Vida e obras de Alberto Caeiro
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E acrescenta, invejando-lhe seguramente a sorte de não ter sido obrigado, como ele, à escravatura de um ganhã-pão: "Deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos". Aduante, comenta: "Pus em Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática." Para entender a poesia de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, impõe-se integrá-la no projecto pessoano do Neopaganismo Português e dos seus cultores: Ricardo Reis, o poeta, Alberto Caeiro, a sua consubstanciação, segundo declaração de Pessoa, e António Mora, o seu teórico em prosa (sociólogo e filósofo). Os três "livros" de Caeiro, nesta obra considerados e assim por Pessoa chamados e previstos, dão notíca dessa vida sem acontecimentos, excepto a "doença" do espisósio amoroso: o segundo "livro", composto por nove poemas.
Também o terceiro "livro", "Andaime – Poemas Inconjuntos", segue, como um diário, a evolução de uma doença, neste caso a tuberculose, que o vitimou. "O título Vida e obras nunca foi usado por nenhum editor. Resgatei os poemas das deformações que têm sofrido e articulei diferentemente os poemas do último "livro", atendendo não às suas datas reais mas à evolução ficcional da vida e obra do Mestre. (Teresa Rita Lopes)
Fernando Pessoa
Nasceu em Lisboa, em 13 de Junho de 1888, local onde viria a falecer em 30 de Novembro de 1935. Em criança foi, após a morte do pai, com a família para a África do Sul, regressando a Lisboa em 1905, onde se matriculou no Curso Superior de Letras que nunca chegaria a acabar. Para sobreviver, fazia traduções e redigia cartas em inglês e francês para empresas portuguesas, fazendo a sua estreia na revista A Águia, em 1912. Em 1915, lança, com Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros, entre outros, a revista Orpheu, que dá origem ao Modernismo em Portugal. Criou uma tipografia, Ibis, e uma editora e agência, Olisipo, sem sucesso. Fernando Pessoa foi Ele-mesmo e muitos outros poetas ao mesmo tempo. Foi, acima de tudo, um dos maiores poetas da língua portuguesa e da literatura universal.
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Vida e obras de Alberto Caeiro - Fernando Pessoa
Vida e obras de Alberto Caeiro
Fernando Pessoa
**
Edição Teresa Rita Lopes
***
1ª edição digital
São Paulo
2017
logoglobalazul.jpgFP_ass_FP.jpgAlbertoCaeiro.jpgPreâmbulo de Teresa Rita Lopes
A incompreensão reinante da obra de Pessoa, apesar da sua notoriedade, vem sobretudo de que é lida só pelo que ali está diante dos nossos olhos, sem atender ao todo em que palpita vida, como organismo vivo que é. Pessoa gostava de citar Aristóteles: «O poema é um animal». E o mesmo direi de toda a sua obra, em que cada órgão interage com todos os outros.
Imaginem quantos milhares de milhões de poetas não têm vazado os seus sentimentos e emoções em montanhas de versos, posterior entulho no girante planeta em que aconteceram. A obra de qualquer criador só sobrevive à sua circunstância quando tem a inteireza orgânica da pessoana. Não é por ter tido centenas de «heterónimos» que Pessoa é diferente (como alguns querem fazer crer, sempre a acrescentar novos nomes à lista), mas por ter sido um ser excepcional, em que o saber longa e incansavelmente adquirido se aliou à natural intuição a que chamava génio (preço, achava ele, da sua gémea loucura).
Como qualquer outro génio dos que fazem avançar o conhecimento humano, Galileu ou Einstein, Pessoa foi, desde tenra idade, um estudioso compulsivo em todos os domínios do saber. Como esperar que ele seja entendido por ignaros comentadores, seduzidos pela voga pessoana, ou por exegetas carrilados em consagrados chavões, seguindo rotas preestabelecidas, pseudocientíficas?!
