipula a vida. A espécie humana movimenta-se e vive mais para aproveitar ao máximo antes que lhe venha a morte ou minimamente aproveita o viver com receio de que alguma contusão ou acidente lhe aproxime mais cedo dela. Ou, ainda, não vive uma vida normal, devido à ocorrência de afetações psíquicas decorrentes do passamento de uma pessoa próxima. A morte, poderíamos dizer, é a imagem mais forte para a escancarada maioria de nós humanos; assim como, no mundo capitalista industrial, nada a priori supera a simbológica do ter, com todas as suas tantas derivadas nuanças de morticínios, mas também de prazeres e de pseudo felicidades.
Portanto, parecendo um ser desprovido de qualquer domínio de racionalidade, transitava eu pelas terras sergipanas como um já morto ainda em vida, um sofredor permanente. Parecia mesmo alucinação. Na missa, falava-se em morte – lá, para mim, era um sofrimento. Na bodega de S. João, aonde eu muito ia à noite, falava-se de tudo; da morte quase sempre – ali, só ouvidos, eu suava frio e de lá já não saía com medo de ir sozinho para casa.
As pessoas da Mussuca – o outro povoado um tanto distante de Várzeas, onde eu nasci e morava – morriam muito com facadas, com foiçadas e com outras armas brancas; e, embora lá houvesse cemitério, os parentes dos mortos tinham que vir comprar o caixão na cidade, em Laranjeiras, e passavam por dentro da única via do povoado em que eu morava. Desse modo também o tema morte se fazia recorrente, deixando-me como que em constante estado de depressão. Mussuca (curiosamente, então, somente habitado por negros), segundo relatos da minha avó materna, era um vilarejo que veio a se formar nas extremidades da Fazenda Pilar (Laranjeiras/Sergipe), onde os antepassados daqueles habitantes dos tempos da minha infância trabalharam como escravos nos engenhos, na produção de cana-de-açúcar; e, vinda a Lei Áurea, teriam sido expulsos da fazendas próximas como inúteis e se alojado naquele trecho de mata atlântica – onde lá foram dando forma a algo semelhante a um clã, até chegarem ao status de povoado. Alguns corpos da Mussuca também passavam pelo Povoado Várzea, para serem enterrados nos cemitérios de Laranjeiras; não sei por que, se lá de onde eles eram trazidos havia lugar próprio. Eu pensava sempre e monologava, solitário, sobre essa nuança.
Cada morto que passava era matéria-prima para muitos meses da minha agonia e íntima depressão. Mas eis que lá pelas tantas da adolescência eu lanço mão de Verne e leio o seu livro. Deu-se em mim alguma coisa de instantâneo. Antes de eu terminar por inteiro a leitura do livro acima referido já estava revendo tudo sobre a morte e vendo-a diferentemente; por conseguinte, já me fazia menos afetado, a morte passava então de um monstro cruel para uma plataforma óbvia e humana. Eu, após a leitura de A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, converti-me de objeto-alvo permanente da ex-megera morte para um ser que se entendia ter nascido com cérebro, por isso já me sentia capaz o bastante para me fazer superior a toda pequenez que nos constitua apenas emoção, e nos carregue para além ou para aquém da suprema e magnânima realidade. Nenhum ser, nenhum de nós tem o direito, em estado normal e regular, de fazer-se arredio à busca de transformação da realidade que nos afeta e aflige; nem, por outro lado, de reflexivamente desconhecer, em atitudes e em atos, a magnitude da força da realidade que se apresenta superior a nós, e que não há como dela desvencilhar-nos. Pronto. Nos primeiros dias da leitura do livro de Verne eu não via a morte como uma rocha ao meu favor, porém passara ela a ser uma aeronave comigo, paralela a mim e não mais um dragão de outro planeta como antes. E dali infinitas reflexões a respeito foram plantadas, e brotaram e foram colhidas e replantadas, e de novo brotaram.
Como isso se decorou dentro de mim, e tão bruscamente? Eu vivia, então, como um ´espantalho´, fugindo do tema morte. Em certo trecho do livro, cujo enredo trata da viagem em volta de todos os continentes do velho cavalheiro burguês Phileas Fogg na antepenúltima década do século XIX, considerando-se os escassos meios de transporte até então disponíveis, Júlio Verne narra da passagem do viajante e personagem principal por uma província onde se velava o corpo de um nobre, em torno do qual choravam muitas carpideiras que, ali, faziam por merecer uma ínfima remuneração, muito certamente.
O ali narrado: o fato de eu imaginar
