Revista Continente Multicultural #262: Beleza, essa ficção social
De Cepe (Editor), Janio Santos, Hana Luzia e
()
Sobre este e-book
Em sua participação no debate público, Chico Bosco tem buscado ser uma voz "desapaixonada", ao procurar analisar nossa realidade sem a motivação militante e com muito senso crítico. Este, afirma o filósofo, seria o papel do intelectual. Na consistente conversa que teve com a nossa repórter especial Débora Nascimento, ele enfatizou a importância desta disposição e chamou atenção às dificuldades que temos tido para encarar os dissensos, vivendo no que ele indica como lógica de grupo. Quem não tem passado por isso? Eis uma entrevista, portanto, que atravessa este momento político infeliz no país e que vale como bússola para nossas relações.
O esforço intelectual e crítico também está presente em nossa reportagem de capa do mês, assinada pela jornalista Erika Muniz, que articula um pensamento em torno da construção social dos padrões de beleza e suas consequências sobre os corpos, sobretudo de mulheres cis e trans. Tomando o Brasil como contexto principal, mas considerando o paradigma eurocêntrico ocidental, o texto reúne depoimentos contundentes de pesquisadoras e profissionais que trabalham com o tema nas áreas de sociologia, artes, história, comunicação, pedagogia, medicina, psicologia e da própria estética. Com a reportagem, aprendemos o quanto a questão beleza atravessa as aparências e performances, mas esconde um sistema de normatizações profundo vinculado a mecanismos de poder que oprimem a diversidade das vidas que não se encaixam "no padrão hegemônico do homem branco, cristão, heterossexual, burguês, sem deficiências e magro como medida de todas as 'coisas'".
A reportagem traz ainda referências da literatura e das artes, texto que ganha novas camadas com as ilustrações da artista Flávia Bomfim, que foi nosso Portfólio na edição 259, de julho.
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Revista Continente Multicultural #262 - Cepe
Dissensos sem paixão
Enquanto escrevemos este editorial, ainda é setembro e as definições das eleições não chegaram. Sabemos o quanto são diferentes as perspectivas para o Brasil, de acordo com o resultado do pleito. Sabemos também que a nossa contribuição para as mudanças que desejamos não termina no voto, sequer nas polarizações que temos vivido. Um dos intelectuais que têm se dedicado a pensar e discutir a respeito disso é o carioca Francisco Bosco, nosso entrevistado deste mês.
Em sua participação no debate público, Chico Bosco tem buscado ser uma voz desapaixonada
, ao procurar analisar nossa realidade sem a motivação militante e com muito senso crítico. Este, afirma o filósofo, seria o papel do intelectual. Na consistente conversa que teve com a nossa repórter especial Débora Nascimento, ele enfatizou a importância desta disposição e chamou atenção às dificuldades que temos tido para encarar os dissensos, vivendo no que ele indica como lógica de grupo. Quem não tem passado por isso? Eis uma entrevista, portanto, que atravessa este momento político infeliz no país e que vale como bússola para nossas relações.
O esforço intelectual e crítico também está presente em nossa reportagem de capa do mês, assinada pela jornalista Erika Muniz, que articula um pensamento em torno da construção social dos padrões de beleza e suas consequências sobre os corpos, sobretudo de mulheres cis e trans. Tomando o Brasil como contexto principal, mas considerando o paradigma eurocêntrico ocidental, o texto reúne depoimentos contundentes de pesquisadoras e profissionais que trabalham com o tema nas áreas de sociologia, artes, história, comunicação, pedagogia, medicina, psicologia e da própria estética. Com a reportagem, aprendemos o quanto a questão beleza atravessa as aparências e performances, mas esconde um sistema de normatizações profundo vinculado a mecanismos de poder que oprimem a diversidade das vidas que não se encaixam no padrão hegemônico do homem branco, cristão, heterossexual, burguês, sem deficiências e magro como medida de todas as ‘coisas’
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A reportagem traz ainda referências da literatura e das artes, texto que ganha novas camadas com as ilustrações da artista Flávia Bomfim, que foi nosso Portfólio na edição 259, de julho.
Nossa capa: ilustração Flávia Bomfim.