No regresso a Portugal, o jovem Pessoa impôs-se a obrigação de ler todos os dias filósofos e poetas, com a declarada intenção de compensar, com a leitura destes, a tendência daqueles a sistematizar o pensamento e a eleger os seus sistemas como verdade única – atitude dogmática que toda a vida combateu. Ao conhecimento das Humanidades, longamente praticado no excelente liceu de Durban, com prestigiados mestres ingleses, acrescentou Pessoa, como autodidacta, tudo o que no regresso a Portugal, com 17 anos, se impôs adquirir, frequentando regularmente a Biblioteca Nacional e a da Academia das Ciências, sobretudo. Além disso, conseguia manter-se a par do que se ia editando no Ocidente, sobretudo em França e na Inglaterra, adquirindo, com seus parcos haveres, todos os livros que podia, como mostra a sua biblioteca, hoje na Casa Pessoa (onde faltam algumas obras que vendeu depois de as ter lido, para poder comprar outras).
Há muito que venho dizendo que não se pode ler Pessoa como se lê poesia ou prosa de outro qualquer escritor, que os seus textos só serão totalmente entendidos, e assim fruídos, se inseridos no amplo romance-drama (como lhe venho chamando) que é a obra pessoana: cada autor como uma ficção e, todos juntos, como outra ainda, a mais completa. Ler, sem mais, avulsamente, um texto pessoano, ou de qualquer um dos seus «outros», pode proporcionar o mesmo gosto que experimentaríamos se não conhecêssemos nada de Shakespeare e lêssemos, numa folha solta, a fala de uma das suas personagens. Mas para amplamente fruirmos o que lemos, com sensibilidade e inteligência, teremos que inserir esse texto no romance-drama a que pertence, e no jogo dramático das suas personagens.
Agora que acabo de dar, pela segunda ou terceira vez, a volta ao planeta Pessoa, disposta a deixar em obras consultáveis o Pessoa que entrevi durante o convívio de uma vida, permito-me alguns «palpites» para esse pleno alcance:
– entender de que magma de conhecimentos surgiu o texto em curso;
– ter também a inteligência do projecto em que cada texto está inserido, lembrando que Pessoa era orientado pelo ideal de ser um «criador de civilização», inspirador desses planos.
No caso da obra de Caeiro, importa levar sempre em conta que este autor-personagem foi encarregado de um projecto civilizacional grandioso: participar na reconstrução do «Novo Paganismo», também chamado «Neopaganismo», «Paganismo Superior» e até «Transcendental» – uma «Nova Renascença», não só para Portugal mas para todo o Ocidente adoecido pelo Cristismo (como lhe chamavam os neopagãos pessoanos). Essa «cura» estendia-se a Pessoa, a Campos e a todos «os doentes» (assim apelidados no terceiro «esquema» apresentado, texto nº 9 de Anexos, p. 241): os Saudosistas, em cujas hostes Pessoa começou por ingressar, como colaborador da Águia, e também os Interseccionistas e Sensacionistas, seguidores dos ismos lançados por ele e por Mário de Sá-Carneiro – de que Orpheu é palco.
Lembremos que o Novo Paganismo se alicerçava não apenas numa filosofia mas também numa estética e numa ética. Pessoa e os outros teóricos do Neopaganismo, Ricardo Reis e António Mora, fizeram, contudo, questão de tomar distância de outros movimentos contemporâneos e de todos os autores que então se reclamavam do Paganismo, evidenciando a sua originalidade. Há que levar em conta, antes de mais, que Pessoa cedo decidiu ser um «criador de civilização» – disse também «de cultura». E isso já em Durban, quando descobriu que aquela gente nada sabia de Portugal, e até nos confundia com a Espanha: começou, então, a traduzir Os Lusíadas para inglês e a fazer um ensaio para dar a conhecer Vasco da Gama aos seus conterrâneos, que desconheciam dever-lhe a descoberta daquelas terras e até o nome da província Natal (precisamente por ele lá ter aportado nesse dia).