FRANCISCO BOSCO
ESTÁ TODO MUNDO COM MEDO DE PENSAR FORA DA LÓGICA DE GRUPO
Filósofo e ensaísta carioca, autor de O diálogo possível, conversa, entre outros temas, sobre o papel dos intelectuais no debate público, a polarização na política nacional e a crise mundial das democracias
TEXto DÉBORA NASCIMENTO
bel pedrosa/divulgação
Em 1976, enquanto o Brasil estava ainda sob o manto opressor da ditadura militar, João Bosco lançava o disco Galos de briga, que sedimentava seu nome como respeitável novo compositor da Música Popular Brasileira. Naquele mesmo ano, nascia o primeiro de seus dois filhos, Francisco de Castro Mucci. Chico tinha apenas três anos quando uma composição de seu pai (em parceria com Aldir Blanc), O bêbado e a equilibrista, na voz de Elis Regina, era o tema não oficial da Anistia, no regresso dos exilados ao país, em meio ao processo de abertura política que viria desaguar no início da Nova República, em 1985.
Pouco mais de 40 anos depois, quando parece que o Brasil está seguindo o caminho inverso ao da democratização, o filósofo e ensaísta Francisco Bosco se tornou um dos requisitados intérpretes da realidade brasileira e hoje fala sobre o fim da Nova República. Para ele, estamos em um limbo histórico, ainda sem denominação exata, com o agravante de estarmos com a nossa jovem democracia ameaçada. O autor lançou recentemente seu 11º livro, O diálogo possível (Todavia), no qual analisa este período conturbado em que a palavra polarização ocupa, em substantivo e ação, os discursos políticos e as redes sociais digitais. É como se figuras tão antagônicas, quanto o bêbado
e a equilibrista
, estivessem em polos cada vez mais distantes.
A trajetória cumprida por Chico Bosco – como é mais comumente chamado – para se tornar intelectual começou, sem ele perceber, ainda na juventude. Sob a influência do pai, gostava de música, mas ainda mais de literatura. Vivia cercado por livros. Essa paixão o levou ao curso de Jornalismo. Segundo ele, foi a profissão que se mostrou mais próxima da leitura e do conhecimento. Ao mesmo tempo, era uma profissão socialmente reconhecida e que, naquela época, parecia propiciar uma carreira profissional e materialmente digna
, conta, nesta entrevista à Continente. Durante o curso na Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), foi aprofundando o interesse por estudos de teoria literária e filosofia e traçou o plano de ter uma carreira acadêmica como professor. Fez mestrado e doutorado em Teoria Literária na UFRJ. Durante três anos, deu aulas dessa disciplina e de Filosofia em faculdades particulares. Paralelamente a tudo isso, compôs e lançou canções com seu pai, muitas das quais tem orgulho da criação.
Para ele, a música é uma derivação do interesse por cultura brasileira e literatura. Ela (a música) nunca foi o centro da minha atividade. O centro da minha atividade é o ensaísmo, que pode se manifestar tanto por escrito como falado. Eu deixei de ser professor universitário, mas nunca deixei de dar aulas. Passei minha vida toda dando aula, dando palestra, conferência, grupos de estudo, essas coisas
, relata.
Francisco passou a interpretar a realidade e a sociedade através de textos publicados na imprensa, nos seus livros e no Papo de Segunda (GNT), programa televisivo onde, desde março de 2018, toda segunda-feira, reúne-se, com o ator João Vicente, o rapper Emicida e o apresentador Fábio Porchat para discutir temas atuais. O programa é um dos mais assistidos do canal, preenchendo uma lacuna de debates de qualidade na TV e contribuindo para projetar seu nome nacionalmente, devido à sua capacidade de elaborar análises sobre os assuntos mais diversos. Hoje eu estou na televisão exercendo o que considero alguma coisa que é da ordem do ensaio, da aula, da intervenção do intelectual público
, pontua.
O pensador carioca, que foi brevemente presidente da Funarte entre 2015 e 2016 (com o impeachment de Dilma Rousseff, entregou o cargo), se tornou o que ele denomina de "intelectual público freelancer". Em O diálogo possível, inclusive, ele destaca uma frase do filósofo Paulo Arantes: Intelectual é aquele que não adere
. Por conta da prática desse lema, nem tudo são aplausos na sua carreira. Francisco, vez ou outra, se vê alvo de críticas - quando, por exemplo, lançou o documentário O mês que não terminou (2019), sobre as manifestações de junho de 2013, e o livro A vítima tem sempre razão? – O novo espaço público brasileiro (Todavia, 2017), no qual avalia, sob outra perspectiva, fatos que geraram polêmicas nas redes sociais. Acho que o papel do intelectual público, de certa forma, é até o contrário (à aderência). É mais o de instaurar complexidade na vida política social, de forma a não permitir que certos movimentos se tornem demasiadamente coesos a ponto de funcionarem como forças de intimidação. Então, o papel do intelectual público é o de destilar complexidade
, observa.
Nesta entrevista à Continente, ele fala, com muito zelo, sobre algumas das questões que compõem o novo livro. Analisa temas como as lógicas de grupo, a polarização política, a crise das democracias liberais, os governos do PT e do PSDB, a relação entre Olavo de Carvalho e o bolsonarismo, o impeachment ilegítimo de Dilma Rousseff, a ambiguidade de junho de 2013, o avanço das pautas dos evangélicos, a diferença entre o papel dos intelectuais e da militância. E em todas as respostas, Francisco Bosco demonstra ser uma das vozes guias para ajudar o país a sair dessa transversal do tempo.
CONTINENTE Queria começar pelo título, O diálogo possível. Alguma vez o diálogo foi possível no Brasil?
FRANCISCO BOSCO Vou te contar uma história curiosa sobre esse título, que eu ainda não tinha contado publicamente. Esse livro demorou uns três ou quatro anos para ser feito. Fui pesquisando, escrevendo e, ao longo desse processo, ele tinha outros títulos. Mas, quando fui lançar, o meu editor, Flávio Moura, da Todavia, com o qual trabalhei no Instituto Moreira Salles e tenho muita confiança, sugeriu esse título. Na leitura dele, essa dimensão do diálogo era muito central e eu acatei. Mas isso produziu um efeito sobre a recepção do livro. Porque entendo esse livro da seguinte maneira: ele tem uma premissa que eu chamaria de premissa epistêmica. Ou seja, sobre a forma como o debate público hoje funciona. E a tese fundamental é a de que o debate público está disfuncional porque está muito largamente constituído por lógicas de grupo. E daí, então, a ideia de como fazer e o que fazer para tornar o diálogo possível. Mas, por conta desse título, essa premissa epistêmica veio ao proscênio do livro, e eu praticamente só passei a falar sobre ela. Quando, na verdade, essa é a premissa do livro. Mas o livro é organizado em capítulos que tentam desconstruir pares de oposições, que eu acredito que estão justamente muito sedimentadas ou polarizadas por conta dessas lógicas de grupo.
Por conta das lógicas de grupo, foram se criando oposições que são muito ingênuas. Ou, o contrário, né? Ou, na verdade, são muito astuciosas, porque são, e foram formadas seja por objetivos eleitoreiros, seja por objetivos inconscientes de manutenção da lógica de grupo. Mas, são oposições erradas do ponto de vista teórico e histórico. Erradas no sentido de que elas são simplórias demais, como, por exemplo, a oposição entre liberalismo e socialismo. É verdade que há duas tradições que se formaram e que, nos seus pontos mais puros ideologicamente, elas são completamente distantes. Mas também é verdade que, ao longo de pelo menos mais de um século de convívio, essas duas tradições também se misturaram. E, do ponto de vista teórico e ideológico, estou dando só um exemplo, essa coisa de liberalismo e socialismo fundaram toda uma tradição, que é tanto de uma esquerda socialista que foi se movendo mais para uma social-democracia – e foi, portanto, se flexibilizando a princípios liberais – quanto de uma tradição liberal na origem, que também foi assimilando princípios, valores da tradição socialista e aproximou-se dela. É o caso dos sociais liberais, como o Norberto Bobbio, como o John Rawls, pra ficar entre os mais famosos. Então, o que eu procurei fazer foi identificar o que me parecem ser as zonas mais sensíveis da vida política, social, brasileira neste momento e tentar desconstruir as oposições em que essa discussão está fundada. Mas eu quase não falo sobre isso. Falo mais sobre a questão epistêmica mesmo de lógicas de grupo. Que foi, na verdade, também a origem da sua pergunta, não foi?
CONTINENTE Sim. E aí queria complementar: quais são as raízes dessa falta histórica de diálogo no Brasil?
FRANCISCO BOSCO Acho que são muitas e de temporalidades diversas. Tem uma que é a que se confunde com a própria origem do Estado brasileiro, que é um Estado que acumula cinco séculos de injustiças estruturais muito grandes, injustiças econômicas, sociais, raciais, de gênero. O Brasil tem um passivo gigantesco de injustiça. E me parece razoável pensar que as situações objetivas das pessoas, quando elas são muito diferentes e muito injustas entre si, tendem a produzir posições epistêmicas muito diferentes também. É irrazoável supor que um país muito desigual vá ter um debate público que parta de referências comuns, porque as referências reais são muito diferentes. Num primeiro nível, a resposta