Vem dessa época o «nacionalismo místico» que Pessoa se auto-atribuiu, em 1915, numa carta ao amigo dos tempos de Orpheu, Armando Côrtes-Rodrigues. Ao chegar a Portugal, esse sentido de missão agudizou-se. A sua avidez de conhecer conduziu-o a uma ciência emergente, a sociologia, em que se quis especializar. Escrevia a esse nomeado amigo que, nos últimos tempos, só fizera «sociologia e desassossego». E o Espólio (pessoano) está repleto de textos encimados pela designação: «Sociologia», «Sociologia Política» e também «Sociologia Literária». Não esquecer que, simultaneamente, devorava livros sobre religiões – todas. E história também. E ciências, ocultas e a descoberto, consagradas e emergentes, como a sociologia e as ciências da psique: psiquiatria e, já então, psicanálise.
O Cristianismo, assim como o Judaísmo, foram objecto do seu atento estudo e vasta reflexão escrita, não só em seu próprio nome mas também com a assinatura do teórico, em prosa, do Neopaganismo: o filósofo e sociólogo (à semelhança do seu criador) António Mora.
O judeu que interiormente assumiu ser, no seu regresso a Portugal, em contacto com a família judia de Tavira, de judeus não baptizados, maçons e republicanos, também deve ter contribuído para a porfiada «cruzada» de toda a sua vida contra a Igreja de Roma (como lhe chamava).
Perante a Decadência característica da sua época, assim por ele diagnosticada, o jovem Pessoa reagiu de duas opostas maneiras:
1ª: decidindo assumi-la, artisticamente, requintá-la, à maneira dos Decadentistas franceses – todo o seu primeiro Livro do Desassossego é disso exemplo, assim como a maior parte dos poemas e prosas poéticas dos colaboradores de Orpheu. E também o primeiro Álvaro de Campos, o de «Opiário» (composto já depois da futurista «Ode Triunfal» – para mostrar como era Campos antes de se tornar discípulo de Caeiro, disse ele, e, acrescento eu, da sua poesia moderna, livre da métrica e da rima);
2ª: opondo-se-lhe, procurando a sua causa, o Cristianismo, dito por ele Cristismo, e combatendo-a de dois diferentes modos: enxotando-a histericamente, com a moderna escola futurista no horizonte, à maneira de Campos, virado episodicamente para o futuro, ou voltando-se duradouramente para o passado helénico, propondo uma repaganização do Ocidente. Pessoa escreveu que se tinha livrado da influência do Decadentismo lendo La Dégénérescence, de Max Nordau, e fazendo ginástica sueca. O Futurismo funcionou episodicamente como esse vigoroso estímulo. Foi assim que, ao mesmo tempo que deu vida aos dois sucessivos Campos, o Poeta Decadente e o Futurista autor das «grandes Odes» (por ele, mais tarde, assim chamadas), Pessoa se dedicou de corpo e alma a essa religião de faz-de-conta, o Novo Paganismo («metafísica recreativa» tornada «religião individual», como escreveu), destinada a combater o Cristismo.
Curiosamente, o Sensacionismo de Campos alinhou temporariamente com este novo ismo, o Neopaganismo. (Veja-se o segundo esquema, «O Regresso dos Deuses», de que a obra «Acessórios», de Campos, seria a terceira parte.) A sua avidez por «sentir tudo de todas as maneiras», «ser toda a gente e toda a parte», predispunha-o a aceitar a proposta repaganização do Ocidente. O objectivo deste novo ismo é declaradamente aceitar «todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos – fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior».¹
Este Paganismo não era apenas uma nova escola literária, como o Paulismo e Interseccionismo concebidos por Pessoa e Sá-Carneiro: tinha um ideal que Pessoa enunciou nestes termos: «Criar em Portugal o sentimento de uma missão civilizadora».²
Por isso, o Paulismo e Interseccionismo passaram rapidamente – por não passarem de escolas de herança decadentista, desafios passageiros como o Futurismo, enquanto o Neopaganismo ainda dava nome, dez anos mais tarde, à revista Athena. Até lá, foi este ideal (que era mais que um ismo) inspirando grandiosos projectos ao «criador de cultura» que Pessoa sempre disse querer ser. À pergunta que se fazia: «Quem somos actualmente?», respondia Pessoa com os seus projectos para uma «Nova Renascença», assim chamada por ele e pelos seus neopagãos.
Fui convocada, durante o ano de 2015, para algumas das muitas comemorações do centenário de Orpheu, em que inevitavelmente se remastigaram ideias feitas (e em grande parte erradas) sobre a consagrada revista, palco dos ismos da juvenil aventura estética que Pessoa empreendeu com Sá-Carneiro. Claro que é sempre interessante analisá-los, a eles e aos seus cultores e à sua circunstância, mas sem perder de vista que os criadores que a ela sobreviveram, culturalmente falando, o devem ao individual talento que desses ismos transborda. Uma reflexão a propósito: é-nos penoso, por vezes, levar a cabo muitos textos do primeiro Livro do Desassossego pelo excessivo tributo pago pelo seu autor ao Decadentismo, mas o mesmo nunca sucede com os poemas de Caeiro e Reis, absolutamente seus contemporâneos. Impõe-se recordar que aos ismos de Orpheu, inseridos por Pessoa na designação global de Escola Sensacionista (que apresentou, num artigo, na revista Exílio, de 1916), se opôs frontalmente um novo ismo, o Novo Paganismo, para que Pessoa imaginou uns contemporâneos «cadernos de reacção pagã», que já encarava baptizar com o título que só dez anos depois usaria, Athena. Se tivessem aparecido, imagino que não teriam sido apreciados nem compreendidos mas relativizariam Orpheu, opondo-se-lhe, com a mesma interacção dramática que Ricardo Reis sempre manteve com Álvaro de Campos, em verso e prosa – e entenderíamos melhor tanto Orpheu como o Neopaganismo.
Impõe-se, pois, saber que Alberto Caeiro, o metafórico Guardador de Rebanhos ficcionado como um quase iletrado, é fruto do longo estudo que Pessoa prosseguiu desde o seu regresso a Portugal, não só em convívio quotidiano com numerosos filósofos (o que, aliás, já vinha fazendo em Durban) mas com obras dessa disciplina emergente, a sociologia, em que porfiou ser especialista. Num documento com data de 1910, quando ainda só quase escrevia em inglês, Pessoa iniciou uma obra longamente prosseguida, posteriormente em português, «História de uma Ditadura», fruto precisamente do seu labor como sociólogo: tentou contar a história da longa doença que atacara o Ocidente desde a instalação do Cristismo, fruto ele próprio de três decadências – frisou ele: da Grécia, de Roma e do Judaísmo.
Essa obra foi simultânea de outras duas, enunciadas como «Bases para uma constituição republicana» e «Ieschú ben Pandira» (hesita, às vezes, em qual delas deve incluir os escritos, que, nesse âmbito, vai produzindo); nesta última, nega, à luz do Talmude, que longamente estudou, a existência histórica de Jesus.
O que Pessoa pretendia não era negar o direito à existência de Cristo como Deus: aceitava-o mas apenas como um entre os muitos deuses pagãos – Reis claramente o disse num poema. Através dos referidos textos em prosa, Pessoa e os seus correligionários neopagãos pretendem mostrar que a ditadura da «Igreja de Roma só tem criado, ao longo da história, intolerância e fanatismo, dando como principal exemplo a abominada Inquisição. (É claro que a sua ascendência judaica tornava visceral essa aversão.)
À luz desses textos sociológicos, Pessoa diagnosticava no imaginário português
